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Trump, a grande surpresa?

Após uma campanha eleitoral atípica, surpreendente e até violenta, pelas acusações mútuas e ameaças do candidato republicano à candidata democrática, o resultado das eleições foi praticamente inesperado.

Contudo, o inesperado parece ser devido ao condicionamento da nossa visão sobre estas eleições, motivado pelas notícias em geral, dos órgãos de comunicação americanos e europeus. Por outro lado, os disparates que Trump ia fazendo, os exageros de linguagem e as tomadas de posição levaram a maioria das pessoas sensatas a acreditar que uma tal postura extremista não teria bom acolhimento num eleitorado num país democrático.

Se os órgãos de comunicação social se situam, na generalidade, entre uma tendência para a esquerda (seguindo algumas opiniões insuspeitas) e a tentativa de interpretar uma espécie de sentimento generalizado dos eleitores americanos, a expectativa de todos nós iludiu-nos quanto ao desenlace final destas eleições. Do lado de cá, fora dos Estados Unidos da América, a expectativa era de um cariz um tanto distinta, no sentido de se pretender um Presidente americano que seja um garante de paz mundial, em primeiro, e da expectativa da sua contribuição para o bom relacionamento comercial com a Europa e com todo o Mundo. As afirmações provocadoras ou incendiárias de Trump iam no sentido oposto e a nossa expectativa, ou esperança puxava para um resultado final que se queria distinto, muito mais do que para a observação isenta do sistema eleitoral americano e de algum sentimento real do povo eleitor dos EUA, face a alguma saturação sobre os Democratas, sobre alguma desilusão e ao sempre repetido fenómeno da alternância no Poder.

O processo eleitoral no país tido como um dos bastiões da Democracia Ocidental é, em si mesmo, um tema de análise interessante e intrigante. Para que se atente em tal processo, basta ter-se em conta que Hilary Clinton teve mais votos directos, mas menos representantes do Colégio Eleitoral que efectivamente escolhe o Presidente. E ainda que, um aspecto que pode surpreender apenas os puristas da Democracia (como eu), mas não os pragmáticos deste tipo de regime político, quando se constata que o Presidente Trump foi eleito por cerca de 60 milhões de pessoas, num país de 300 milhões, tendo, assim, ficado de fora na escolha, 240 milhões, cerca de meia Europa.

Após eleições, surgiram os intrépidos liberais por todo o lado, a regozijarem-se com a vitória de quem julgam ser um deles. Trump será mesmo um liberal? Um homem que defende o proteccionismo da economia americana, com o seu fecho ao exterior? E que fala contra a Globalização, que sabemos ter sido bandeira americana, mas com extenso aproveitamento pela Ásia e pela China em maior escala? E o liberalismo será apenas uma teoria económica e que nada tem a ver com o Social? Porque neste particular, de enorme impacto e importância, Trump segue bem mais as teorias de ditadores do passado, com a insistência na repatriação de emigrantes (efectivamente alguns, que navegam pelo mundo da criminalidade, não deviam ter lugar num país que procura a ordem pública e uma melhoria da segurança geral do seu povo, porque investe no policiamento e é considerado uma referência mundial na investigação e na prática policial. No entanto, é o mesmo Trump que pretende agilizar a compra de armas em espaços comerciais convencionais, no que pode conduzir a uma nova onda de violência, com consequências contraditórias para com a pacificação pretendida com a expulsão de emigrantes criminosos.

Trump será, neste momento, bem mais uma grande incógnita do que uma certeza, quer para os apoiantes e simpatizantes, internos e externos, quer para os que se lhe opõem ou o receiam.

Se a Trump como Presidente, juntarmos o fenómeno louco de Putin, os motivos de preocupação para gentes pacíficas e que receiam a insegurança, como a generalidade dos Europeus, ou os agentes económicos por todo o Mundo, teremos uma incerteza sobre o futuro próximo e um acréscimo na preocupação para com a eleição deste Presidente americano.

Será que teríamos mais segurança e confiança com Hilary Clinton? As opiniões, como para com Trump, dividem-se. Por tradição, os Democratas serão menos propensos ao policiamento mundial e a corridas para o belicismo, mas parece que Clinton até se posicionava mais nesse sentido do que o próprio Trump. E há notícias sobre financiamentos duvidosos aos Democratas, vindos de cantos deste Mundo onde a Democracia não é sequer um assunto. E outras notícias sobre movimentos de cariz pouco transparente, como alguma manipulação dentro do próprio Partido da candidata, pouco favoráveis a uma imagem de transparência e augúrio de intenções muito pouco saudáveis e democratas. Talvez dentro dos EUA a dúvida sobre Clinton tivesse crescido a níveis que por cá não foi tão clara. Ou apenas o habitual cansaço sobre um mesmo tipo de políticas, uma quase tradição americana, tivesse ditado o insucesso eleitoral. Mas relembro que o Colégio Eleitoral ditou um resultado diferente do dos votos expressos pelo povo americano. Naquele país até os votos são negociados, no que parece ser a mais real imagem de um país que se ufana de uma democraticidade de que duvido um tanto.

No momento actual, só nos resta esperar, com a mesma lógica dos que têm dito que o Presidente será diferente do Candidato, o que se estranha, pois foi no Candidato que os americanos votaram. Porém, novamente, a nossa expectativa ditará a tendência dos nossos pensamentos e opiniões. A nossa objectividade ficou ferida de morte com este movimento eleitoral. E resta uma quase, quase certeza: após esta eleição, os EUA e o Mundo poderão nunca mais ser o que foram.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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