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Um lugar seguro

Devagar, para não derramar a sopa, levo a colher até à boca dela. Sorrio, mas ela desvia os olhos. Noto-lhe no olhar a vergonha, desviando o olhar como se assim se escondesse daquela ingrata situação.

Sinto um nó na garganta e o coração apertadinho, apertadinho, quase esmagado, ao imaginar que ela se pode sentir humilhada e envergonhada por eu estar a tomar conta dela, e leva-me directamente a memórias dolorosas do meu passado.

O crescimento.

Quando é que uma criança começa a crescer?

No meu caso, foi no dia em que a vi chorar pela primeira vez. O sofrimento dela chegou-me como um tsunami, uma força qualquer da natureza que eu não podia controlar e que só podia receber com confusão, choque, com impressões de pesadelo. Apercebi-me, nesse dia, que ela também sentia, que podia ser tão frágil quanto eu, que era humana. Imaginei, até, que pudesse ser mortal, e chorei. Senti o coração a partir-se em pedacinhos pequenos, alguns irrecuperáveis mesmo depois de os voltar a colar. Em dias como hoje, essas fissuras doem-me, essas ausências de pedaços de coração, quase milimétricas, doem-me como um membro amputado.

Tive medo de não voltar a ser protegido. Tive vontade de esquecer, compreendi o significado de “inocência”, e creio que quando compreendemos o que significa ser inocente, é quando sabemos que não o voltaremos a ser. Que acabou. Como o silêncio acaba quando o pronunciamos. E longe da minha inocência, aprendi que a minha mãe continuava a ser a pessoa mais forte do mundo, que eu continuava a ser a criança mais protegida do mundo, que a nova condição – aos meus infantis olhos – de humana, ela continuava a ser a super-heroína que eu associava a uma mãe. Nada tinha mudado. Tudo tinha mudado.

Olho para ela, no presente. Não consigo evitar compará-la a essa antiga imagem da minha memória, em que tinha uma pele lisa e os cabelos negros. Está velha, a minha mãe, a pele com rugas e os cabelos quase brancos. Está velha, esta minha mãe que sempre se cuidou, mas que agora precisa que o filho tome conta dela.

Outra colher de sopa. Os olhos dela inundados, e o nó da minha garganta ainda mais apertado. Lembro-me que não há sítio mais seguro que o colo de uma mãe, e digo-lho. Ela compreende que o que eu quero dizer é que ela já fez muito. Que quando lhe digo que não há melhor protecção que a de uma mãe, na realidade estou a dizer-lhe “deixa-me tomar conta de ti, agora é a minha vez.”

Coloco a minha cabeça no seu colo, para que ela perceba o quanto a amo e o quanto precisarei, para sempre, dela. Finjo que não sei que ela está a chorar, e quando admito, por breves instantes, que tenho o braço molhado das suas lágrimas, acredito serem lágrimas de aceitação. Fecho os olhos, engulo o nó e deixamo-nos ficar por momentos.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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