ReportagemSociedadeSociedade

Um lugar perdido no mapa – Parte III

Quando o sonho não permite ficar

Se o futuro está na juventude, então é em rostos como o de Filipa Felgueiras que reside a esperança. Tem 15 anos. Está no 10º ano. Fala da fuga dos jovens dos meios rurais para as cidades com uma naturalidade impressionante. É como se nunca tivesse conhecido outra realidade. Talvez não tenha mesmo conhecido. Na escola, o assunto é recorrente, assim como em casa. Diz que dos seus colegas é a que mais quer cá ficar, porém, tem os pés bem assentes na terra – “Queria muito ficar. Se foi cá que nasci, é cá que quero dar lucro, mas sei que, por mais que tentemos, torna-se impossível ficar em Portugal”.

Foi das poucas crianças que frequentou o infantário da freguesia. Fechou três anos depois de abrir. Assim como a nova escola primária, que tinha sido alvo de melhoramentos há meia dúzia de anos. Filipa estava, na altura, no 3º ano. Desde há um ano que o infantário se transformou num café/restaurante e a sala onde aprendeu a ler e a escrever num Centro de Convívio – vazio.

Confessa não ter ligação com os jovens da aldeia. Os fins-de-semana são divididos entre os estudos e ajudar a mãe com os arranjos florais, para ornamentar a Igreja. Os voluntários são praticamente nenhuns, tal como para ensinar a doutrina cristã aos mais pequenos. É ela que o faz, durante as férias. A “turma” é que é cada vez menor, “não chega a uma dezena”, conta.

DR_umlugarperdidonomapa3O seu plano passa por seguir os estudos. Está dividida entre três áreas: Geologia, Criminologia, ou Astronomia. Um plano que inevitavelmente a afasta da aldeia. “Queria ficar em Barroças e Taias com os meus avós, porque sei que, se sair, raramente vou vir cá. Com o meu irmão é provável que aconteça o mesmo. Entristece-me pensar que a casa que o meu avô fez com as próprias mãos vá ficar deserta. Nós queremos ficar, mas sem trabalho é impossível. Falta o motor da economia – emprego. Temos de emigrar”.

No trajecto que faz de manhã quando vai para a escola, localizada na vila de Monção, tem reparado na quantidade de casas fechadas. Um fenómeno que tem vindo a generalizar-se e que a preocupa – “cada vez mais jovens abandonam as aldeias. E o pior é que os emigrantes de hoje, são emigrantes que já não construem cá casa e que raramente vêm visitar a sua terra natal”.

Sente-se revoltada com o que está a acontecer. Quando pensa no futuro, imagina a sua aldeia sem ninguém, o único movimento que terá, diz, será oriundo da estrada nacional. “Não estou de acordo em abandonarmos as nossas raízes, mas não temos alternativa. O emprego que ainda há é precário, logo, se desejamos ter melhores condições de vida, temos que inevitavelmente sair”.

Este é o retrato desta e de muitas outras aldeias portuguesas. Se para uns, a vida se resumiu à aldeia e à vida do campo, para outros, a escolha foi e é sair. Portugal é hoje um país desequilibrado com um interior deserto e um Litoral sobrelotado. Há décadas que se fala deste fenómeno, o que se questiona agora é se ainda vamos a tempo de salvar o mundo rural. A crise poderá ser o último golpe nesta história de abandono.

Tags
Show More

Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: