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Um Final Sobrenatural

“Uau”, “O que é que acabou de acontecer?”, “Mas que raio” e “De onde é que isto veio?” foram algumas das expressões que me surgiram, quando vi o poderoso e surpreendente episódio final da nona temporada de Supernatural. Um final que me deixou a salivar por Setembro, quando irei descobrir como irá ser resolvido o clifhanger deixado em aberto para a próxima temporada.

Nos momentos finais do episódio, foi possível ver um dos protagonistas da série, Dean Winchester, a ressuscitar, trazendo consigo uma nova característica – os olhos negros de um demónio, assinalando a sua transformação numa das criaturas contra as quais passou uma vida inteira a lutar. Durante essa transformação, o seu irmão, Sam, encontrava-se demasiado ocupado a convocar o restituído Rei do Inferno, Crowley, numa tentativa de salvar a vida de Dean, sem se aperceber que o malvado demónio já se encontrava no edifício, pronto para juntar a alma do caçador de monstros às suas hostes.

Este episódio dramático colocou um ponto final a uma temporada muito desequilibrada em termos de qualidade. Ao longo de 23 episódios, a série soube demonstrar as suas melhores qualidades, quando decidia apostar na expansão da mitologia que alimentou a sua narrativa ao longo de quase uma década, mas perdeu um pouco da sua direcção a meio, ao ter um excesso de episódios standalone, que abrandaram o ritmo narrativo e, por vezes, criaram a sensação de que os argumentistas não tinham um plano de conteúdos para conseguirem preencher todos os episódios necessários. Ao fim de nove anos a lutarem contra todo o tipo de monstros, vilões e seres bíblicos que a imaginação conseguiu criar, existe na série uma sensação persistente de repetição no seu elemento procedural de “Monstro da Semana”. É difícil ter-se uma abordagem original sobre vampiros, ou lobisomens na Era Pós-Twilight e os espectadores podem começar a sentir uma certa fatiga em relação às tentativas criativas dos produtores da série em conseguirem recriar este tipo de personagens. Acrescentemos a isto o facto de que Supernatural estreou antes de séries como True Blood, Grimm e The Vampire Diaries, que saturou um pouco o género televisivo e não tem ajudado à reinvenção constante da série, apesar da sua livre interpretação da mitologia Judaico-Cristã continuar ainda a ser muito refrescante.

Adicionalmente ao regresso de Castiel à história central, nesta temporada, Supernatural fez um bom casting ao atribuir a Curtis Armstrong o papel do maléfico Metraton, que começou o seu percurso como uma personagem nerd à procura de vingança até se transformar no Escriba de Deus que pretende ocupar o lugar do seu criador. O mesmo se aplica a Tahmoh Penikett, no momento em que a série descobriu a forma como explorar correctamente o seu anjo caído em desgraça, Gadreel, atribuindo uma profundidade invulgar a uma personagem que está presa a um grande conflito interior. Apesar destes três terem tido muito tempo de antena, o mesmo não pode ser dito de outros anjos, especialmente Bartholomew, que, no meio das suas intenções de conquista, nunca se conseguiu desenvolver como um vilão de respeito.

Um dos pontos altos desta temporada foi o episódio em que surgiu Timothy Omundson a interpretar o assassino bíblico Cain, o que, por um lado, permitiu servir de catalisador para o gradual aumento de vontade matar em Dean e, por outro, conseguiu desenvolver uma parte da mitologia da série que tem sido pouco explorada em termos criativos – a relação de irmandade entre Sam e Dean, questionando os limites que cada um consegue ir para proteger a sua família. Como sempre, a grande força do sucesso de Supernatural encontra-se na história do relacionamento entre os dois irmãos Winchester, algo que não foi muito desenvolvido ao longo da nona temporada. Contudo, apesar desta linha narrativa ter permitido a Ackles e a Padalecki demonstrarem todas as suas qualidades como actores, a longa história de conflitos entre eles acabou por interferir com a fluidez da série. A situação em que Dean é deixado no fim desta temporada irá permitir explorar o conflito dos dois em novas perspectivas, pelo menos, durante a primeira parte da décima temporada.

A transformação de Dean num demónio recupera ainda uma linha narrativa que foi construída na terceira temporada, quando o Winchester mais velho vendeu a sua alma para salvar a vida do irmão e foi enviado para o Inferno, onde concordou torturar outras almas condenadas, de forma a conseguir pôr fim ao seu próprio sofrimento. Durante este período infernal, o seu maior medo sempre foi o de se tornar num dos monstros de olhos negros que tanto odiava. Com algum atraso, este medo transformado em profecia acaba por se tornar realidade, algo que, esperemos, irá permitir a Jensen Ackles explorar o lado negro da sua personagem de uma forma mais aprofundada no próximo ano. É preciso ainda ter em conta que, depois da mitologia da série ter-se centrado na jornada de Sam, deixando as linhas narrativas secundárias para Dean, é refrescante ver este último a ser o foco da história. Se, durante este processo, a personagem de Jared Padalecki voltar a ser o caçador de monstros inteligente, teimoso e focado nos objectivos que apaixonou fãs por todo o mundo, enquanto tenta restaurar a humanidade perdida do seu irmão.

Apesar de ao longo desta temporada Supernatural não ter conseguido ser muito consistente, a tenacidade que ainda demonstra ter (muito graças à criação de personagens memoráveis e à coragem para tomar determinadas opções criativas) deixa uma grande esperança em todos os que acompanham a série desde o início – ainda existem muitas histórias para contar.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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