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Travessuras da Menina Má

Vou começar pelo final. Arrepiante. Não esperava. Não sei o que esperava, acho que não esperava nada em concreto, mas aquele final… Pode-se dizer tanto dos autores pelo final que escolhem.

TravessurasDaMeninaMa_1Agora, pelo princípio: no bairro de Ricardo, o nosso protagonista, na cidade de Lima, Peru, aparece uma menina por quem ele se apaixona. Paixoneta de criança, parece ser, até que a menina eventualmente se vai embora e Ricardo também segue com a vida dele. Porém vai reencontrá-la. Vai reencontrá-la a vida toda. E é destes reencontros que o livro se faz, cada um mais irreal e incrível que o anterior. Mais cruel, mais doido, mais triste e mais feliz. “Niña mala” (menina má) é o que Ricardo chama a esta mulher fria, irreverente, insatisfeita e profundamente complexa, que, por sua vez, também o chama “niño bueno”, o protagonista apaixonado, quente, inocente, num amor-ódio e num contraste que Vargas Llosa não se vai cansar de nos mostrar.

No entanto, não só os reencontros são entre a Niña Mala e o Niño Bueno que compõem esta história. Não. São reencontros com tudo. Com pessoas da nossa infância, com pessoas novas, com pessoas que serão o nosso futuro. Com a morte, com a vida, com a casualidade, com o amor; com a História da América Latina, da Europa. Com os fetiches do Japão e a realidade africana. Com os imigrantes, os movimentos culturais e as várias formas de estar e de viver.

TravessurasDaMeninaMa_2Vargas Llosa escreveu um livro tão completo, sobre tantos assuntos – da alma, da vida, da História –, que parece impossível não ser maçudo e ser tão delicioso de ler. Li-o sofregamente e com tanto gosto, que quando acabei tive que reler várias vezes a parte final para não o deixar ir.

Las Travesuras de la Niña Mala chegou-me em espanhol. Não conheço em português e espero que esteja muito bem traduzido (imagino que não será fácil), para não perder a “dulzura” e o ritmo tão bonito que caracteriza o espanhol cantado da América do Sul. Um exemplo disso, para mim, é a escolha da primeira palavra do título: “Travessuras”. No espanhol do Peru, o ritmo transforma-a numa palavra bonita e lembra-nos uma maldade pouca, uma brincadeira de crianças. “Travessuras” é um eufemismo para o que esta Niña Mala faz ao protagonista. Porém, ao mesmo tempo, descreve bem a inocência por detrás de cada novo encontro, de cada procura, de cada abandono. Conseguimos gostar desta menina má e odiá-la ao mesmo tempo. Conseguimos desesperar com este amor de Ricardo e apoiá-lo. Eu insultei-o, mas também o abracei. E no fim, num fim tão bonito e tão terrível e tão tudo, chorei com o Ricardo e com a Niña Mala.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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