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Um lugar perdido no mapa – Parte II

A esperança de um dia regressar

Bastam cinco minutos de conversa, para perceber o carinho que Manuela Fernandes sente pela aldeia que a viu crescer. A vida, essa, não foi a sua melhor amiga. Trocou-lhe as voltas. Já passaram alguns anos desde que se mudou para Viana do Castelo. Foi em 2005. Arranjou por lá trabalho num Centro Óptico e por lá ficou. Hoje tem 36 anos. Até podia ter ganho amor à sua nova morada, mas não, continua a querer regressar para o lugar de onde nunca quis sair – “o meu objectivo é voltar. Se tivesse possibilidades, nem pensava duas vezes”. Para já, vai tendo os fins-de-semana para matar as saudades. Não falha um.

Faz parte de mais uma geração de emigrantes. Tem-se a sensação de que por aqui a emigração nunca abrandou definitivamente. Continua a ser rara a família que não tenha alguém no estrangeiro. Cada vez mais. As casas fechadas, a cada canto, dos emigrantes são prova disso mesmo. O seu irmão também emigrou. Já contabiliza 14 anos no Canadá. Dificilmente regressa.

Manuela ainda tenta indicar nomes de colegas que andaram consigo na escola primária, que não tenham saído. Não consegue dizer mais de três. “A maior parte está tudo fora, na Suíça e na França”, confessa. De repente sorri. O Facebook tem servido para reencontrar velhas caras conhecidas. Por vezes, até fica meia atordoada com certos pedidos de amizade. “Quem é este?”, “Quem é esta?”, questiona-se. É a mãe, muitas vezes, que a auxilia.

DR_umlugarperdidonomapa4O futuro está na juventude. Tem consciência disso. Como também tem consciência de que a juventude de agora é “uma juventude dividida”. “Não há união”, solta. Há uns anos, ainda se criou uma Associação de Jovens. Durou pouco mais de um ano. A sua vontade agora é reactivar a Associação, porém, sente pouco apoio. “Sinceramente gosto disto. Podia-se fazer mais e melhor. Como desenvolver actividades junto dos idosos e dos mais novos. Entristece-me. Devia-se fazer alguma coisa. No papel, a Associação ainda existe, se não se fizer nada, a qualquer momento será extinta”.

Nas prateleiras da Junta de Freguesia estão expostas as Taças ganhas nos torneios de futebol inter-freguesias. Não foi assim há tanto tempo. Sem um campo próprio para competirem, os jovens da aldeia improvisaram um, aproveitando um terreno junto à escola primária. As balizas foram construídas com  “craivos”, barras de madeira usadas por norma na agricultura,  as redes com fios de enfardar palha e a marcação das linhas do campo com o auxílio de serrim. Poucos anos depois, o campo foi melhorado pela junta local, com a colocação de balizas e até postes de basquetebol. Hoje, está praticamente ao abandono. São raras as vezes em que se vê alguém por lá.

Na aldeia, Manuela ainda tem os pais e a avó. Sabe que os laços familiares e as origens a prendem a este lugar, como também sabe que é o gosto que tem pela sua terra que a levam a voltar sempre. E assim continuará a ser.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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1 thought on “Um lugar perdido no mapa – Parte II”

  1. Bom dia…

    A associação A.G.E, realmente, temos que admitir que as coisas não correram da melhor forma, nem como nós perspectivamos. Todavia, no tempo em que esta, laborou fez a diferença, pois foram desenvolvidas actividades engraçadas e que, até (admiravelmente) moblizaram a nossa população local. E, o objectivo dessas actividades foram sempre alcançados, visto em todas elas houve sempre um: “parabéns” e sorrisos de alguns cidadãos, e era estes quem realmente mereciam o esforço e dedicação.
    Mas na verdade, nem tudo são coisas boas, porque se assim fosse, a actividade não tinha terminado após um ano e pouco de laboração. Em oposição ao aos sorrisos existiam / existem os críticos, (in)felizmente só conseguem elaborar criticas destrutivas, nunca apresentando uma alternativa. Não arrisco a desvendar números exactos mas provavelmente mais de 50 % são deste género. Pois, e tendo em consideração o objecto social da A.G.E, esa só fazia sentido se houvesse uma colaboração e participação.
    No que concerne aos elementos interventivos, também temos umas poucas palavras a descrever. Seria hipócrita da nossa parte se não se desse um grande agradecimento a, (só alguns) elementos pois esse foram incansáveis e de uma enorme dedicação à causa, não se vai citar nomes pois eles sabem bem quem são. Obrigado… Paradoxalmente, a grande maioria não é possível (de todo) deixar uma palavra de agradecimento ou obrigado pois o seu esforço não valeu, nem uma gota de suor, tal como nos restantes, não é necessário citar nomes pois sabem bem quem são.
    Posto isto, terminamos, estando abertos para qualquer esclarecimento adicional….

    Com os melhores cumprimentos

    Herdeiros da A.G.E…

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