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Um problema de mínimos

A última semana foi repleta de coisas interessantes neste pequeno rectângulo à beira-mar plantado. Enxurradas varreram o país no início da semana, deixando, nomeadamente, Lisboa e Porto a viver um pequeno caos. Noutra perspectiva, mais uma enxurrada caiu sobre o Primeiro-ministro, desta vez em espírito retro, com uma denúncia anónima de fraude sobre Passos Coelho, que remonta ao período entre 1995 e 1999, e que envolve esse grande polvo chamado Tecnoforma.

O resultado foi o mesmo de sempre. Seguro, de forma mais ou menos directa, pediu a demissão de Passos Coelho. Soares, na sua já normal postura irascível, pediu a demissão de Passos Coelho, mas também a de Seguro! Enquanto isso, o ainda líder do PS tenta salvar a sua liderança contra a ofensiva de Costa, algo que ficará resolvido neste fim-de-semana. Sobre isto, apenas uma pequena nota. Apesar das boas audiências dos dois primeiros debates, o terceiro já não convenceu, pois rapidamente já se percebeu que o que existe entre Seguro e Costa é, na verdade, um verdadeiro ódio de estimação. Dos debates e da campanha para as primárias, o que se viu foi mais do mesmo, um bate boca, acusações mútuas e nulidade de soluções para o país. Contudo, não é esse o tema principal desta crónica.

No meio dos vários circos, um acordo para subir o salário mínimo nacional em 20 Euros foi estabelecido. O valor é baixo, sem dúvida, mas creio ser uma medida importante e que é necessária. No entanto, existem alguns pontos de reflexão que são necessários de ter em conta. Paralelamente a esta decisão, um apoio suplementar em relação a algumas empresas foi dado, com uma redução da TSU para os novos contratos com salário mínimo nacional e alguns dos já efectuados. Rapidamente ouviram-se as críticas por parte da esquerda, onde, nomeadamente, Seguro veio já prometer compensar as injustiças. Muitos falam em eleitoralismo e até admito que seja, mas não deixa de ser uma medida necessária.

O que para mim é importante de reflectir e perceber é a triste conclusão que, efectivamente, vivemos numa cultura de pobreza e diminuição, onde todos nós somos, realmente, culpados. É triste que o valor do ordenado mínimo nacional seja tão baixo, mas é também igualmente, ou mais ainda, triste, que tantas empresas cultivem um regime de ordenados baixos, tendo como desculpa a crise, a produtividade, ou seja o que for. Acredito que um funcionário deve receber aquilo que merece, desde a linha de produção até à direcção, proporcional, igualmente, às responsabilidades que assume. Contudo, um funcionário que todos os dias chega a casa e tem de contar o dinheiro para as contas e para a comida não irá, de forma alguma, ser um funcionário feliz de voltar ao seu trabalho e ser realmente produtivo, de forma a fazer crescer a empresa.

Não deveria existir um ordenado mínimo, mas ele é necessário, pois nem as empresas são justas, nem os trabalhadores fazem valer os seus direitos, ou sabem dizer um não, quando é necessário, com medo de perderem os seus escassos rendimentos. Não deveria ter de existir um ordenado mínimo, pois cada trabalho deveria ser justamente pago, mas não vivemos numa utopia, vivemos num mundo real, onde muitos trabalhadores são escravos por livre escolha. A cultura de pobreza e escassez com que vivemos há muitos séculos neste país resulta numa diminuição das nossas capacidades face ao exterior, numa postura de mendicância constante. Isto funciona em todas as direcções, não só na nossa imagem perante o exterior, como também e principalmente, de nós enquanto funcionários perante as empresas, de cidadãos perante o Estado. Digo muitas vezes que gostamos desta postura de subserviência por uma questão de comodidade. É mais fácil que sejam outros a assumir os custos e as responsabilidades do que agarrarmos o nosso destino, arriscarmos e vivermos o facto de que podemos perder, mas que também podemos ganhar muito.

Esta postura faz com que continuem a existir pessoas que continuem a dizer que sim aos estágios profissionais que sabem que nunca serão estágios, faz com que vivamos uma filosofia de funcionalismo, de dependência de subsídios e de “o Estado é que tem de cuidar de mim, porque não me apetece mexer”, algo que prejudica outros que realmente precisam de ajuda. Quando nos começarmos, verdadeiramente, a valorizar como pessoas e como sociedade, os ordenados começarão a subir. Quando as pessoas se recusarem a ir para os call-centers (e não dizendo que todos são maus, ou são mal pagos), os seus ordenados, certamente, subirão. Quando as pessoas deixarem de responder a anúncios para estágios profissionais para responsáveis de áreas, ou pior, para directores, essas situações começarão a desaparecer. Pedimos respeito, mas não nos damos, verdadeiramente, ao respeito. Não digo, com isto, que não existam situações de franca necessidade e que, muitas vezes, têm de se sujeitar, mas se deixássemos de ter a mania de assinar de cruz e deixar que os outros controlem o nosso caminho, talvez as coisas, mesmo para esses, já estivessem diferentes.

A classe política é o nosso reflexo e queixamo-nos muito dela, nomeadamente quando nos apercebemos que não existe um pensamento de bem comum, mas sim uma postura de insatisfação constante, de reclamação e luta constante, mas raramente dando propostas válidas e assentes na realidade do país. Em cada cidadão há um juiz, um advogado, um economista, um primeiro-ministro, um treinador e tantas outras coisas, porque todos têm opinião, mas raros a têm bem fundada, pois é mais importante quem entrou, ou saiu da Casa dos Segredos do que lerem notícias e esclarecerem-se.

Poderei ser acusado de inocência ou de utopia, mas esta é a mais pura das realidades. Portugal tem de crescer, muito mais do que os 20 Euros do salário mínimo, tem de crescer em postura, mentalidade e maneira de estar. Ao contrário do que muitos possam dizer, não acredito que isso tenha de começar pelo Estado, não. Acredito sim que tem de começar em cada um de nós.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d'Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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One Comment

  1. Não há empregos para todos todo o tempo nem vai haver nunca mais. O ordenado minimo defende(mal) as pessoas de crapulas -que como se ve todos os dias nos diversos espiritos- santos ou não, desprezam mesmo o semelhante.
    Quem acompanhou a luta livre em Portugal e vê agora as audiencias nos EUA percebe bem como o espectaculo precisa de um dose certa de “sangue” senão os espectadores afastam-se e o dono da arena acaba por apagar as luzes =querer que os dois xuxalistas sejam amiguinhos era matar as diretas para sempre.

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