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Um verbo chamado cancro

Era Setembro e nesse ano, o mês estava particularmente apetecível. Ameno e com um sol convidativo, chamava a praia e a banhos. Havia muitas conchas e os passeios resultavam em pequenos tesouros. Tantas e com tantos tamanhos e feitios faziam uma colecção que deliciava qualquer um. Imaginava-lhes percursos até terem aportado naquela praia e finalmente descansarem. Aqueles dias eram um doce que sabia tão bem a seguir a umas férias bem apetitosas.

Numa noite, como outra qualquer, antes de me deitar passei o creme pelo rosto e olho para mim. Alguma coisa não batia certo. O mamilo direito estava retraído. Instintivamente, levei a mão à mama. Toquei-lhe e percebi que uma massa estava presa. Foi o momento da chamada à Terra e da tomada de consciência do que se estava a desenrolar. Aquela coisa dura estava presa. Soube logo que a minha sina estava lida. Tinha a certeza que era cancro da mama. Do calor passei para o frio e da calma passei para o turbilhão de sentimentos.

Disse-me: ‘Sabe o que vai enfrentar?‘ Eu pensava que sim. A mais pura das ilusões. No entanto, estava disposta a enfrentar o bicho de frente, sem redes e com leões por baixo.

Fui-me deitar. As almofadas costumam ser boas conselheiras. Não conseguia dormir. Tinha acontecido ou simplesmente era fruto da minha imaginação? A única doença que me assustava era o cancro e agora, mesmo sem ter a sua confirmação, aparecia à minha frente como se tivesse sido convidado. O chão não me fugiu nem senti o quarto a andar à roda. Aterrei de pés bem firmes. Vislumbrei um caminho longo e complicado. Estava bem longe da realidade.

O que se faz nestas situações? Ir ter com quem percebe e está habilitado a tratar estas situações. Apesar de ser uma das contempladas com a ausência de médico de família, tive a sorte de me deparar com um ser humano repleto de sensibilidade e interesse. Uma verdadeira profissional. O seu semblante dizia tudo. Começou o calvário nesse momento e sei que nunca irá terminar. Não se pense que esta doença desaparece. É um mito. Simplesmente acalma.

Uma mamografia e uma ecografia efectuadas na clínica do costume. O médico de sempre. Nada na mamografia. Tenham muito cuidado, porque este exame pode ser enganador. A ecografia deixava bem claro as minhas suspeitas. Estava ali. Não era imaginação. Era a verdade. Vi-o preocupado. Disse-me: “Sabe o que vai enfrentar?” Eu pensava que sim. A mais pura das ilusões. No entanto, estava disposta a enfrentar o bicho de frente, sem redes e com leões por baixo.

O exame revelou que estava num patamar bem mais elevado que se pensava. Fui imediatamente encaminhada para o especialista que me trouxe alguma calma e tranquilidade. No meio do deserto dos receios, encontrei um oásis onde tive a possibilidade de descansar temporariamente. Explicou-me tudo o que previa que fosse possível de acontecer. Começou a odisseia dos exames com nomes estranhos e complicados. Só esses permitiam confirmar todas as suas suspeitas.

Numa sexta-feira, o meu testamento estava em cima da mesa. Nas suas palavras, era “ruim” mas ia ficar boa. Uma antítese que ficou a martelar na minha cabeça. Eu sabia que tinha ouvido bem e por um breve momento desejei que o tempo tivesse parado e que não fosse comigo. No entanto, era e olhava para o médico com olhos de futuro incerto e perigoso. Tão urgente se tornou que na semana seguinte estava no bloco operatório.

A rapidez da assistência não me deu grande margem de manobra para aqueles pensamentos negativos que gostam muito de aparecer sem serem convidados. Para mim, o cenário que se afigurava era de guerra e todas as armas seriam boas para a luta e vitória final. Levei o bom humor comigo e retirei imensos dividendos dos dias de internamento. Felizmente que o meu lado positivo estava em alta.

Uma enorme cicatriz no lugar de uma mama, uma mutilação carregada de memória e de dor. Não chorei. Nunca chorei e acumulei essa força para o que viria. Uma nova vida. Margarida Vale

Entrei mulher, saí amazona. Entrei com um corpo, saí com outro. As amazonas, mulheres guerreiras, cortavam a mama direita para que a pontaria fosse melhor. Tal e qual a minha nova forma. É, de longe, a parte mais difícil de aceitar. Uma enorme cicatriz no lugar de uma mama, uma mutilação carregada de memória e de dor. Não chorei. Nunca chorei e acumulei essa força para o que viria. Uma nova vida.

Decidi afastar tudo o que fosse negativo, agarrando cada vez mais os amigos, esses seres que nos dão luz e alegram a nossa vida. É nestas alturas que se descobrem os verdadeiros e os falsos embarcam com destino longínquo e bem desconhecido. É com eles que nos sentimos bem, é com eles que podemos desabafar, é com eles que sabemos que podemos contar. Eles estão sempre lá.

Saí do hospital com uns balões para me fazerem companhia. São os drenos e têm uma função específica muito importante. O dormir é complicado, porque não me podia virar, mas rapidamente aquele incómodo desapareceu. Primeiro um e depois o outro. Que alívio! Dormir é fantástico e nem sabia o que iria enfrentar. Além destes simpáticos amigos, ainda me foi ofertada uma prótese. O nome soa mal, mas é mesmo isso. Uma mama fofinha para substituir a que se foi.

O caminho é longo e ainda agora começou. Mais tratamentos e estes são dos que ficam ad eternum. O corpo é tão maltratado que acaba por se habituar e só tem que obedecer. Oficialmente sou uma toxicodependente e o meu corpo vai sofrer tanto que o deixo de reconhecer. Recebo tanta radiação que devo iluminar a cidade. Vendo bem tenho luz própria, logo sou uma estrela. Dispensava essa luminosidade.

Então, percebo que o cancro é um verbo que se conjuga em todos os modos e tempos. Os pretéritos estão longe de o serem e o presente do indicativo está de mãos dadas com o condicional. Bem se quer que o conjuntivo, o desejo, se torne em realidade, mas as conjugações nem sempre são escritas com letra corrente. Costumam ter letra de médico e torna-se bem difícil de serem percebidas e interiorizadas. Voltamos sempre à receita e olhamos com desconfiança.

Os cuidados passam a ser mais demorados como se ainda fosse uma bebé que está dependente de quem ensine. Atenções que se vão ganhando para precaver outros efeitos que não se querem. A mama fofinha é uma espécie de placebo que acalma os temores e sussurra que tudo vai ficar vem. Uma auto-motivação imperiosa e urgente. Mais tarde foi substituída por outra, mais real e com peso. E esse dia também ficou marcado no novo calendário da minha vida.

O verbo cancro volta a conjugar-se no presente do indicativo e na primeira pessoa. Um exame de rotina revela um segredo escondido. Um Kinder Surpresa cheio de fel, amargo e acre. Um sabor que se instala e não mais desaparece. A outra mama também tem um nódulo. Voltei a não chorar. Agora ri. Raios parta a porcaria do destino que está a brincar comigo às escondidas e não estou a gostar nada disto. Este tipo ama-me, com toda a certeza!

Talvez tenha ficado mais forte com a primeira machadada, porque a segunda já quase que nem doeu. É para repetir tudo? Vamos a isso que se faz tarde! A verdade é que os tratamentos anteriores surtiram alguns efeitos e a situação ficou controlada. Temporariamente. Como a outra. Assim o espero, mas o receio teima em me assolar quando é a altura de repetir os exames. Sempre. Nunca fica de fora, sempre dentro.

Se ainda não conhecia nada no hospital, e ainda bem, agora sou uma verdadeira especialista. Todos os pisos, todas as assistentes e várias especialidades médicas fazem parte da minha nova vida. Rapidamente circulo do piso zero para o oitavo como se fosse uma atleta de alta competição. E apesar de ter algumas dificuldades, uso mais as escadas do que os elevadores que circulam com vida própria e param onde lhes apetece. Uma prova que me levará, certamente, aos jogos olímpicos da vida. Um atleta para sempre.

Nas esperas, que são muitas, volto a olhar para mim e a tentar perceber quem sou agora, o meu novo eu que ainda me desperta inúmeras dúvidas e incertezas. Os livros acompanham-me, mas os blocos tornam-se dominantes. Volto a um velho e salutar hábito, a escrita. Tinha ficado fechada na gaveta, mas agora esta abre-se e solta os lamentos. São pensamentos, contos, histórias, palavras e alguns desenhos sem nexo. Tanta coisa que tenho para dar e quero fazê-lo.

Finalmente, o acumulado salta com toda a pujança e disparo em todas as direcções. Torno-me colaboradora de várias páginas e sinto que o lastro vai ficando mais leve. Solto uma peça aqui, outra ali e o caminho afigura-se como luminoso e perfumado. Os devaneios poéticos são pessoais e desculpáveis. Não quero parar e nunca mais vou deixar este bálsamo que me alivia a alma, nem que seja temporariamente. Não. Será definitiva, a escrita. Quanto ao resto logo se vê.

Esta doença é uma enorme montanha russa que nos leva aos extremos com a maior das facilidades. Continuo a fazer as conjugações no presente na esperança de que o futuro chegue em breve. Ainda falta tanto para fechar a porta deste momento que me aconteceu. Chamo-lhe sacana e ele gosta. Um sádico que retira o máximo do meu sofrimento e angústia. Felizmente, não chego à chamada ansiedade.

Outro Testemunho: o de Alcina Gomes

Os braços começam-me a falhar. Para não forçar um acabo por sobrecarregar o outro. Incham e a sua funcionalidade torna-se reduzida. Mais tratamentos para minimizar o que não tem remédio. Os gânglios que saíram até faziam falta. Perco a força no braço que mais uso e preciso. Nova adaptação. Aprende-se como se ainda fosse criança e recomeça-se todos os dias, porque as aventuras são sempre variadas. E não param.

A reconstrução é outro bicho mau que se vai revestir de contornos estranhos. Na realidade, não é, mas como o meu corpo é dotado de uma capacidade estranha, uma espécie de coisa fora do normal cheia de surpresas, nada vai acontecer como previsto. Desafios que estão sempre presentes. O corpo que conhecia era outro e este, como ainda é novo, quer abalançar-se para tudo. Um ordinário.

Existem várias opções que me são “oferecidas”: prótese, o que significa colocar objectos estranhos no corpo e ter que haver manutenção, expansor com recurso ao músculo grande dorsal, que inibe ainda mais a utilização do braço e o TRAM. Este significa retirar gordura da barriga e refazer a mama. O risco de rejeição é menor, porque é material do próprio organismo. É o que dizem.

Volto ao bloco operatório cheia de esperança que seja fácil e rápido. De facto, correu tudo muito bem, mas o meu corpo é manhoso e não quis aceitar o que lhe tinham dado. Durante meses fiz todos os tratamentos possíveis e imaginários, mas ele, o corpo, teimava em não querer aceitar a nova realidade. Afinal, é um intruso só que já era seu. Uma birra muito complicada.

Mais cicatrizes, mais tempo para recuperação, mais forças que se vão buscar onde não se sabe que existem. Nada resultou e, após meses de “tortura”, porque não matam, mas deixam marcas, a decisão está tomada: regresso ao bloco. Mais uma anestesia geral, mais uma recuperação, mais limitações, mais incertezas. Desta vez, ficou tudo como se pretendia. Mas tem custos. Elevados.

O sol foi meu inimigo, durante todo este processo. Eu que gosto tanto de sol, de lhe sentir o calor, da sua carícia envergonhada ou afoita, tive que me recolher e transformar numa espécie de Morticia Adams. Só a sua luz era suficiente para ter efeitos nefastos e demorados para recuperar. Persistem em afirmar que é mesmo assim. Sinto-lhe a falta, mas há que saber fazer opções. Opto pela recuperação.

O martírio está longe de terminar. Mesmo com o sucesso da segunda cirurgia ainda haverá lugar a uma terceira, porque o corpo precisa de equilíbrio e deve ficar aferido. Será a vez de tratar da mama que vai sobrevivendo e que se lembra de me pregar sustos de quando em vez. Uma greve de enfermeiros muda o calendário e o que deveria ter ficada terminado há algum tempo, continua incompleto e sem data para conclusão.

Penso muitas vezes que teria sido melhor retirar as duas mamas e terminar este namoro forçado com o hospital e as equipas médicas. Basta-me o casamento de dez anos que terei com o medicamento para abalar tudo e acordar, todos os dias, grata por ainda cá estar para ter a possibilidade de me queixar. Faz parte de natureza humana e, apesar de ser um pouco diferente, também tenho os meus momentos.

Apesar de manter a calma e a boa disposição, tenho a certeza que o que me aconteceu vai resultar numa ausência de mais anos de vida. E os que terei são fracos, com pouca qualidade. Envelheço precocemente, todos os dias, mas nada posso fazer para alterar a situação. Brinco com o assunto, tento ver sempre o lado mais agradável e vivo como se não tivesse acontecido nada de mais. E não foi. Só um percalço ligeiro.

E o verbo continua a ser conjugado, todos os dias, num presente imperfeito que se vai alinhavando conforme os

Esta doença é uma enorme montanha russa que nos leva aos extremos com a maior das facilidades. Continuo a fazer as conjugações no presente na esperança de que o futuro chegue em breve. Margarida Vale

sentimentos e sensações que me são permitidas. A esperança nunca morre e continua no mesmo lugar, mesmo que tenha dias em que se esconda e queira chorar. Eu não a tapo, simplesmente aconchego-a para que repouse e volte com energia total.

Faço amigas, companheiras de luta que são recrutadas para o mesmo exército que eu e inventam armas com o que lhes aparece. Esta doença é tão castradora, porque rouba uma parte feminina bem visível, um símbolo que não pode ser, de modo algum, escondido e muito menos esquecido. É duplamente negativa, porque se nota e se percebe logo. De início ainda tentava disfarçar, mas para quê? Esta sou e aceito-me tal como estou.

Não se trata de vaidade, mas sim de uma parte do corpo, fundamental para uma identificação, um bem-estar e uma postura que se encontra na vida, uma busca que nunca tem fim. A parte física fica afectada, mas o outro lado, o psicológico, é o grande cavalo de batalha desta luta. Uma mulher sem uma mama é um destroço humano e precisa de muita força para se reerguer. Felizmente que tive sempre rédeas na situação e não me lancei em correrias que pudessem ter resultados perigosos. Vou a trote e chego lá.

Os efeitos secundários dos tratamentos e da medicação passam a ser menores, porque os relativizo. Vejo o lado mais interessante que me proporciona: apito nos aparelhos dos aeroportos. Eu bem disse que iluminava, mas agora também sonorizo. Explico o que se passa, mas não me ouvem. É caricato. Acabo por me divertir porque agora só quero ver o lado luminoso de tudo. Para quê os aborrecimentos?

O verbo cancro agora já pode ser conjugado no pretérito perfeito. Eu tinha uma mama com um tumor enorme. Já não tenho. Foi rápido. O pretérito imperfeito durou pouco tempo. Não precisou de relevância, mas sim de terminar. Acabou. Continuo no presente. Já tenho novamente duas mamas. Uma velha, de origem, vintage e malandreca e outra novinha em folha feita do meu corpo. Bonita e perfeita, porque não natural. Habituo-me a gostar dela.

Chama-se sobrevivência ou talvez renascer. Ainda não decidi, mas é só um nome e nem é assim tão importante. Acordo mais um dia e sinto que tenho que viver. Hoje e agora. Presente.

O cirurgião plástico é uma espécie de oleiro que retira a matéria prima de um sítio e, depois de bem moldada, coloca num outro, onde faz falta. Dá os retoques e fica à espera que a natureza siga o seu curso. Tenho uma mama maior do que a outra, porque ainda não terminou a saga das mamas que se amam. Espero que seja em breve. Brinco com a situação: tenho quatro mamas, logo, sou anormal. Duas estão no meu corpo, uma numa caixa especial e outra numa bolsa de crochet.

Aproveito todos os momentos e tento sempre dar a volta à situação. Abro os braços, mesmo que doam muito e custem a ser levantados e respiro fundo. Este ar é benéfico e muito revigorante. Sinto-o como se fosse a primeira vez e tem um sabor especial. Chama-se sobrevivência ou talvez renascer. Ainda não decidi, mas é só um nome e nem é assim tão importante. Acordo mais um dia e sinto que tenho que viver. Hoje e agora. Presente.

No entanto, escrevo no futuro, porque sei que ele existe, que a felicidade, seja ela lá o que for, é um motor de arranque com demasiada importância para não se conseguir atingir. Escolho rir mais, ler mais, escrever mais, divertir-me e viajar. Cada viagem é mais benéfica e saborosa que qualquer tratamento e resulta na perfeição para o combustível do que me impulsiona. Não sei se se chama alma, mas é o que faz toda a diferença. Disso não tenho a menor dúvida.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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