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AmbienteCiências e Tecnologia

Um Burro em Risco de Extinção

Foram séculos de íntima convivência. Até que um dia o Homem descobriu a máquina. O Burro, até então, um dos animais imprescindíveis para a agricultura, foi descartado do seu papel principal. Seguiu-se o êxodo rural. As populações começaram em massa a trocar as aldeias pelas cidades industriais e assim este animal foi deixado, aos poucos, para trás.

Em pleno século XXI, o Burro é um dos animais que corre risco de extinção na Europa. Por cá, a única raça autóctone desta espécie existente no país, o Burro de Miranda, encontra-se no mesmo barco. Proveniente da região de Trás-os-Montes, foi também abalado com a forte emigração das suas gentes registada nos anos 60, para países como a França. Os jovens foram fugindo e a população que restou, demasiado envelhecida para tratar da lavoura, deixou de conseguir cuidar deste animal.

DR_umburroemriscodeextincao_2No primeiro CENSO realizado para apurar a situação do Burro de Miranda, em 2002, existiam 930 fêmeas e 20 machos reprodutores, números que, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), colocavam esta espécie na lista de animais ameaçados de extinção. Não era apenas o número reduzido desta população que preocupava, ou a clara disparidade entre o número de fêmeas e machos, mas o facto de mais de metade das Burras existentes não estarem a criar.

Com o objectivo de inverter esta tendência, existe, desde de 2008, na aldeia de Atenor, concelho de Miranda do Douro, um Centro de Valorização do Burro de Miranda, sob a responsabilidade da AEPGA (Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino). Ao seu encargo encontram-se 30 fêmeas, 5 machos reprodutores e 15 machos castrados. Apesar de todo o trabalho desenvolvido desde então, esta raça asinina contínua em risco. Os números são claros. Na totalidade, existem actualmente 850 fêmeas reprodutoras e 50 machos. Estimando-se que desses animais, poucos são os que têm real capacidade reprodutiva.

Os problemas reprodutivos do Burro de Miranda devem-se principalmente à idade avançada de muitas das fêmeas, bem como à resistência dos proprietários em as reproduzir, por causa dos custos inerentes. A piorar ainda mais o cenário, há escassez de machos reprodutores. Como são menos dóceis que as fêmeas, a maioria assim que atinge um ano de idade é imediatamente castrada, de modo a facilitar o maneio e a sua exigente manutenção. Por fim, a miscigenação de diferentes variedades de burros leva a que esta espécie perca também, com o tempo, as suas características próprias.

DR_umburroemriscodeextincao_4Para combater esta problemática, além do método tradicional, ou seja, a monta natural, recorre-se ao sémen fresco. Contudo, o sémen exige ser aplicado num limitado espaço de tempo, após a recolha, condicionando, por seu turno, a área geográfica. Outras técnicas, como refrigeração e congelamento de sémen, ou a transferência embrionária, ainda apresentam limitações técnicas, mas, sobretudo, poucos apoios económicos. O que poderá pôr em causa, num futuro próximo, a viabilidade do Burro de Miranda. O Estado neste momento faz pouco mais do que conceder ao criador um apoio de 170 euros por ano, por cada animal reprodutor, tendo este de se comprometer a preservar a raça pelo período de pelo menos cinco anos.

Nem todas as notícias são más. Apesar de tudo, houve um aumento significativo de nascimentos (de 10, em 2012, para cerca de 80, em 2013). As pessoas também procuram cada vez mais o Burro de Miranda, dado ser um animal muito bonito e dócil, com características tão únicas como o comprimento da pelagem e as orelhas enormes. Uma procura que não se verifica apenas de Norte a Sul do país, mas também além-fronteiras. Não só para ajudar nos afazeres da agricultura, como também para projectos associados ao turismo, à terapia assistida e à educação. No Planalto Mirandês, contabilizam-se já aproximadamente 400 proprietários. Sendo já considerado um símbolo da região e, por isso mesmo, um motivo de orgulho.

Estes pequenos, grandes sucessos têm sido alcançados muito por culpa do trabalho desenvolvido pela AEPGA. O apoio que dão regularmente, através de veterinários e ferradores, tem sido fulcral para sensibilizar os proprietários para a importância do bem-estar destes animais. Assim como, as pessoas em geral, através da promoção de actividades de lazer, como passeios com Burro, deslocações a outras regiões do país, possibilidade de apadrinhar um dos Burros, de serem sócias, entre outros.

DR_umburroemriscodeextincao_3O caminho ainda é longo. Os desafios são muitos. Um dos maiores é claramente o de aumentar o número de nascimentos, pois é disso que depende a preservação desta raça. Como também garantir que estes animais tenham qualidade de vida. O que poderá ser posto em causa um dia, caso existam mais Burros do que pessoas interessadas. A sobrevivência do Burro de Miranda, no fundo, depende do surgimento de novos criadores. Jovens inovadores, com ideias novas, sem estarem dependentes de subsídios, ou projectos. Capazes de fazer renascer esta relação milenar entre o Homem e o Burro.

Mais fotografias em: http://www.claudiacostafotogramas.com/vida-de-burro/

Um especial obrigada à AEPGA, por colaborar na realização deste trabalho.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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