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Um pequeno passo para o recomeço

O seu marido tinha morrido há dois meses, mas parecia que tinha sido ontem. De repente, fulminante, de um minuto para o outro. Inesperadamente. Como a vida.

Desde esse dia que ela tinha deixado de ir à janela. A roupa dele estava pendurada na corda a secar, e ela não tinha coragem de a tirar, de a dobrar, de saber que não tinha onde a pôr, ou tinha, mas que não adiantaria porque ele não voltaria. Isso levaria a pensar na roupa dele, e no sozinha que estava naquele quarto. Isso levaria a ter de assumir que ele não voltaria, que só voltaria a sentir o cheiro dele nas roupas escondidas no armário, que só o voltaria a ver em fotografias. Olhava para os filhos, que a traziam à realidade e lhe garantiam que ela tinha vivido com ele, que ele tinha sido real. Ir à janela apanhar a roupa obrigá-la-ia a ver o carro dele, ali estacionado como se estivesse fiel, à espera. E ela sabia que quando se habituasse a todas essas pequenas insignificâncias, esses pequenos silêncios, essas pequenas ausências, o processo de esquecimento começaria. E ela não queria esquecer. Ela não queria que a perda fosse natural, porque ele era jovem, era marido dela, e ela também era jovem.

Como é que estas coisas acontecem?

O telefone tocou. Calculou que fosse o filho, a telefonar de Londres, preocupado. Levantou-se do sofá e desligou a televisão (tinha estado ligada?). Atendeu o telefone:

“Sim?”

Ouviu a voz do outro lado, e pensou em desligar. Não conseguiu, era do Hospital, uma das enfermeiras que tinha conhecido quando o marido teve o ataque do coração. Começou a chorar, e pensou, estupidamente, que não chorava há muito tempo, como se se tivesse secado assim que a terra comeu o caixão com o corpo dele. Ouviu, e não respondeu, e no fim disse um fraco “sim” e desligou.

A filha levou-a de carro até ao Hospital, e acompanhou-a até à enfermeira. Ela sentia que ia desmaiar, e agarrava-se à filha com todo o peso da sua dor, da sua alma.

“Ainda bem que veio, eles pediram para conhecer alguém…” disse-lhe a enfermeira, sorrindo. Como se soubesse um segredo, como se tivesse a certeza que tudo iria correr bem. Ela não tinha tanta certeza, e arrependeu-se de ter aceite aquele pedido. Olhou para a filha, e apertou-lhe o braço. A enfermeira guiou-as até um quarto muito perto. “Este é o Carlos, que recebeu um dos rins do seu marido”.

Olhou para o rapaz deitado, com cerca de 30 anos. Ao lado dele uma jovem rapariga. Sorriram-lhe agradecidos, mas nenhum soube o que dizer. Sorriram durante muitos minutos, e a rapariga abraçou-as a chorar e a tremer. Feliz.

Nesse dia, chegou a casa e sorriu. Apanhou a roupa do estendal.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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