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Um quintal para a montanha

A montanha via-se ao fundo do quintal ali tão perto, como se o portão desse para as suas entranhas e não para um normal caminho de pedras irregulares que a cicatrizava. Alta, mas sem esconder o céu permitindo desenhar as constelações na ponta do dedo indicador. Perto, mas sem lhe fazer sombra honrando o sol e calor do seu conforto… Depois de muito procurar, ali tinha encontrado o simples refúgio que tanto procurara.

Deixou a cidade como quem deixou a vida. Quedou-se na lentidão da ruralidade abrandando a sua própria existência. E aquela montanha tapava tudo o quis deixar para trás. A correria, o barulho, o caos, a vida. Fartou-se de correr tentando esticar os minutos que sempre se adiantavam a si. Quase enlouqueceu com os sons do simples ser alguém na cidade, sons que eram uma banda sonora na Mansão de Hades. Esgotou-se com as gavetas abertas que não fechavam na sua memória, pensamentos do caos dispostos em camadas irregulares. Gritou. Era um fim. Adeus.

Procurou para onde ir e numa distante terra, longe da vida que deixou a morrer num canto escuro, encontrou aquele local. Pegou em todas as poupanças e bens que tinha e arrumou o seu lar junto àquela montanha, construindo um belo relvado para a contemplar agradecendo.

Morto o caos, rejuvenescido ele, agora do outro lado da montanha acorda todos dias com os raios do sol a perfumarem a sua casa por entre os rasgos das persianas. Desperta e levanta-se, espreguiça a paz no seu corpo. Vai ao quintal e respira a humidade que todos os dias desce do topo da montanha para alimentar a relva, verde manto do seu passado em recuperação. Todos os dias se descalça à beira da relva e caminha nela sentido o frio da relva molhada a entranhar-se por entre os dedos dos pés até à sua alma. Avança em passos curtos, mas firmes, sorrindo a sua sorte. Chega ao portão no fundo do quintal desenhando os seus passos num fino e bem desenhado resto na relva. Depois de queixo erguido cumprimenta a montanha. Fala-lhe. Dedica-lhe afecto deixando-a mais bela a cada dia que passa. Espera uns segundos e respira fundo. Fecha os olhos para apenas sentir. Não ver apenas sentir.

Sente então que tem quase tudo e quase tudo o tem. Tem a perda e a perda o tem. Perdeu-a e ela perdeu-o. O caos levou-a e ele para ali fugiu. Revigorou-se e reaprendeu a amar-se. Assim o faz todas as manhãs naquele relvado falando com a montanha. Então lentamente regressa a casa com a montanha nas costas. Sem receio pisa a relva todos os dias, pisando o passado e marcando-o.

À porta de casa, antes de se iniciar em mais um dia entre os mortais, seca os pé e sorri perante os rastos que se desenharam na relva. Os seus e os dela. A perda era definitiva mas presença dela não.

Suspirou:

– Tanto te queria amar!

– Porque não o fizeste enquanto vivia?

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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