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ContosCultura

Um velho livro que não existe

Sentado num sofá de esquina no mesmo café de sempre, ele envelhecia. Não envelhecia no sofá, propriamente; envelhecia naturalmente, na vida, nos pedaços de tempo que marcam os relógios, as noites, as estações. Envelhecia nas rugas mensais, e depois nas diárias, nas manchas na pele, na vista a falhar, nas dores nas articulações. Por vezes, também se esquecia de certos nomes, de certas memórias. Esquecia-se até do que se tinha acabado de lembrar mas parecia, repentinamente, fugir-lhe. Uma quasi-lembrança.

Uma quasi-lembrança como ao ver um gelado cair, ouvir a campainha de uma bicicleta ou passar por algum lugar, mas não saber o porquê de não conseguir respirar mais. Ao sentir um cheiro, os olhos fechados procuravam no cérebro um correspondente. Ao ouvir uma palavra, ficava o resto do dia com aquela sensação de que havia algo de importante a martelar no mastóide, ou talvez no ouvido, ou, mais propriamente, em qualquer coisa que ele não compreendia tão bem e não chegava com um toque – o coração, o espírito, o passado. A sensação de algo a querer rasgar a pele e voltar do passado.

Na realidade, tinha a sensação que era quando se sentava naquele sofá de esquina daquele café, que ganhava uma fresca e inovadora juventude. Tinha as costas mais direitas e a visão mais limpa, a mente parecia correr mais depressa em direcção aos pensamentos que ele precisava. E nem se importava que essa juventude fosse imaginária, porque ele sentia-a nos dedos ágeis.

Os dedos ágeis. Sempre ocupados, sempre com a caneta numa mão e o cigarro na outra. O braço em cima do caderno, várias folhas antigas repletas de tinta, de frases, de um livro inacabado. Quando chegava ao café, já não se preocupava em tirar o chapéu, nem em incomodar os outros com o fumo do seu cigarro. Preocupava-se só em acabar esse livro que tinha na cabeça há quase oitenta anos. Às vezes, ouvia ecos de risos, como se passasse num túnel cheio de crianças e adolescentes de férias, a vir de uma praia, a ir para um encontro. Nesses dias, tinha a certeza que era capaz de escrever um livro tão bonito como o reflexo do luar no mar. Tinha uma certeza que o sufocava. Perguntava-se se seria já demasiado tarde para um Prémio Nobel. Aspirava alto, nesse dia em que pensava em livros bonitos, da mesma forma que se lembrava da luz do sol a transformar-se num arco-íris quando tocava as asas de uma libelinha. Não sabia porquê, relacionava os dois.

Ponderou como seria ter um ataque cardíaco naquele momento, deixar tudo (tudo o quê? Não havia nada, realmente) para trás e inacabado. Deixar aquele livro espectacular por escrever. Teve pena, mas espantou-se com a tranquilidade que sentia. Não fazia mal, ninguém ficaria aqui, pois não?

Até que veio uma memória. Passou as folhas cheias de ideias abandonadas, de rascunhos insatisfeitos, encontrou uma nova página branca e desatou a escrever. Como se fosse escrita automática, mexia-se o mais rápido que podia, tentando sequestrar para o papel todo e qualquer pequeno pensamento – não, palavra – não, memória –, tudo o que conseguia que lhe viesse à cabeça. Lembrou-se que numa tarde da sua infância viu várias libelinhas a voar, a emigrar, à procura de um paraíso melhor. Seguiu-as correndo, na sua bicicleta. Tocou a campainha da bicicleta para chamar os amigos, e, distraído, foi contra ela – ela, a menina de que ele e todos os amigos gostavam. Derramou-lhe o gelado e perdeu o voo das libelinhas. Ela gritou. E ele pediu desculpa. E ela gritou de novo, abraçou-se a ele e apontou para algum sítio. Ou para alguém. Algo de que ele não se lembrava, mas que tinha ficado bem enterrado dentro dele, como sendo um segredo que parecia não ter mais chave. Tinha-a perdido algures na mudança – enquanto crescia, enquanto envelhecia, enquanto largava os seus “eus” antigos e se ia transformando naquele velho escritor que era hoje.

Desistiu. Tinha escrito um pouco, mas sentiu-se insatisfeito, frustrado, desanimado. Aquele livro não seria só bonito; seria como espreitar através de uma fechadura e descobrir o maior dos segredos. Sim, aquele livro seria tão inacreditavelmente bonito que até ele teve dúvidas se sairia daquelas mãos velhas. Fechou o caderno, quase de forma brusca. Levantou-se e saiu para a rua, para um sol brilhante que lhe prometeu que amanhã era o dia que tanto esperava.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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