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Uma história de luta

Não tenha medo de denunciar injustiças, ainda que esteja em desvantagem. Não tenha medo de procurar paz, mesmo que a sua voz seja pequena. Não tenha medo de exigir paz.” Estas palavras inspiradoras de coragem pertencem a Ellen Johnson Sirleaf, actual presidente da Libéria e Nobel da Paz em 2011, juntamente com Leymah Gbowee e Tamakel Karman, uma mulher que tem um lugar assegurado na História do mundo e, especialmente, de África. Não tivesse sido ela a vencedora das eleições presidenciais da Libéria em 2005, tornando-se assim a primeira mulher eleita Chefe de Estado na história do continente africano.

Admirada e celebrada em todo mundo, Ellen Johnson Sirleaf, à semelhança de outras figuras políticas mundiais, não é imune a alguma controvérsia, especialmente, no seu país. Por exemplo, aquando da atribuição do Nobel da Paz a Sirleaf, em 2011, pela luta não violenta contra a injustiça, ditadura e violência sexual, houve muitos que aplaudiram a decisão do comité do prémio Nobel, mas houve quem não escondesse o seu desagrado. Christine Cheng, do departamento de Política e Relações Internacionais de Exeter College, escreveu que esta distinção “cimentou o seu estatuto de celebridade no circuito político. Mas contrariamente às suas co-vencedoras, Leymah Gbowee e Tawakkul Karman, Ellen Johnson Sirleaf tem um passado ligado a um violento movimento rebelde e, desde 2006, lidera uma administração atormentada pela corrupção”. Recorde-se que Sirleaf apoiou a rebelião liderada por Charles Taylor contra o presidente Samuel Doe em 1990, contudo, mais tarde passou à oposição e concorreu contra Taylor nas eleições presidenciais de 1997. Ainda no mesmo artigo sobre a vencedora do Nobel da Paz 2011, Christine Cheng questiona: “É uma santa? Não. Merece o prémio Nobel? Absolutamente.” Já para Desmond Tutu, um anterior galardoado com o Nobel da Paz, não há dúvidas que Johnson Sirleaf mereceu esta distinção. “Ela trouxe estabilidade a um país que caminhava para o inferno”, elogiou.

Afinal é inegável o empenho de Ellen Johnson Sirleaf na defesa dos direitos das mulheres liberianas, desde o primeiro dia do seu mandato. Durante o seu discurso de posse, Sirleaf referiu-se ao assunto tabu da violação. “Apesar de uma percentagem significativa de mulheres terem sido abusadas sexualmente durante a guerra civil, a violação ainda era encarada como um assunto privado. Confrontar o problema tão francamente e seriamente numa ocasião tão importante colocou as mulheres no centro da sua presidência”, esclarece Christine Cheng.

Algo perceptível entre as mulheres da Libéria. Etweda “Sugars” Cooper, secretária-geral da Liberian Women’s Initiative, quando questionada sobre quais foram as maiores mudanças para as mulheres da Libéria desde que Johnson Sirleaf foi eleita, respondeu que existe um sentimento de orgulho entre as mulheres, pois sentem que podem atingir os seus objectivos. “Ajudou a construir confiança nas mulheres. E existem muitos projectos e oportunidades para as mulheres. Hoje há muitas mulheres no governo e mais mulheres empregadas no sector privado. A agenda do género está a ser cumprida. E o simples facto de que temos liberdade de expressão e liberdade de movimento, sem sermos assediados pelos serviços de segurança, o que faz toda a diferença em relação ao passado. Agora podemos falar sobre violação e não sermos estigmatizadas e a justiça está a ser cumprida”, declarou.

Porém, a missão de Ellen Johnson Sirleaf não é de todo fácil. Ainda numa recente encontro com George Rupp, presidente do International Rescue Committee, a presidente da Libéria relembrou que quando começou em 2006, “após 14 anos de guerra que devastou o país, economia criminalizada, instituições disfuncionais, fuga de cérebros, a maioria das pessoas fora do país, infraestruturas destruídas por falta de manutenção e trabalho ao longo de anos de conflito, e, por isso, tivemos de começar a partir do zero”. Após a sua eleição, Ellen Johnson Sirleaf lançou as mãos ao complicado trabalho de reconstruir um país desolado pelas atrocidades da guerra civil e mergulhado numa terrível dívida externa. Passo a passo, Sirleaf tem conseguido eliminar a dívida nacional, tem construído infra-estruturas básicas como estradas, iluminação pública, escolas e unidades de saúde, tal como tem conseguido diminuir a taxa de desemprego e aumentar o nível de escolaridade dos jovens liberianos.

Durante a entrega do prémio Nobel da Paz, a galardoada confessou que a sua vida se transformou, quando lhe foi proporcionado o privilégio de servir o povo da Libéria, assumindo a “incrível responsabilidade de reconstruir uma nação praticamente destruída pela guerra e pilhagem. Não existe nenhum mapa para a transformação pós-conflito. Mas sabemos que não podemos deixar o nosso país voltar ao que era, Entendemos que a nossa maior responsabilidade era manter a paz”. Apesar do seu empenho e conquistas dos últimos anos, muitas são as vezes em que o dedo acusador é apontado a Ellen Johnson Sirleaf, em particular, pelos seus compatriotas.

Surpreendentemente, as mais recentes críticas à administração de Sirleaf têm sido endereçadas por umas das galardoadas com o Nobel da Paz em 2011, Leymah Gbowee. Focada em duas áreas principais, Gbowee critica o nepotismo que caracteriza o governo de Sirleaf, simbolizado pelos proeminentes cargos ocupados por três dos seus filhos. Robert é presidente da companhia nacional de petróleo e consultor sénior de economia, Fumba é presidente da Agência Nacional de Segurança e Charles é vice-governador do Banco Central. Por outro lado, Gbowee acredita que Sirleaf pouco tem feito para combater a pobreza na Libéria. “No primeiro mandato desenvolveu infra-estruturas. Mas de que servem as infra-estruturas se as pessoas não têm o suficiente para comer? A separação entre os ricos e os pobres está a crescer. Uma pessoa ou é rica ou é pobre, não existe classe média”, acusa. Estas críticas ganham maior preponderância se recordarmos que Leymah Gbowee foi em tempos uma das aliadas e apoiantes da presidente da Libéria.

De facto, a sombra da corrupção tem pairado sobre a administração de Sirleaf, mas será isto o suficiente para diminuir a importância do trabalho da actual presidente da Libéria na reconstrução do seu país, das conquistas obtidas em relação aos direitos das mulheres e do seu percurso político e profissional? Sem dúvida, há problemas a resolver no seio do governo de Ellen Johnson Sirleaf, no entanto, uma mulher que luta por aquilo em que acredita e que conquista algo que nenhuma outra mulher na história do continente africano havia conseguido anteriormente é e sempre será uma figura inspiradora.

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Adélia Abreu

Licenciada em Comunicação Social na Universidade do Minho, tenho trabalhado nos últimos anos como produtora de conteúdos.
A curiosidade e a vontade de querer aprender algo novo todos os dias, tem me levado a envolver-me em novos projectos como a CulturDoc e, agora, no Réporter Sombra.

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