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ContosCultura

Um homem normal – parte II

Os passos dele na calçada irregular soavam seguros. Nada poderia ser mais incerto. Ouvia a sola dos sapatos e achava mentira estar a fazer aquele caminho. Aquele som dava-lhe vontade de chorar, era como um sonho e uma aflição. As mãos tremiam e ele mexia os braços, olhava para todo o lado, sem saber o que fazer, sem saber quem ser. Não se lembrava daquela sensação: todos o viam e ninguém olhava para ele mais de uns segundos. Era um homem normal. Mais um de tantos homens normais. Comprou um ramo de flores, não sabia o nome mas eram brancas e traziam-na à sua memória. Lentamente, os passos levaram-no até ela. Repetiu várias vezes que era um homem normal. E depois entrou.

O dia estava impossível. Era um dia cego e vingativo, o Inverno doía-lhe no reumático e no ânimo. Deitou-se debaixo das mantas e tentou aquecer, mas não havia uma única luz que lhe trouxesse calor, só uma névoa opaca e húmida, como se o rio se tivesse condensado. Pelo menos não chovia, suspirou. Um rapaz jovem tropeçou nas pernas dele, «não o vi… o nevoeiro…», desculpou-se, a mão a tapar o nariz involuntariamente, um escudo para proteger-se do cheiro dele, para proteger-se do odor das mantas imundas. Um novo pedido de desculpas, e de repente o jovem desaparecido no meio da cidade, onde já não era possível ver, onde não havia pessoas, nem sombras, nem vultos, só um mar de vapor. Podia era ter deixado uma moeda.

Ouviu passos apressados e esticou o braço. Ganhava a vida a pedir, mas não era por isso que se habituava, nem que lhe passava a vergonha de o fazer. Tinha-se perdido havia muito tempo, entre a bebida e os desgostos. Tinha acordado em hospitais e em bancos de jardim, perguntando-se quem era e esquecendo-se de quem fora. A lucidez era um castigo, e nem saberia por onde começar a pensar numa saída. Só se lembrava de viver na rua e era tudo aquilo que queria lembrar – o resto, o que tinha ficado mesmo, mesmo lá atrás, era demasiado devastador. Se pensasse nisso, seria capaz de morrer seco de tanto chorar. Por isso ali continuava, braço estendido numa súplica, a mão em concha, à espera, aceitando ser ignorado e inferior para poder comprar um pacote de vinho. Ele nunca olhava para as pessoas. Sabia que era constrangedor, sabia que causava incómodo, até nojo: sabia que lhes lembrava o que pode acontecer a todos, a qualquer um. Ouviu os passos mais perto. A mão a tremer, em concha. Algumas moedas caíram, quentes contra a pele gelada. Murmurou um agradecimento na voz rouca de quem pouco falava.

“Pai?”

Os olhos como flechas para registar aquela cara. Uma expressão suave, uns óculos coloridos debaixo de umas sobrancelhas espantadas. Ela pôs-se de cócoras e ele sentiu um embaraço imenso.

“Deve ser engano…” atrapalhou-se a dizer. Porque talvez não fosse. Porque talvez aquela fosse a voz fininha que ele mal tinha conhecido.

“Não, não é”, insistiu a rapariga, entre um sorriso gigante e as lágrimas que quase lhe cegavam. Que bonita era aquela menina. “Não, não é”, repetiu ela.

Abraçou-o.

Ele assustou-se tanto que quis cobrir-se. Cobrir-se de um abraço!, a que ponto tinha chegado! Chorou. Fosse ou não fosse sua filha, chorou porque não era abraçado há tantos anos que se tinha transformado num animal selvagem, merecedor de nada. E aquele abraço tinha-o deixado pronto para implodir de calor e de vergonha e de esperança, pronto para sonhar. Tinha vergonha de sonhar, de se achar digno de poder imaginar um futuro.

A menina, que já era uma mulher, levantou-se e obrigou-o a levantar-se com ela. Agarrou-o pela mão, pelo braço, agarrou-o tão forte e tão perto quanto podia, e ele caminhou ao mesmo passo que ela, permitindo-se acreditar no que poderia ser só uma ilusão.

A Jesusa chorava enquanto ele lhe contava. Não podia acreditar, entre o espanto e a felicidade. Tinha-se preocupado durante aqueles meses todos, assegurou, batendo-lhe no braço com carinho.

“Pensámos que eras um espião e que a polícia te tinha assassinado!”

Ele riu-se das histórias que inventava para ter atenção, para ter um passado interessante, diferente e ser outro. Falou-lhe da filha, do neto, de um novo trabalho modesto mas que lhe dava uma incrível satisfação. Fez-se silêncio. Não lhe contou da estranheza de ter sapatos quentes em vez de pantufas rotas; de se sentir leve e livre da sujidade, na pele e na alma; de ter vontade de sorrir, de não sentir fome, de notar que as pessoas não fugiam com o olhar. Não lhe contou que lhe apetecia beber, por mais feliz que estivesse, ou talvez por essa mesma razão. Nem lhe disse que tinha medo de não ser forte o suficiente para se aguentar. Com tempo, sabia que precisava era de tempo. Logo se via. Ele beijou a mão à Jesusa, como uma despedida, prometendo voltar mais vezes. As flores na mesa da recepção, numa jarra, eram pouco agradecimento para quem lhe tinha dado mais do que cama e comida. Nunca saberia agradecer suficiente a uma das poucas pessoas que o tinha tratado como um humano. Como um homem normal.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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