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Triste Europa!

Fiz o meu baptismo numa greve em noite de São Martinho, em 1969, já lá vão quarenta e cinco anos bem medidos, tinha então dezoito anos. Foram quase 48 horas. As noites estavam geladas e ficámos, ali, dia e noite, sem arredar pé, à volta de fogueiras, a aquecer o descontentamento e a ouvir o som do Tejo a bater de mansinho no cais. Ao segundo dia, pela calada da noite, lá para as 4 da manhã, centenas de agentes da GNR, equipados e armados como se fossem partir para a guerra do Vietname, apoiados por carros de combate, entraram por ali adentro e ocuparam as instalações. Colocaram-se à frente dos grevistas, à laia de pelotão de fuzilamento, puxaram a culatra atrás e introduziram a bala na câmara das espingardas, enquanto um oficial, com um megafone, garantia que se não desocupássemos as instalações dentro cinco minutos, começavam os tirinhos ao boneco, como na feira popular. Alguns cães treinados para rosnar na presença de fatos-de-macaco e cheiro a óleo farejavam-nos as botas, enquanto ali em frente, para além do Tejo, num quarto do Palácio de São Bento, o velho ditador de Santa Comba Dão definhava convencido que ainda era presidente do Conselho. Independentemente da justeza do acordo salarial proposto, cuja recusa esteve na origem da greve, o governo de Marcelo Caetano tinha decidido: “Não se pode ceder um milímetro senão este movimento grevista alastra a todo o país”.

Quase meio século depois, ecoou a mesma frase nos corredores de todas as instituições e governos europeus. Independentemente da justeza do acordo proposto pelo governo grego, depois de cinco anos de destruição, a senhora Merkel e o senhor Schäuble, que governam de forma ditatorial a União Europeia, tinham decidido: “Não se pode ceder um milímetro senão o exemplo grego alastra a toda a Europa”. E tudo fizeram para que o governo grego “desocupasse as instalações”.

As ditaduras comportam-se invariavelmente da mesma maneira. Umas vezes usam soldados e carros de combate; outras usam o sufoco financeiro, o que vai dar ao mesmo. No Domingo, o povo grego, numa votação que ficará na História desta crise europeia, disse claramente: ou percebem a nossa situação e vamos encontrar, em conjunto, uma solução ou vamo-nos embora do Euro e da União Europeia. Uma atitude heroica.

Se os donos desta Europa alemã não aproveitam esta oportunidade para alterarem os comportamentos e reinventarem a democracia e a solidariedade, podemos dizer: triste Europa!

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Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de honestidade, cerveja, conquilhas e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância, o autoritarismo e vendedores de banha da cobra. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.

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