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Tudo o que ela queria

Mais uma manhã de trabalho igual a tantas outras. Telemóvel a vibrar infinitas melodias recebendo chamadas constantes. O trabalho que ela tinha a filtrá-las e atender apenas aquelas que contribuíssem para as suas metas era uma arte por si só. Problema nos parâmetros de execução do projecto. Liga para este e para aquele, recebe outra chamada, “confirma e-mail, por favor”, telemóvel preso entre o ombro e o ouvido, telefone da secretária a tocar, breve procura por entre os vários separadores abertos no ecrã do computador procurando o do e-mail. Lido e confirmado. Respondido e reencaminhado. Ao conhecimento de quem por direito o deve ter. Reuniões marcadas, computador fechado e passo apressado, já em atraso para nova reunião. Bate à porta e entra, saudações inócuas, projecto em curso, decisões a tomar, por quem ela decide, ela delega, é a vida que põe o trabalho de muitos a acontecer.

E tudo o que ela queria era sentar-se num passeio e tocar guitarra.

Uma pausa por fim. Falsa mas dava um pouco de tempo para pensar e responder a uma ou outra mensagem pessoal. Chegada ao almoço, novas saudações. Almoço com amiga que era sempre almoço de trabalho. Descontracção disfarçada. Amigo de amiga, troca de ideias, novas oportunidades, novos projectos, nova reunião marcada. A comida mais bela que saborosa. Apreciada no prato, consumida por entre vozes e sons de talheres, rapidamente esquecida. A fome nem tempo tem para se manifestar. A sobremesa sempre dispensável mais uma vez o foi. Café como remate da refeição. Também ele uma rotina. Esperava que fosse bom mas nem sabia se se lembrava ao que sabe um bom café. Um olho na conta outro no café, ambos os olhos nas horas.

Nova reunião aproxima-se e tudo o que ela queria era sentar-se num passeio e tocar a sua música.

Táxi, táxi. Passo apressado, saltos violentos a fazerem o chão gritar. Novas saudações, outra reunião que parece já ter existido. Mais decisões, mais sugestões, mais projectos. De novo no escritório. Computador aberto. Fosse o teclado um piano e cada resposta a um e-mail seria uma canção. Tinha material para vários álbuns. Um fugaz olhar à pequena moldura que se misturava na secretária por entre papéis e mais papéis. A imagem de um pôr sol laranja vivo, cortado a meio pela silhueta negra de uma prancha de surf. Telefone. Não há tempo para pensar no passado. Estava ali para projectar o futuro e para pôr o presente a andar sobre os carris certos. Um bater na porta. “Entre”. Mais papéis. Assinaturas e rubricas, ordens e agradecimentos. Uma pausa para respirar e pouco mais. O telefone. De novo. O telemóvel. Um bombardeamento de vozes que lhe chegam por um aparelho e a arte de como saber responder a todas elas.

E respondia pensando que tudo o que queria era sentar-se num passeio com a guitarra ao colo.

Fim de mais um dia. Já noite cerrada. Jantar seria uma ilusão. A hora para tal já tinha ficado para trás. Carro e trânsito. Rádio nas notícias. Acontecimentos frescos para si mas que para muitos já haviam acontecido. Luzes e mais luzes, brancas e vermelhas, fixas e intermitentes. Carros por todos os lados. Cansaço absurdo a cercá-la a envolvê-la. A tomar conta dela. Chega a casa. Tudo bonito e no sítio sem saber para quê. Nunca tinha tempo para olhar e sorrir para a simplicidade do que era simplesmente o seu espaço, a sua casa. Toma banho, prepara uma ceia e senta-se no sofá. Televisão ligada a competir com um par de e-mails que não podem esperar. Um par que rapidamente se transforma num salão de baile esgotado. Por fim os olhos na televisão e um momento de relaxamento muito merecido. Pestanas pesadas e logo adormece olhando para a guitarra a um canto da sala.

Amanhã ao acordar, tudo o que ela irá querer será sentar-se num passeio com a guitarra ao colo e tocar a sua música. Voltar a ser quem já foi, livre e feliz. Com pouco, com menos, mas com muito mais.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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