ContosCultura

Um bar a preto e branco

Estava a contar os pedaços do seu coração partido, quando o som do saxofone chegou até ele como um cheiro familiar. Parou. Em toda a rua escura, só conseguia ver uma luz amarela e ténue a sair de um prédio, com certeza a porta do bar de onde vinha a música. Aproximou-se e espreitou pela porta de madeira e vidro, para ver que lugar era aquele.

Afastou-se bruscamente, como se tivesse levado um choque.

Não podia ser.

Esfregou os olhos e voltou a olhar.

De novo. Não conseguia acreditar. Todo o bar lhe parecia a preto e branco, não entendia porquê. Talvez tivesse a ver com os vidros. Abriu a porta e entrou, curioso, levado por uma voz doce que parecia sair de um vinil dos anos 50.

Ninguém reparou nele, mas ele reparou em absolutamente tudo. Muitas das pessoas estavam a preto e branco, outras com as cores ténues e pastéis dos anos 60. Algumas com cores bastante garridas, com roupas e penteados mais actuais. Como se, de repente, fosse daltónico, ou visse através de um qualquer filtro, de vários filtros. Como se estivesse com várias televisões a ver filmes de diversas épocas. E o mais incrível: embora ninguém parecesse conhecê-lo, ele tinha a certeza que conhecia quase todos, de algum lado, de alguma outra vida, não sabia de onde. Não conseguia entender exactamente o que se passava, mas não teve medo; pediu um gin e sentou-se numa das mesas de madeira no canto mais escuro daquele bar inglês.

Olhava para a banda que tocava, em profunda admiração. Um saxofonista negro com chapéu e fato completamente brancos, que lhe aparecia a preto e branco, acompanhado por um pianista chique, de fraque, também a preto e branco. E, em cima da cauda de um piano preto horizontal, num delicioso e inesperado cliché, cantava uma mulher a cores, com um vestido branco e brilhante, de cabelo escuro e com uma voz quase irreal. Lembrou-lhe a ela. Ela também tinha aquele charme, aquele magnetismo. Bebeu um gole de gin para curar o coração partido e impedir a mente de acariciar o corpo dela, dela, dela. Tristemente, também ele se sentia um cliché, mas não no bom sentido.

O copo estava vazio. Foi buscar outro, e voltou a sentar-se naquele canto escuro. Ajeitou o colarinho da camisola; custava-lhe respirar.

Tinha começado por bebericar aos poucos, mas rapidamente se rendeu à vontade de engolir o álcool todo de uma vez, numa espera urgente pela dormência. Pediu a seguinte. E outra. Já ia no seu sexto gin, e não sabia quantos mais é que o esperavam naquela noite jovem e confusa.  À sua volta, música e alegria. Mas ele só a via a ela, em todas as mesas e em todas as músicas.

 “Posso sentar-me?” perguntaram-lhe.

Olhou desconfiado, no meio do seu delírio alcoólico. Parecia-lhe ela.

“Vens partir-me o coração?” perguntou-lhe. “De novo?”

Ela sorriu-lhe e sentou-se. Acendeu um cigarro e afastou-lhe o copo de gin. Ele olhou bem para ela, para a cantora que era igual a ela. Para a cantora, que era na realidade ela. Olhou-a nos olhos, tentando ficar sóbrio. Queria olhá-la nos olhos como quem olha uma palavra durante muito tempo, até deixar de fazer sentido. Queria que ela deixasse de lhe fazer sentido. Ela fumava, olhando para ele divertida, massacrando-o. E ele não deixava de olhar, de entender, de ver. De ver nela a família perdida. De ver nela o amor que desperdiçou. O sorriso que parecia inocente e ingénuo e era de escárnio e maldade. De ver entender a traição – ela na cama com outro, na sua cama com outra pessoa qualquer. A gargalhada quando ele a descobriu. De entender os insultos, as palavras com veneno, as fotos queimadas. As memórias queimadas. As memórias queimadas como um rolo exposto ao sol. Não deixava de ver nela tudo. Até deixar de ver nada. Até só ver aquela mulher que já não era ela, porque ela já não existia mais para ele.

A mulher continuava a fumar, no seu terceiro ou sexto cigarro. De repente, deixou de sorrir para ele. Como se adivinhasse que já não era nada. Apagou o cigarro. Depois, lentamente, levantou-se da sua cadeira e sentou-se ao colo dele. Ele sentiu-se incapaz de reagir, surpreso. Mas não a amou. Não a desejou mais. Ela beijou-o. Beijou-o devagar, primeiro os lábios, quase nem tocando, quase levemente como uma impressão. Ele fechou os olhos e deixou-se beijar, sentindo arrepios quando notava os dentes dela a puxarem-lhe o lábio, a abrirem-lhe, devagar, os lábios. Correspondeu quando sentiu a língua quente dela, a sua respiração ofegante, o sorriso que ela parecia ter nos lábios enquanto ele a beijava, a sentia, enquanto roçava a língua nos lábios dela. Ela afastou-se. Ele abriu os olhos a medo, com medo, mas quando olhou para ela, ela continuava a não significar nada. Não a amava.

Ela sorriu-lhe tristemente. Levantou-se e sentou-se de novo na sua cadeira, observando-o. Ele olhou à volta e bebeu de um trago o gin que faltava. Levantou-se, pronto para ir para casa. Deu alguns passos cambaleantes. Olhou para trás, para aquela mulher que era igual a tantas outras. Ela, sozinha e de olhos tristes, observava-o. Ele não teve pena. Não sentiu nada. E quando saiu daquele bar chamado Passado, conseguiu respirar fundo novamente.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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