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ContosCultura

Um bar na lagoa

O cheiro do sal era trazido por ventos de maresia. O som era o das ondas fortes a castigarem ao longe um areal inóspito. A luz emprestada por um sol frio libertava uma paleta de cores pastel à procura de razão de serem. Isto era o que se tinha quando se parava à porta do bar do Jacinto. Três sentidos apenas porque o sabor era a amargura da vida e o tacto a frieza de um futuro incerto.

Porque razão Jacinto abriu ali o seu bar era tão fácil de perceber como difícil de entender.

A primeira vez que ali esteve foi numa tarde de Janeiro daquelas em que uma pessoa ainda não sabe o que vai querer de um novo ano. Jacinto estava com Daniela, sua recente paixão, e deixou-se encantar pela conjugação de sentidos que a lagoa libertava na sua comunhão com o mar e os montes vestidos de pinheiros. Entre a beleza da paisagem, os sons e os odores da natureza, Jacinto apaixonou-se. Foi vê-lo correr pela areia com a namorada a seu lado, a mergulharem nas águas calmas como frias da lagoa protegida do mar por um extenso areal, acto de coragem e afronta à razão. Depois subiu a um monte sobranceiro à lagoa, apenas ele, e viu-se lá em baixo a correr na areia com a Daniela e a mergulharem nas águas calmas como frias da lagoa. Quando desceu o monte olhou para o topo e viu um bar com um letreiro com o seu nome. À porta do bar apenas duas cadeiras vazias.

Depois desse dia na lagoa, Jacinto regressou ao seu quotidiano com um propósito e preparado para uma duríssima e longa batalha. Chorou o fim do romance com Daniela e atacou os estudos com toda a força a que se obrigava. Conseguiu o trabalho que desejava e evoluiu nele e com ele. Subiu na hierarquia da empresa dedicando-lhe horas sem fim, noites e fins de semana perdidos e ganhos ao mesmo tempo. Espezinhou colegas e amigos que deixaram-no de ser para se manter focado no seu propósito que era agora a razão de viver. No entanto manteve-se sempre humilde nas posses e nos desejos materialistas. Viu amigos e paixões partirem para experimentarem mundos novos e culturas diferente, mas sempre deixou-se ficar na terra. Até a solidão combateu sozinho. Tudo para um dia retornar à lagoa e cumprir o seu desígnio.

Esse dia chegou ao fim de quase vinte anos de sacrifícios e árduo trabalho, Jacinto demitiu-se, entregou a chave do seu pequeno e despojado apartamento e libertou-se dos seu bens.

Regressou à lagoa.

Encontrou-a exactamente como a conhecera e dela se lembrava. Subiu ao monte, respirou profundamente e construiu o seu bar. Suou, cansou-se, mas nem se permitiu repousar. Assim sorriu. Pegou na última madeira e gravou o seu nome, depois pregou-a sobre a porta do bar. Por fim foi buscar uma cerveja e sentou-se numa das duas cadeiras vazias que vira à 20 anos atrás.

Olhou para baixo e viu Daniela a correr na areia e a mergulhar na lagoa. Acenou com um sorriso e soube que estava feliz.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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