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Um Vício chamado Alcoolémia

Em nada pesam os 22 anos de estrada que os Alcoolémia trazem na bagagem, uma vez que, depois de tanto tempo, continuam como uma jovem banda com fortes influências do Rock português. Mesmo depois de tantas mudanças, os Alcoolémia mantém-se fiéis a si mesmos e aos seus fãs, procurando sempre melhorar o género de Rock que fazem, não abandonando a língua portuguesa como língua cantada. Superam todas as dificuldades e apresentam-nos agora o single “Leva-me Onde Quiseres”, prometendo ainda voltar aos palcos no Verão e surpreender todos os fãs de Rock português com o novo álbum “Palma da Mão”.

Quem são os Alcoolémia?

A banda Alcoolémia neste momento é composta por João Beato na voz e guitarra, Pedro Madeira é o nosso produtor, guitarrista solo e voz, o Carlos Sousa o nosso saxofonista, o Bruno Paiva é o nosso baixista, o Márcio Monteiro o nosso baterista e eu (Manelito) na guitarra ritmo e voz.

Como se juntaram?

Tudo começou por início dos anos 90, éramos um grupo de amigos com grande vontade de fazer música e após alguns de nós terem comprado instrumentos, tentado alguns sítios de ensaio, trocas de instrumentos e lugares pois tínhamos um baterista que ainda não sabia que o era, a tocar guitarra, e um baixista que viria a ser o guitarrista solo mas que também não o sabia que era. Após estarmos todos os 5 nos lugares certos, passámos à composição de alguns originais, e com apenas 3 temas que era o exigido para concorrer a um concurso, gravámos a primeira maquete e fomos uma das 12 bandas apurados para aquela que viria a ser a nossa estreia no Concurso de Música Moderna chamado “Seixal Rock” em Agosto de 1992.

Depois de 22 anos de estrada, como foi gerir as mudanças de rosto na banda?

Não foi complicado, porque logo cedo apercebemo-nos que nem todos estão na música com os mesmos objetivos, a mesma entrega, a mesma dedicação, e a mesma vontade de levar uma banda para frente, por isso já tantas pessoas passaram pela banda, quem disse que era fácil enganou-se bem.

“Palma na Mão” é o vosso quinto álbum de originais, falem-nos dele.

Bem este álbum “Palma da mão” para mim e para os actuais integrantes é o nosso melhor trabalho, hoje em dia temos melhor executantes, mais experiência em todos os aspectos, desde composição/produção e acima de tudo temos um novo vocalista multi-instrumentista e muito ecléctico, que nos permitiu sair da nossa linhagem habitual e apresentarmos ao público algo um pouco diferente do que tínhamos feito nos outros álbuns anteriores. Tem 10 temas cantados em Português, onde temos desde o Pop ao Rock, ao Rock Alternativo, ao Grunge, este trabalho foi produzido pelo nosso guitarrista Pedro Madeira, gravado e misturado por Pedro Madeira e João Miranda no Rockstudio no Feijó, e foi masterizado por Tó Pinheiro e Pedro Madeira.

O que o difere dos outros álbuns?

A primeira coisa e a mais notória é a voz do João Beato, que faz uma grande diferença, em segundo lugar aponto para as composições em estilos musicais desde Rock Alternativo ao Grunge que foram os nossos maiores desafios. Apontar ainda o facto de termos no João Beato o nosso atual letrista com uma visão, e uma maneira de escrever bem diferente do nosso ex-vocalista, até porque o João Beato é professor de Português. Para além disso tivemos a participação em duas letras de um amigo músico/compositor o Hugo Costa, que já escreveu para os Dr Estranho Amor, Vivianne, Santos & Pecadores entre outros, que nos satisfez bastante. Tivemos também a participação do músico/produtor Paulo Borges nos Teclados/Hammond, que deu um contributo notável em alguns temas deste álbum, nomeadamente os dois primeiros singles “Palma da mão” e “Leva-me onde quiseres”.

Como foi chegar até aqui? Desde banda desconhecida, ao quinto álbum.

Tudo aconteceu muito rápido, após a estreia em Agosto de 1992, até entrarmos em estúdio para gravar o 1º álbum em Outubro de 1994, foi vencer 3 Concursos de Música Moderna como eram chamados na altura, até porque tínhamos um tema chamado “Não sei se mereço” que naturalmente despoletou todo um interesse em nós, na nossa banda , desde rádios, agentes, produtor, editora e que nos catapultou para o sucesso, completamente inesperado por parte da banda. O grande desafio tem sido a dificuldade em conseguir gerir a entrada e saída de elementos, que acabam por dificultar o normal funcionamento de uma banda. Com a 1ª editora com que assinámos,  lançou o 1º álbum “Não sei se mereço” em 1995, o 2º álbum “Não á tretas” em 1997, e o 3º álbum “Até onde” em 1998. Depois disso praticamente encostou-nos á prateleira, sem qualquer plano de edição, nem soluções  para a nossa situação, que nos complicou um bocado a vida, somente em 2005 é que nos conseguimos desvincular do contrato, para que pudéssemos assinar com outra editora, e isso quer queiramos ou não, podia ter acabado com a banda. Apesar disso nunca baixámos os braços e nunca parámos de tocar ao vivo. Mesmo durante esses anos em que não editámos nenhum álbum, tivemos várias participações em colectâneas, aparições em programas de tv, e só em final de 2007 lançámos o 4º álbum “Alcoolémia”, com nova editora, algumas alterações na sonoridade da banda, alguns convidados que teve uma aceitação razoável, com 2 temas incluídos numa novela juvenil o “Areia de pedras salgadas” e “Há quanto tempo ando aqui”, que nos permitiu voltar a falar-se da banda e mostrar que estávamos cá para ficar. Em 2014 lançamos o nosso 5º álbum, que estamos ainda neste momento a promover/divulgar.

Já outras nos disseram que cantar em português é um orgulho e uma aposta ganha. E para vocês, é uma aposta ganha?

Como foi uma situação que surgiu naturalmente, nada pensado para atingir objectivos, não consigo ver como uma aposta, mas como uma solução para altura que se vivia, todos os elementos que faziam parte da banda no inicio, estavam de acordo que se cantasse em português e para reforçar isso, o inglês do nosso ex-vocalista era fraco, logo estava totalmente posto de parte cantar-se em inglês, pondo isso ficou a nossa língua materna em vantagem e ainda bem, que todos sabem que apesar de ser bem mais difícil de escrever, e cantar, acabou por funcionar de forma bastante positiva para nós.

Com 22 anos de existência, de certeza que existem muitas histórias caricatas. Contem-nos o episódio que considerem ser o mais caricato da banda e que melhor recordam?

Estávamos nós na tour do 1º álbum “Não sei se mereço” em Sabugal em 1996, quando tipo a meio do alinhamento o nosso ex-vocalista diz uma asneira e deixa de cantar a meio de um tema. Nós sem perceber o porquê, instintivamente continuámos a tocar, ele ficou abaixado de pernas dobradas, sem dizer nada, uns eternos segundos e somente quando se ergue e volta a cantar, é que nós nos apercebemos que está á frente dele no palco uma moeda de 50 escudos, portanto deduzimos logo que alguém do público o tinha atingido nas partes baixas e que o fez parar de cantar, mas ele não deu parte fraca e continuou como se nada tivesse acontecido. Claro que este episódio deu galhofa entre os músicos, que apesar de ser condenável o ato em si, não deixámos de elogiar apontaria de quem mandou a dita moeda.

E o melhor concerto?

Vou destacar dois, um em 2011 no Pavilhão do Restelo na 1ª parte dos dinamarqueses D.A.D., e dos ingleses FM,  e outro já mais recente em 2014 em Setúbal, no Rock no Sado a partilhar o palco com os 2 maiores nomes do rock cantado em português, os UHF e os Xutos & Pontapés.

Soube ainda que houve uma pausa longa entre o quarto álbum e este quinto, porquê esta pausa?

Como atrás fiz referência, o 4º álbum foi lançado em final de 2007, em 2008 e 2009 andamos na estrada em promoção e espetáculos um pouco por todo o País, o line-up dos Alcoolémia sofreu algumas alterações, trocámos de baterista, trocámos de vocalista e abdicámos de teclista. Tivemos plena consciência do que estávamos a fazer, e passados todos estes anos termos a certeza que estas alterações foram positivas e deram os seus frutos, inclusive dado novo alento á banda. O único senão que sinto foi o coincidir com o envolvimento dos nossos elemento todos em projetos paralelos, passo a citar para quem desconheça os Dr Estranho Amor, os Pearl Band (Tributo a Pearl Jam) e Re-Censurados (Tributo a Censurados). Entretanto a crise económica em Portugal agravou-se durante os anos 2012 e 2013, e acabou por influenciar o atraso da concepção do “Palma da mão”, sendo editado neste verão que passou de 2014, quando sentimos que estavam reunidas algumas condições necessárias para a realização do mesmo, nomeadamente com uma editora envolvida no processo, e promoção deste nosso 5º álbum.

O que mudou na banda?

Mudou muita coisa, desde agência que nos vende os espectáculos, neste momento estamos também com um novo manager, com um novo site, um novo logótipo, hoje temos outro tipo de apoios que não tínhamos á uns anos atrás. Uma nova atitude com outra abordagem ao que pretendemos, com mais pessoas envolvidas, que gostam da banda e que acreditam no nosso  potencial, e isso reflecte-se na vontade de fazer música como á muitos anos não sentíamos e tudo graças ás alterações que fizemos, no seio da banda.

Porquê arriscar e mudar o vosso estilo?

Faz parte de uma vontade de nos superamos a nós próprios e ao que já alcançamos, o nosso maior desafio é ser capaz de surpreender pessoas que se  interessam por Rock, no fundo também é uma maneira de mostrar que apesar dos nossos mais de 20 anos de carreira, ainda temos capacidade de arriscar, e não dar nada como certo.

Onde vos podemos ouvir e ver?

Estamos neste momento a fazer as Fnacs, já fizemos a de Almada, Leiria, Cascais, Colombo e vamos estar dia 6  Março na Fnac de Setúbal. Estamos agendar também a do Chiado, mas ainda não tenho a data certa. Quanto a espectáculos só para o início do Verão, a seu tempo divulgaremos mais pormenores.

Que objectivos e sonhos têm para 2015?

Para além da promoção do 2º single “Leva-me onde quiseres” que estamos neste momento a fazer, estamos também já a gravar o 6º álbum, que sairá ainda este ano de 2015, que vai ser uma surpresa para os nossos fãs, e que ainda não podemos desvendar pormenores. Estamos a marcar espectáculos para este ano de 2015 e se tudo correr de feição lá para final deste ano contamos começar a composição de novo material que virá a fazer parte do nosso 7º álbum, a ser lançado para o próximo ano.

Como cativariam os leitores do Repórter Sombra a ouvirem-vos?

Prefiro lançar um desafio aos leitores do Repórter Sombra de escreverem uma frase sobre o nosso 5º álbum “Palma da mão”, aos 5 autores das melhores frases, distinguidas por nós, será enviado como prémio um cd autografado por todos os elementos dos Alcoolémia. Mãos à obra…

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Inês Faro

Estudante de Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade. Vivo para a música e grande parte dos meus interesses está nessa arte, nesse mundo tão vasto e com tanto ainda por descobrir.

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