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Um século de memórias

O conforto das gotas a baterem no vidro. Olho atentamente para os caminhos que abrem ao deslizarem pela janela da minha avó. Noto o cinzento, quase noite. As luzes da rua acendem, há pneus a incomodar as poças de água, buzinas irritadas. Sei que sou mais do que sou. Sei que tenho uma missão. Observo o tempo enquanto bebo o meu leite quente com chocolate, e sinto que uma gota foge queixo abaixo, até aterrar nas minhas calças.

Desvio o olhar da janela e limpo o queixo com a manga da camisola.

Mastigo o último pedaço de pão de forma com fiambre, que a minha avó me preparou. Tirou as côdeas, sabe que eu não gosto. Mas gostava. Antigamente, na outra vida, adorava a côdea. É Inverno. Lá fora, chove. Cá dentro, nem me mexo. O aquecedor a gás está ligado e começo a sentir o calor nas bochechas. Picam-me os sovacos. O cabelo faz-me calor.

“Vó, tenho calor.”

“Shhh.” Ela nem precisa de abrir os olhos para reivindicar silêncio. Para exigi-lo, proclamá-lo. Ela é a dona do silêncio.

Preciso que ela adormeça. Tenho de esperar que ela adormeça. Concentro-me nos desenhos animados que brincam na TV sem som. Já me habituei ao burburinho da rádio que conta a missa em várias línguas. Ave Maria, Gratia Plena, Dominus Tecum. A minha avó, de olhos fechados, não sei se ouve a missa, se reza, se pensa na vida, se dorme. Eu repito em silêncio as palavras que conheço bem. Há anos. Há quase um século. Na televisão, algo me chama a atenção e rio-me alto quando o rato consegue fugir do gato.

“Shhh.” A avó controla o meu riso, mas a ordem vem em voz baixa. É quase um sopro sem voz. Vigilante. Quase a dormir.

Escorrego no plástico do sofá. Nunca gostei daquele sofá. Em casa dos meus pais os sofás não têm plásticos. Na casa onde eu vivia também não. São fofinhos e confortáveis, não me deixam escorregar para o tapete. A avó não percebeu que escorreguei. Oiço um leve ressonar, como se fosse um erro. Ela treme, um espasmo de quem acorda. Já me aconteceu. Outro ronco.

Abro a porta de casa e sento-me nas escadas. Não sei se tenho coragem. Dentro de mim está muito mais do que os outros conseguem ver. Dentro de mim estão memórias de quem eu não sou. Mas fui. E tenho de deixar de ser. Levanto-me e subo as escadas, agarrada ao corrimão. Passinhos pequeninos, levantando bem os joelhos porque sou pequenina e os degraus são grandes, antigos, imponentes. Vou até ao último andar e bato à porta. A enfermeira abre e sorri.

“Então, fofinha?” pergunta-me.

“Vim ver o Senhor Francisco” explico-lhe. A minha nova voz, custa-me dizer os “r”. “Vim vê o senhô Fancisco” é o que oiço. A enfermeira deixa-me passar. Nos olhos mostra a ternura que sente de me ver vir visitar um velhote que está sozinho, abandonado, moribundo. Sabe que sou a neta da Dona Custódia, do primeiro esquerdo. No hall de casa, o meu velho espelho. Observo-me. Consigo ver a criança de quatro anos que agora sou.

Entro no quarto. Vejo que continua, depois de todos estes anos, a dormir do lado que é dele. Não me consigo esconder: “Irene” chama-me logo. Nem me viu. Só um vulto pelo canto do olho, uma criança pequena que invadia o seu espaço.

“Não, senhor Francisco” corrige-lhe a enfermeira. “A sua mulher já não está connosco. Esta é a pequenina do primeiro andar, lembra-se dela?”

“Irene” ele chora, porque não se deixa enganar. Ele sabe. Moribundo, vê outras cortinas que estão impedidas aos vivos. O quarto cheira a morte – sei-o, já o senti – e quase que consigo tocá-la. Agarro-lhe a mão com as minhas duas mãos pequeninas e encosto a testa. Também eu choro. Choro quente, choro sal. Ele sabe porque é que vim. Diz suavemente o meu nome, entre a fantasia e a realidade. Adormece. Eu consigo ouvir ainda o coração ténue dele, que bate arrítmico, perdido. A enfermeira preocupa-se, sente-lhe o pulso.

Eu saio, devagar, silenciosamente. Ninguém me vê. Temo que ele não volte a abrir os olhos – o coração está cansado, a idade não aguenta mais carregá-lo. E eu deixo-o sozinho, contrariada. Mas é hora de ir embora e ele dorme. É hora de ir, de o meu antigamente ir embora. É hora de me esquecer e de aprender a ser a nova pessoa que sou. Mas vou chorar o luto do esquecimento destas memórias antigas, antigas, quase um século de memórias.

Saio do quarto e da casa e desço as escadas. Entro em casa da minha avó. Ela não acorda quando chego, não acorda quando me sento no sofá de plástico com aquele ruído irritante, não acorda com o meu choro, abafado entre o ressonar dela e a Ave Maria em latim.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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