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Um vinho inglês feito em Portugal?

A minha intenção na outra crónica era avançar mais acerca das regiões vitivinícolas. Roma e Pavia não se fizeram num dia e não escrevi pouco. Regresso ao Vinho do Porto, bebida muito pouco conhecida em Portugal.

Penso que todos já ouvimos pessoas dizerem que não gostam de Vinho do Porto. É legítimo. É um direito. Porém, impõem-se a pergunta:

– Que Vinho do Porto conheces, ou já provaste?

Com tanta gente a afirmar (passo a vida a ter esta conversa) que não gosta de Vinho do Porto, porque raio terá Luís XIV de França dito que era “o rei dos vinhos e o vinho dos reis”? A malta de Champanhe e de Tokaji reclama a mesma afirmação.É que o Vinho do Porto – tal como o Vinho da Madeira – é muito vasto e complexo. No século XIX, havia o dizer – provavelmente saído da boca sábia dum escritor – que há tantos tipos de Vinho do Porto quanto a variedade de fitas num retroseiro.

Antes de tudo, é preciso especificar o que é o Vinho do Porto, já que o seu território é coincidente com o do vinho de mesa com Denominação de Origem Controlada Douro. O Vinho do Porto – como os Vinho da Madeira, Moscatel de Setúbal, Moscatel do Douro, Vinho de Carcavelos, Vinho da Graciosa e Vinho do Pico – é um vinho fortificado, cuja fermentação foi parada por adição de aguardente. As leveduras transformam o açúcar em álcool, mas, a partir de determinado teor, morrem. Assim, se mantém uma doçura muito mais próxima da do mosto.

Em termos sucintos, há três estilos de Vinho do Porto: Branco, Ruby (inclui Rosé) e Tawny. Quanto aos brancos, há uma nuance, é que podem ser trabalhados como um tawny. Como se vê, a terminologia empregue no Vinho do Porto é britânica, que começaram a abastecer-se em Gaia, por causa da Guerra da Sucessão de Espanha (1701 a 1714), que opôs ingleses (e outros) contra Espanha e França. Em 1703, os britânicos assinaram connosco o Tratado de Methuen, que foi desastroso no geral, embora positivo para o sector do vinho.

Por regra, os Vinhos do Porto não têm indicação da data da colheita. Isso resulta da tradição de misturar vinhos de diferentes anos. Contudo, há excepções e que querem dizer que algo de especial se passou nesse ano.

Os Portos Brancos são normalmente servidos como aperitivo: Muito Doce (Lágrima), Doce, Meio Seco, Seco e Extra Seco. Além de funcionarem bem só por si, alinham-se facilmente com outras bebidas, nomeadamente com gin London Dry.

Os tawnies apresentam-se em tonalidades que vão do vermelho acastanhado até ao aloirado. No geral, são vinhos tintos, embora vários produtores façam-nos com uvas brancas. Estes vinhos estagiaram em vasilhame de madeira, quase sempre de enormes dimensões. Quem nunca viu imagens, ou visitou, as caves de Vinho do Porto, em Gaia?

O uso da madeira no fabrico de vinho pode servir vários propósitos. Nos tonéis, secularmente avinhados, a madeira permite uma micro-oxigenação. Ou seja, a porosidade da madeira deixa entrar ar de modo suave e contínuo, o que oxida lentamente o vinho. Esses tons castanhos derivam dessa oxigenação. O oxigénio estraga o vinho – já todos abrimos uma garrafa com vinho castanho e azedo. A culpa foi do ar. Neste caso, a entrada de oxigénio é muito suave, administrada de forma homeopática. Esta oxigenação tem uma grande vantagem. O vinho aguenta-se em bom estado depois de aberto, porque já está vacinado. Quanto mais antigo for, mais vacinado está. Os tawnies (sem mais indicação) são os básicos. Conforme a idade passam a Reserve, Special Reserve e Fine.

A piada começa a partir dos tawnies com 10 anos. É claro que, quanto mais antigo, mais caro. A nomenclatura implica idade média dum vinho – pelo que um tawny de 10 anos pode ser metade de cinco anos e metade de 20 anos.

Os patamares seguintes são 20 anos, 30 anos, 40 anos, Tawny Muito Velho e Colheita (indicação do ano). Estas duas últimas categorias não têm relação hierárquica, um Tawny Muito Velho não é necessariamente inferior a um Colheita, e vice-versa.

Para se ter uma ideia, a Taylor’s lançou, em 2011, um vinho de 1855, o Scion. Evidentemente, qualidade, antiguidade e raridade traduzem-se em 2.500 euros. Este ano, apresentou o 1863 Single Harvest de 3.000 euros. Não tem nada a ver com o St. Bart, que custa pouco mais de três euros no Minipreço.

Na família Ruby passa-se exactamente o mesmo, sendo que o vinho estagiou em vasilhame que não madeira, normalmente em garrafa. O Ruby (sem mais nada) tem a mesma patente que o Tawny. Em 2008, surgiu o Pink (idêntico ao Ruby), uma invenção (da Croft) para alinhar com a moda dos rosés e ajudar a despachar stock. O problema dos rubys é que têm de ser bebidos num curto espaço de tempo. Quanto mais tempo passar, mais qualidades vão desaparecer e maior o risco de azedar. É tal e qual como um vinho normal. A outra face da moeda é aviar duma vez, no mínimo, 16,5 graus de álcool.

Os Vinhos do Porto engarrafados são quase sempre de boa qualidade, porque o vidro é caro e quebradiço. A família dos rubys não tem equiparação às dos tawnies quanto a idade. Assim, além dos patamares básicos, existe o Late Bottled Vintage, que resultou do percalço inicial de ser engarrafado mais tarde (década de 50) e ficou o estilo, o Garrafeira (só existente na Niepoort), Vintage Single Quinta e Vintage (Clássico).

O termo «clássico» vem de onde? Tradicionalmente, eram os comerciantes que faziam os lotes dos vinhos, guardando os melhores para serem vendidos mais caros. Para isso misturavam (misturam) o melhor da Quinta A, com uma parte do da Quinta B, mais um bocadinho da Quinta C. É como fazer uma equipa. Já o Single Quinta é por vir – obviamente – duma só propriedade. Há ainda o Crusted, ou Crusting, que é um vinho feito a partir de diferentes Vintage – são raros.

As casas exportadoras eram quase todas britânicas, restando apenas três empresas – a The Fladgate Partnership (Croft, Fonseca e Taylor’s), a Symington (Warre’s, Dow’s, Cockburn’s, Smith Woodhouse, mais vinhos do Douro e Madeira) e a Churchill. Cada casa tem um lugar na The Factory House (Feitoria Inglesa), que começou por ser um centro de negócios dos britânicos do Norte do país e se transformou num club de cavalheiros (já deixam entrar senhoras e também como sócias). Mantém-se o almoço de quarta-feira (não havia barcos para a Grã-Bretanha à quarta-feira, pelo que se podiam embebedar descansadamente) e onde se lê o The Times do dia e o The Times de há um século.

Para baralhação final, os americanos deslumbraram-se com o Vinho do Porto, especialmente com os Vintage. Só que nos Estados Unidos da América é tudo a correr, ninguém quer esperar. Assim, muitas casas optaram por fazer vintages num estilo mais «americano», mais doce e pronto a beber, e outro clássico, britânico e que se beberá dentro duns anos. Os preços são idênticos na compra, mas quem adquire antigo paga mais. Quem investir, ou “investir”, gasta praticamente o mesmo.

Só é Vinho do Porto aquele que é aprovado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, cuja câmara de provadores valida também a categoria em que se vai inserir. Não basta o produtor querer declarar Vintage, o seu vinho tem de ser validado.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa.

Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais.

Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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