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Crónicas

Um melro fora da esquadria

A arte em Portugal é vista muitas vezes como se fosse uma pessoa. Passa, rapidamente, de besta a bestial.

Na minha vida, sempre assumiu um papel idêntico àquele do tio que quando se lembra de nós manda uma notinha pelo correio.

No final do período, lá vinha uma nota reflexo de uma dolorosa e difícil prestação naquele que sempre foi o meu calcanhar de Aquiles: Educação Visual.

Não é que desenhasse mal. Não, nada disso. Só que o que eu desenhava não era interpretado como o que eu tinha idealizado e, aqui para nós que ninguém nos ouve, não é politicamente correto uma professora chamar o aluno para explicar quais eram os elementos que constituíam aquela obra de arte.

E assim era, a professora não me chamava com medo que eu fosse perguntar onde é que estava a sua criatividade e imaginação e a notinha aparecia sempre igual na pauta cheia de linhas confundidas.

Até ao dia em que comecei a regatear lanches em troca de desenhos para a disciplina. Não reflitam se cheguei a passar fome, a minha avó mandava lanche suficiente para todos os alunos da escola. Faziam, os mais competentes, linhas ao de leve do que era pedido, e eu com todos os lápis possíveis e imaginários contornava aquela que seria uma obra digna aos olhos da docente.

Nunca pedi que me pintassem a cheio o que tinham feito. Eu própria tinha toda uma paleta de cores, comprada a pronto no tão esperado início do ano. E sabia como lhe dar uso.

Aprendi que não há cor de pele. E, portanto, durante muito tempo os meus seres humanos tinham todos diagnosticado icterícia e um sorriso gigantesco. Um pouco contraditório para alguns. Não, pelo menos, para mim.

Durante tempos e tempos, senti-me uma louca na sala de aula a passar a folha de papel cavalinho já amarrotado, porque antes de ter pedido ajuda já tinha apagado mil e uma vezes os meus “rabiscos”. Na pior das hipóteses, caso fosse apanhada, diria que estava a questionar os meus colegas sobre o quão criativo estava o meu trabalho.

Nunca foi muito preocupante, uma vez que por de trás tinha ajudantes muito competentes que me incentivavam a fazê-lo sozinha, mas eram os primeiros a dar gargalhadas altas, quando viam o que tinha feito.

Dos últimos trabalhos pedidos, foi o desenho de alguns melros. Muitos melros. Porque estavam em vias de extinção no pátio da nossa escola. Porque têm uma tonalidade muito pessoal. Porque são únicos.

Outro desafio daqueles de brandar aos céus, pegar nas asas e voar dali para fora. O melhor que consegui fazer que merecesse uma interpretação foi um avião carregado a negro. Onde é que se viu um avião preto?

Pensei que era aquela a possível vez em que todos os contornos livres, a tonalidade adequada, a textura pedida e a criatividade iriam passar da cabeça para o papel e seriam aceites. Mas não. Demasiado gordo. Com um bico com uma forma esquisita. Demasiado negro. Não é de todo aceite.

Naquele dia, percebi que não me ia chatear mais com isto. Refleti se no mundo daquela que mais uma vez não estava a aceitar o que eu tinha feito com demasiado esforço não havia pessoas com diferentes pesos, cores e feitios.

Percebi que todos aqueles anos de luta constante entre os materiais plásticos seria uma aprendizagem. Hoje não desenho bem. De todo. Mas venha alguém da outra ponta do mundo dizer-me que a flor que eu desenhei à pressa, na revista cor-de-rosa, enquanto estava na casa de banho, não existe que eu logo lhe conto uma história.

Os meus desenhos serão sempre aceites, porque na verdade são a forma mais adequada de ver o que foi pedido. E digo-vos hoje que se me pedissem para ilustrar a felicidade faria um leitão.

Sou eu que escolho e escolherei sempre o tom com que quero pintar cada desenho da minha vida. Mesmo que os meus lápis sejam de uma marca que identifica o branco como primário, eu terei sempre na minha posse a melhor obra de arte que alguma vez fiz: a minha própria vida.

Os lápis todos 3B que foram pedidos e utilizados uma vez serão transportados como todos os restos minúsculos de borrachas que parti acidentalmente. Porque sem eles eu seria só mais um melro preso numa gaiola. E se os melros são assim tão diferentes e belos, devem ser livres.

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