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“Um homem chamado Ove”: o rezingão dos tempos modernos

Existem muitas estórias sobre velhos rabugentos que conquistam a nossa compaixão, após conhecermos as privações pelas quais passaram. Basta pensarmos em Walt Kowalski, a personagem principal de “Gran Torino” que, apesar de ser racista, desenvolve amizade com uma jovem asiática. Ou podemos, até mesmo, recordar Ebenezer Scrooge, o resmungão de “Um Conto de Natal”, que muda a forma como vê o mundo, depois de fantasmas o conduzirem numa viagem pelo passado. A fórmula resulta. E resulta tão bem que, de tempos a tempos, reaparece. Foi o que aconteceu com o livro “Um homem chamado Ove”, do sueco Fredrik Backman, em 2012. 

Este bestseller do “New York Times” conta, de facto, a estória de mais um homem avarento e implicativo. E, mais uma vez, a narrativa encaminha-nos para o desenvolvimento de afeição por uma personagem que, inicialmente, nos parece odiosa. Como seria de esperar, o enredo envolve-nos, numa leitura entusiasmante. Tem comoção, humor negro e, acima de tudo, muita consistência entre personalidades e acções.

É a nossa condição de seres curiosos que nos leva a querer compreender por que Ove é como é. Backman cumpre o nosso desejo, contando-nos, em flashback, tudo o que precisamos de saber. No final, com todos os dados em nossa posse, é difícil pensarmos em alguém que tenha sofrido tantos azares como Ove. 

Contudo, a desgraça não diminui o prazer de leitura, proporcionado pela obra. Na verdade, faz parte dos elementos que a tornam viciante.

Um início inusitado

Poderíamos dizer que a narrativa de “Um homem chamado Ove” começa pelo fim. Ou melhor, por uma tentativa de fim – o fim da vida de Ove. E, ao longo de todo o livro, esperamos que essa ação se cumpra. 

Há algumas linhas, falei sobre os azares de Ove. Pois bem, o homem nem consegue suicidar-se tranquilamente… Ou a corda se parte, ou um gato aparece, ou alguém bate à porta…

Ove ficou viúvo há pouco tempo, a estação de caminho-de-ferro onde trabalhava “propôs-lhe” uma reforma antecipada e já nem tem a função de presidente da Comissão de Moradores do bairro. Assim, não há muito com o que possa ocupar os seus dias. Assim, Ove prefere morrer. E quer fazê-lo com método: forra todo o espaço da casa, para evitar manchas de sangue e riscos provocados pela queda da cadeira, à qual sobe para se enforcar. A fotografia da mulher, Sonja, fica voltada na direção contrária à sua, para que ela não tenha que assistir àquele espetáculo desagradável. 

Tudo parece estar pronto, mas, subitamente, há uma série de personagens que precisam que Ove conserte eletrodomésticos ou estacione o carro sem derrubar caixas do correio. E ele é demasiado metódico para deixar que os outros arruínem à ordem à sua volta. Sonja pode esperar mais um pouco. É só Ove resolver o caos aqui e ali e, depois, podem encontrar-se.

Nesta dinâmica, Backman coloca-nos ante várias tentativas de suicídio, que servem de mote para assistirmos à vida que passa diante dos olhos de Ove. É um bom jogo de cintura, para nos fazer viajar por memórias alheias, cortadas pela necessidade de o homem ainda estar presente para ajudar os outros. Curiosamente, apesar da repetição da dinâmica, esperamos sempre que Ove morra. Porque sabemos que ele é teimoso. E não há nada que queira mais do que ir ter com a sua amada Sonja.

Um mundo de analogias e metáforas

“A morte é uma coisa estranha. As pessoas vivem a vida inteira como se ela não existisse e, ainda assim, é uma das grandes motivações para os vivos.” “Ove é o tipo de homem que verifica o estado de todas as coisas, dando-lhes um bom pontapé.” “As pessoas diziam que Ove via o mundo a preto e branco. Mas ela [Sonja] era cor. Toda a cor que ele tinha.” 

É com este tipo de explicações (não demasiadamente) literárias que Backman nos presenteia. Há um cuidado na escolha das palavras que torna a leitura mais rica, quer estejamos a conhecer personagens, quer o momento seja dedicado a reflexões.

Ao entrarmos no mundo de Ove, estamos, necessariamente, em contacto com sistemas de valores e julgamento de caracteres. A estória, no seu todo, é universal. Os detalhes da vida daquele homem, em particular,  conferem-lhe a magia necessária para a criação de uma leitura que intriga e prende.

Uma estória repleta de estórias

Dizer que “Um homem chamado Ove” proporciona uma leitura fácil não implica que esta seja uma sucessão de acontecimentos sem significado. Antes pelo contrário, estamos perante a capacidade exímia de Backman para criar imagens mentais bem definidas, sem nos deixar perdidos, numa trama que percorre diferentes épocas. 

Apesar de ficar claro, desde início, que Ove quer morrer, (e essa ser a vontade que despoleta, com maior ou menor grau, tudo o que se segue), o livro não se limita a explorar esse aspeto. As peripécias são muitas e estão todas conectadas. 

Há bordões que se repetem em situações semelhantes, que ocorrem em anos diferentes. E há experiências passadas que deixaram pistas a Ove sobre como se comportar no presente.

Pelo meio, aborda-se a homossexualidade, a emigração, a importância dada ao aspecto físico, o cuidado de doentes, a burocracia dos tribunais e dos seguros, bem como o confronto tecnológico entre gerações.

No fim, a lição deixada ultrapassa o poder do amor ou da sinergia gerada por pessoas distintas. Porque existe, de facto, genuína curiosidade em entender um homem cansado de reerguer-se.

Um homem chamado Ove” foi adaptado ao grande ecrã em 2015. Nomeado para os óscares de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Maquilhagem, acabou por receber o prémio de Melhor Comédia, nos European Film Awards de 2016.

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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