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ContosCultura

Um gato de Natal

Todos os dias o amanhecer trazia aquela visita não autorizada. A geada fresca que acompanhava os primeiros raios de sol fazia-o procurar abrigo e, do outro lado daquele vidro, parecia existir um mundo de conforto, paz e calor. A casa permanecia fechada e inacessível. Mas ele sabia que cedo uma janela iria abrir-se.

Nas primeiras vezes entrava para dentro de casa sem qualquer pudor como se desde sempre ali pertencesse. Mas depressa era perseguido e escorraçado como se vil vândalo fosse. Tornou-se mais discreto, furtivo, silencioso. Caminhava junto aos cantos quando via os corredores e salas livres até encontrar um canto bem acolhedor onde podia deixar-se adormecer sem os riscos de ser encontrado.

Numa certa tarde despertou perante o choro inocente de duas crianças, irmãos de jovem idade. As lamúrias justificavam-se. A vida estava difícil, dissera-lhes o pai. O mundo de brinquedos esse ano não iria trazer alegria para aquela casa. O Natal iria passar ao lado. Voltou a adormecer fechado no seu mundo distante. Mas a tristeza nos olhos daquelas duas crianças nunca mais o deixou e ele deixou-se ser encontrado por elas.

Como se tivesse conseguido transmitir-lhes ordens telepaticamente, os irmãos aproximaram-se dele sem nada dizer aos pais. Devagar tocaram-no e eles deixou-se ser tocado. Rolou sobre si e partilhou com elas um simples e transparente gesto de confiança e amizade. Tornaram-se amigos logo ali. Mas o pai viria a descobri-los aos três incapazes de se esconderam por detrás do manto de silêncio que ergueram. Desconfiado, o pai percebeu e sorrateiramente aproximou-se para os apanhar em flagrante delito. Mas através de uma fresta de luz deixada por uma porta mal encostada, o pai viu a alegria nos olhos dos filhos ao invés da tristeza que há pouco tempo lhes deixara.

Também ele pessoa de afetos, essencialmente perante estes dois jovens que eram parte de si. Quedou-se em silêncio e afastou-se apenas quando viu um olhar felino a focar-se em si. Teve uma ideia cheia de amor.

Poucas noites depois, em plena noite de Natal, levou os miúdos para a cama ainda bem antes da meia noite. Os protestos ouviram-se apenas até o pai os recordar que as dificuldades de um mau período profissional tinha anulado esse momento das festividades natalícias. Deixou-os no quarto e ao chegar à sala, abriu uma fresta da janela permitindo a que um gato saltasse para o interior da casa. Às doze badaladas, o pai foi ao quarto e tirou os irmãos das camas. Ao chegarem à sala, viram o gato deitado sob o pinheiro na sua arte de tão bem ser felino. Os pequenos logo o cercaram deitados o chão tentando ver quem conseguia fazer mais festinhas no pelo liso do gato. Depois olharam para o pai e este anuiu com a cabeça dizendo apenas, “Feliz Natal”.

Ele ganhou a felicidade dos filhos, eles um amigo incondicional e ele, gato de Natal, um lar com paredes de amor e nome “família”. Todos ganharam o Natal.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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