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Um conto de bruxas e príncipes

Acordou num quarto desconhecido, com o sol quente a bater-lhe na cara. Sorriu, ainda com aquele feeling leve que temos ao acordar, aquela sensação feliz de possibilidade infinita, em que não entrámos ainda na realidade e somos apenas paz. Tinha tido um sonho esquisito, lembrou-se de repente. As lembranças de sonhos que não recordamos atingem-nos sempre de rajada. Abriu os olhos devagar, tapando-os logo com a mão, e enxotou os lençóis quentes com os pés. Notou-se nua. Levantou-se com preguiça e vestiu a roupa que estava numa cadeira, uma roupa que ela nem se lembrava que era dela. Olhou à volta enquanto se vestia – uma pensão. Estava numa pensão.

Olhou pela janela. Ao sol, viu que estava numa qualquer vila abandonada e silenciosa. Ninguém nas ruas, as lojas e cafés de portas encostadas, como que a afastar os intrusos. Ela estava num quarto de pensão, num lugar qualquer do mundo desconhecido. Não fazia a mínima ideia de nada, nem sequer de quem era, e, o mais surpreendente, não se preocupava muito.

Levantou-se, pegou na mochila e saiu. Não perguntou se tinha de pagar; teve medo que a resposta fosse sim, e ela não se lembrava de ter muito dinheiro com ela. O que aconteceria às pessoas que não pagavam os quartos e eram apanhadas? Tinha de passar uma semana a fazer camas? Iam presas? Tinham de carregar as malas dos novos hóspedes durante o dia todo?

Entrou no café mais escuro e com pior aspecto que encontrou – que foi, também, o segundo –, imaginando que fosse também mais barato. Olhou à volta, para o balcão, as mesas e cadeiras de madeira, o chão de azulejo que devia ser verde estava preto, e paredes tinham também uma cor não definida. Não se importou; sentou-se e fez sinal ao homem que limpava copos atrás do balcão: um café. O homem, mal-humorado, colocou o café dela em cima da mesa e estendeu a mão.

“Sessenta cêntimos”, disse. Tinha pensado que fosse mais barato, se calhar por sessenta cêntimos tinha encontrado um lugar melhor. Decidiu vingar-se: pagou com várias moedas de um, dois e cinco cêntimos.

Bebeu um gole pequeno, a medo, porque podia estar quente, e notou logo o sabor terrível do café que estava cheio de borras. Tentou ser educada e não cuspir, mas de vez em quando tinha de afastar a chávena e, o mais discretamente possível, limpar com a mão a língua maltratada. Deu-lhe um pouco de nojo, aquele café. Pensou até se a chávena teria sido lavada. Tinha que beber rápido, para se despachar e sair. Quis dar um pontapé na mesa, de arrependimento: porque é que tinha de ser tão forreta? Pousou a chávena de novo no pires, em cima da mesa, e engasgou-se. Tossiu e cuspiu algo para a mão: uma chave dourada, arredondada, pequenina, como se fosse de um cadeado minúsculo, mas de uma forma que ela nunca tinha visto. Parecia de brincar. Parecia uma daquelas chaves de cadeados para diários de meninas pequenas que pensam ter segredos grandes. Olhou para o homem atrás do balcão, que continuava a limpar copos e parecia incomodado por ter clientes.

Saiu do café. Com a mão direita a tapar os olhos e a chave no bolso, olhou à volta. Olhou, depois, para o céu. Se alguém a visse pensaria que procurava pássaros no céu, que era uma apreciadora de aves, de nuvens, da Vida e do sol. Reparou no castelo e sorriu, um pequeno sorriso no canto dos lábios, quase triunfal, mas que desapareceu tão rápido como tinha aparecido. Tinha sonhado com aquilo. Podia não saber quem era, nem de onde vinha, nem para onde ia, nem sequer onde estava, mas tinha a certeza que tinha de ir para o castelo, por isso seguiu as placas da vila, rua a rua, encosta a encosta, sem vacilar com o calor nem com o cansaço. Teve a impressão que, quem quer que fosse, já tinha andado muito.

O castelo parecia escuro e gelado. Arrepiou-se. Era enorme, imponente, e parecia que a observava, que queria obrigá-la a desistir e ir embora só com a sua imponência. Ela procurou a entrada, que estava escondida do lado esquerdo, e vestiu o casaco antes de entrar. Sentiu-se gelada, de repente. Entrou devagar, subindo algumas escadas, explorando cada canto com o olhar. Do nada, à frente dela, viu umas escadas com degraus altos e estreitos, ainda mais íngremes e escuros, que pareciam dar para um portão de ferro que ela só com dificuldade conseguia distinguir no topo. Subiu, sem medo, tentando não cair, porque sentiu que era ali que devia estar. O portão de ferro parecia chamá-la. Aproximou-se cada vez mais, e reparou rapidamente na fechadura pequena e dourada, tal como a chave.

Sim, sem dúvida que era ali que ela deveria estar!

Tirou a chave do bolso e tentou inseri-la na fechadura do cadeado. Não conseguia. Tentou de novo, de outro ângulo. Nada. Talvez aquilo tivesse algum truque, algum jeito estranho. Tentou de novo, experimentando gestos, com mais força, com menos força, rodando o pulso de uma forma diferente. Será que estava ali há muito tempo, que estava enferrujado?

O portão abriu-se com um ruído arrepiante, e, à sua frente com um olhar aterrador, estava a Bruxa Má.

“És tu a tal, a princesa das Lendas? A que se atreve a questionar-me e enfrentar-me? A que quer salvar o Príncipe que é meu?” perguntou a Bruxa, com a voz cheia de raiva e o olhar de desdém. Ela espreitou para dentro por cima do ombro da bruxa. Um príncipe com os olhos tristes observa-a, sem esperança, mas ela teve a certeza que era o seu Príncipe Encantado.

“Sou!” disse, com coragem e um pequeno sorriso maléfico nos olhos.

A Bruxa olhou-a desconfiada, dos pés à cabeça. “Não me pareces uma princesa…”

“Mas sou!” anunciou ela, com a voz cheia de tanta certeza como a incerteza que sentia.

Uma sobrancelha da Bruxa levantou-se, entre a curiosidade e a incompreensão. O olhar desceu até à chave que ela tinha na mão. “Deixa ver isso!” Ela entregou a chave, que mal poderia fazer? O plano era empurrar a Bruxa e desatar a correr dali para fora com o Príncipe.

A Bruxa observou a chave, e tentou inseri-la no cadeado. Não conseguiu. Tentou de novo. Nada. Olhou para a chave. Depois, para ela. Sorriu como quem conquista e estendeu-lhe a chave:

“Toma. Afinal não és tu. Não sei quem és, mas não és a princesa das Lendas, e essa chave deve ser de outro lugar qualquer” anunciou a Bruxa, e fechou o portão de ferro.

Ela piscou os olhos, sem acreditar. Ainda bateu com o punho no portão, para ver se abriam, depois abanou-o, tentou abrir com a chave, mas não conseguiu. Ficou a pensar no Príncipe por breves momentos. Desceu as escadas, de vez em quando olhando para trás, lembrando-se do olhar preocupado e solitário daquele príncipe que esperava a libertação.

Quando chegou à entrada do castelo, sentiu-se subitamente perdida. Encolheu os ombros e sacudiu a tristeza. Ela não sabia quem era, mas sabia que era forte, que era uma guerreira!

O sol batia-lhe na pele quando decidiu caminhar de novo vila abaixo, assobiando, sem se preocupar com o lugar onde acordaria no dia seguinte.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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