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ContosCultura

Um pouco de morte

Saiu da florista após comprar duas rosas negras. Olhou em volta e hesitou pressentindo algo que se manifestou num frio tremor ao longo do corpo, de baixo para cima, como se algo tivesse entrado em si pelos pés, vindo das profundezas para sua alma. Lá se decidiu e avançou, pé ante pé. Nada aconteceu e continuou lentamente. Parecia uma criança no primeiro ano de vida a aprender a andar. Experimentou e deu vários passos consecutivos sem pausas. Parou e olhou para trás no exacto momento em que um carro invadiu o passeio e imobilizou com estrondo contra a parede onde há um segundo atrás se encontrava. Parou e viu um homem sair do carro de arma em punho. Logo estavam cercados pelo violento chegar da polícia. As luzes intermitentes, os gritos de ameaças, a reacção do acidentado feita com o som de um disparo. Atirou-se para o chão a tempo de apenas ouvir o silvo da bala a passar diante dos seus olhos. Na queda, as rosas perdem algumas pétalas. Mais disparos, um grito de agonia de quem perde a pessoa que há em sim. Vê o homem tombar ao seu lado, já sem vida, esmagando as pétalas negras caídas.

Fugiu daquele cenário. A polícia apressou-se para se certificar que o seu alvo já não significava uma ameaça e ignorou tudo o resto. Ele aproveitou e correu, ainda com o olhar vazio focado naquele corpo e o assobio da bala a segredar-lhe um caminho. Não sabia qual era mas tomou um. Sempre com as duas rosas na mão correu uma rua, depois outra e depois um apito sonoro, estridente, protestante. Um autocarro acabara de travar bruscamente tocando-lhe apenas o suficiente para o derrubar mas sem o ferir. Motorista e passageiros gritaram um misto de alívio com protesto por tão próximo terem estado do momento de testemunhar a morte de alguém tão incauto. Levantou-se pedindo desculpa. Pegou nas suas rosas deixando para trás mais umas pétalas negras.

Sabia-se atrasado depois de viver aqueles cenários e entrou num táxi, tentando recuperar o tempo perdido. O taxista percebendo a pressa na sua voz, acelerou tentando conseguir recuperar aquele tempo em atraso para o seu cliente, e assim ser recompensado com uma boa gratificação. Acelerou e fugiu ao trânsito como um contorcionista por entre uma multidão. Mas nem todos obedeceram ao seu desejo e alguém provocou um pé hesitante que o levou a travar tarde demais. Viu o taxista a guinar o volante repentinamente. O controlo do carro estava perdido. Os pneus gritaram avisando do acidente eminente, depois calaram-se quando tocaram o ar. O carro capotou, rodopiou uma e duas vezes, três, quatro, cinco até se imobilizar sob o parapeito partido de um viaduto sobre a linha do comboio.

Aparentemente ileso, libertou-se do cinto de segurança que o mantinha preso ao banco. Tombou e rastejou para fora do carro. Respirou fundo quando sentiu o carro desaparecer atrás de si, caindo sobre a linha de comboio. Para trás apenas pétalas negras das suas rosas. Mas as preciosas flores haviam caído com o carro e isso impeliu-o a atirar-se sobre o tejadilho do carro, dez metros abaixo do viaduto. Sentiu a dor nos ossos mas ergueu-se e esticou-se para o interior irreconhecível do táxi. Lá dentro o taxista era um boneco de cera, frio de alma perdida. Pegou nas suas rosas e lançou-se para o lado num salto abrupto que lhe permitiu evitar o comboio que fez desaparecer o carro sob uma nuvem negra das restantes pétalas das suas rosas. Olhou o caule despido e sorriu. Calmamente seguiu para casa cantarolando com os pássaros que com ele sorriam.

Passada uma semana regressou àquela florista e de novo fez o mesmo pedido. A florista deu-lhe duas rosas negras e perguntou-lhe “porque compra um pouco de morte?” Ele respondeu “faz-me sentir vivo.”

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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