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Um Abril a Cumprir

“O governo é dono das pessoas, ou as pessoas é que são donas do governo?” Esta pergunta foi feita insistentemente por Winston Churchill, discurso após discurso, a partir de 1933, data em que Hitler chegou ao poder na Alemanha. Repetia-a vezes sem conta, independentemente de ser num discurso radiofónico dirigido aos italianos, em 1944, ou na Universidade de Leiden, na Holanda, em 1946. Em alguns momentos, esta pergunta era dirigida contra as ditaduras de Hitler, Mussolini e de Staline. As comemorações que hoje se fazem aos 40 anos do 25 de Abril fizeram-me recordar esta pergunta que Churchill tão incessantemente fez, principalmente por, nas últimas semanas, os meios de comunicação social (e o povo) em Portugal ter começado a questionar a sua importância, apresentando peças jornalísticas que pretendiam responder à questão: “O 25 de Abril valeu a pena?”. Apesar de considerar que todas as perguntas são pertinentes para começar uma conversa, esta, contudo, faz parte de um pequeno lote de interrogações que não permite grande conversa. É óbvio que valeu a pena, pela simples razão de que o regime existente antes do 25 de Abril era de um autoritarismo absurdo, em que duas figuras dirigiam um povo, por acharem que sabiam o que era melhor para ele.

À primeira vista, o 25 de Abril foi um momento de festa geral, um misto de Maio de 68 popular, ingénuo e transversal. Ao contrário dos estudantes de Paris, que se divertiram pondo em causa a velha ordem já caduca, os portugueses, na sua maioria, viram neste acontecimento a esperança de que o seu mundo ia mudar. Porém, tal como Maio de 68, após a festa, restaram os problemas por limpar e os “restos” por tratar. Enquanto que os estudantes de Maio acabaram os seus cursos e foram à sua vida, nós, portugueses, sofremos da ressaca da segunda-feira, típica de um fim-de-semana excitante, numa nova semana que é quase tão má como a anterior. Após a Revolução de Abril, a subida dos salários, a fixação de um salário mínimo e a situação de indisciplina financeira que se viveu contribuiu para uma quebra acentuada da taxa de crescimento. A estes factores acrescente-se a chegada a Portugal de centenas de milhar de portugueses vindos das ex-colónias, que necessitavam de apoio na alimentação, no vestuário e no alojamento, tarefa que o Estado tomou a seu cargo, e as nacionalizações das principais empresas privadas portuguesas. A juntar a tudo isto, as exportações para as ex-colónias irão diminuir brusca e acentuadamente, enquanto as importações (a preços protegidos) de produtos como o algodão, o tabaco, o café e a madeira diminuíram bruscamente.

A paixão fervorosa, misturada com algum desencanto, pelo 25 de Abril que se vive actualmente está inevitavelmente ligada à ausência de resposta ao milagre que se esperava acontecer com a queda do governo ditatorial. Vive-se, hoje em dia, um sofrimento de desesperança, de descrença em nós. Nos anos a seguir à Revolução, criou-se uma geração pós-guerra muito dada ao (tendencialmente) gratuito, uma geração de gritos, que demorou a compreender que a palavra exploração tem dois sentidos. O sentido dos marxistas, que diz que uns “exploram” os outros, roubando parte do seu trabalho, e outro, no sentido de fazer render os talentos e a capacidade de criar riqueza e de servir alguém. A falta de esperança, que leva muitos a exorcizar o espírito de Abril e a reclamar para si direitos conquistados, resulta do facto de nos conhecermos e de sabermos que não conseguimos agir colectivamente para enfrentar uma crise económica (que, na realidade, é uma crise de valores) criada por muitos anos a gastar no presente, para pagar no futuro. Nunca o fizemos. O desencanto resulta de sabermos que estamos a dar e que vamos continuar a dar as respostas do costume perante problemas novos – cada um por si, esperneamos, mas nunca escoiceamos. O desencanto é o resultado da nossa falha como sociedade. Uma sociedade à deriva, onde não pode haver futuro, porque não existe a estabilidade para o preparar.

Os grandes objectivos do 25 de Abril foram cumpridos, atingindo-se a paz, com a resolução do problema colonial, a liberdade, a democracia e a justiça social, com o começo de uma aproximação entre os mais ricos e os mais pobres. O 25 de Abril foi, essencialmente, um momento de restauração da liberdade, liberdade essa que permitisse ao povo português escolher livremente o seu futuro, não como uma revolução de rumo ideológico pré-definido, como alguns dos seus intérpretes hoje em dia defendem ser. Quarenta anos depois, a visão churchilliana da democracia que os Militares de Abril defenderam não parece ainda enraizada entre nós, uma vez que um povo silenciado durante quase meio século por um regime de medo e opressão, sofre ainda hoje de um mutismo feito consentimento, que o impede de abandonar o espírito de rebanho que se transforma constantemente em conivência perante a hierarquia e o fatalismo do destino. Tal como foi necessário defender o 25 de Abril original contra um 25 de Abril deturpado pelas ideologias políticas, para o país evoluir no sentido democrático e pluralista, com justiça social e integrado na Europa, hoje é preciso basear o país numa economia aberta e competitiva, dentro da zona euro e num mundo global. Já que festejamos 40 anos é preciso continuar com o processo de democratização que começou com o 25 de Abril original.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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