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Uma casa a ruir

Não nos tocamos há tanto tempo. Os corpos andam discordantes. As mãos não fogem para lugares inesperados que provocam sorrisos, os olhos de um não procuram que os olhos do outro se fechem e que a alma relaxe. Nada me emocionava tanto como o teu corpo em cima do meu, ou o meu corpo em cima do teu, a pele tão conhecida que tocávamos só com a ponta dos dedos, porque a desvendávamos melhor do que com a palma das mãos.

Habitamos um amor onde as portas parecem querer trancar-se. O chão está sujo e os quartos estão escuros, cheios de frases e intenções pintadas nas paredes destruídas. Nenhum de nós se preocupa em recitar essas promessas que erguiam as paredes. Não nos damos ao trabalho de experimentar as maçanetas, de acender as lâmpadas, de tentar abrir as janelas perras. Não queremos mais arejar a casa, nem reconstruir os destroços. Habitamos um amor onde os vidros partidos impedem que o ar entre.

Não nos vemos há tanto tempo. Dentro de nós, parecemos outros. Os pensamentos andam incompatíveis. Os corpos cruzam-se em corredores mas os olhos sofrem da cegueira de quem já não quer saber. Perderam-se as saudades ridículas pelas ausências breves. Deixámos incompletos os futuros inventados, divergentes, contraditórios, que nos empenhávamos em ajustar. Nada me emocionava tanto como os delírios debaixo de candeeiros apagados, o espírito prostrado que se enchia de felicidade com o quotidiano, o vazio que encontrava sentido na novidade, na voz, numa compreensão metafísica que era só nossa – quente e confortável e aconchegantemente nossa.

Habitamos um amor que é uma casa a apodrecer. Não apodrece pelas tempestades que construímos; apodrece pelo abandono. Habitamos uma casa prestes a ruir. E quando ela cair, telha a telha, parede a parede, memória a memória, cada um de nós estará numa divisão diferente, sentado na solidão e mais longe do que a distância deixa imaginar, bebendo goles de esquecimento e com o olhar perdido a perguntar “onde é que foi que errámos?”.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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