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Traumas Intensos

A fortificação e resiliência que desejamos construir como base do nosso castelo é sistematicamente atacada entre esse espaço de tempo entre o momento que nasces e a saudade que possa ficar, quando finalmente te vais.  Curta é nos nossos desígnios esta nossa estadia.

Durante esta temporada na terra, este empréstimo ao mundo, os focos de destruição interior, deixam em aberto autênticos buracos, fendas existentes na nossa muralha humana. Uns maiores do que outros. Uns facilmente tratáveis, outros irremediavelmente destituídos da cura. Uns e outros, nós deste lado, vocês desse, sabem que dentro desses nosso castelo possuímos vários pelotões de soldados prontos a defender com unhas e dentes a manutenção e sobrevivência do mesmo. Somos seres inadaptados às consequências da vida, porque a emoção é a linha que nos faz habitar com raízes de amor ou coroas de espinhos eternos. Sabemos lidar pouco com o conceito das dores, dos traumas, das fendas, das feridas que nos são fornecidas e que de igual modo como um looping o fazemos também. Que a ferida que eu possua seja a dor que também possas carregar. Loopings. Loopings de insatisfação, de teias que se movem de forma a levar as boas novas das desgraça a quem que isento ainda delas, as possas sentir como nós.

Os nossos pelotões de soldados interiores, estão divididos entre os corajosos, destemidos, os justiceiros, os lutadores, os desejosos de vida, que anseiam por sorrisos que se abram e abraços que se fechem. Temos outras gavetas interiores onde pelotões existem, recheados de desertores, medrosos, instigadores, construtores da nossa desgraça, produtores do nosso veneno. São os falsos soldados, que fardados de igual modo como todos os outros, desejam inapelavelmente, que possamos tombar a todo o custo. Anseiam pelas desgraças que se se possam abater, vivem da tristeza, melancolia, da dor e lambuzam-se com a destruição sentados, como que se vislumbrassem um por do sol. Estão sempre numa luta interior entre os soldados da paz e os sedentos mercenários interiores, desejosos de nos verem cair.

Somos enormes prédios cheios de compartimentos. No nosso hall principal, juntam-se em reuniões todos os participantes da nossa instituição. O Sr. Medo, a Dona Coragem, o grupo dos Insatisfeitos, dos subservientes. A empresa recentemente construída e com muito sucesso da tristeza, carrega consigo os novos relações públicas que se apresentam pelo nome principal. Doutores, recentemente agraciados com o canudo para a prática da infelicidade. Todos os intervenientes trazem com eles os seus soldados, defensores da paz e equilíbrio. Assim, como por sua vez, os mercenários, os subcontratados, pagos por míseros preços, desejam é catástrofe e queda. Dentro desta globalização interior que vivemos, neste nosso mundo, a luta é constante entre uns e outros. Qualquer um deles anseia comandar os nossos atos. As nossas palavras, as nossas vinganças. Os nossos sorrisos ou abraços. Alegrias ou tristezas. Não há um vencedor que seja proclamado como eterno. Porque essa dependência depende de como alimentamos os soldados interiores que possuímos.

Conforme os ataques de que vamos sendo alvo, os nossos soldados ou morrem lutando ou içam a bandeira da rendição ou simplesmente desertam. A forma como encaramos as vicissitudes da vida e demais problemáticas, traumas que se se vão enraizando e com isso construindo também a razão da desconfiança, depende como formamos, treinamos os soldados interiores. A nossa capacidade e forma como encaramos as demais tragédias com as quais somos atingidos, reflete-se na própria capacidade e defesa boa ou má…deste nosso sumptuoso castelo. Ou temos guerreiros prontos para uma defesa com unhas e dentes, operários, arquitetos e reguladores de construções e reconstruções capazes ou fazemos a defesa deste nosso empreendimento com espadas de papel e subserviência à desgraça que nos acorre.

A possibilidade de enquanto vivo presenciares mentiras, traições, desconfianças, perdas, desespero, desconexão, humilhação, omissões, injustiças é real. E sendo real a mesma vai tentar tirar de ti toda a roupa. Vai tentar deixar-te completamente nu em ti mesmo, desprotegido, desgovernado, destruído, descompensado. A tua solidão, a tua visão perante a desgraça ditará quem é o real vencedor. Quem alimenta o monstro com mestria dita o teu esquecimento ou a tua lembrança. Essa factualidade é tão real que o próprio medo atribui a si mesmo uma certa complacência com a dor não deixando que durmas relaxado. Esse é o fator primordial do medo. O não relaxamento.

O medo da destruição purga em ti o desejo de viver. E esses teus soldados combatem com unhas e dentes pela tua manutenção. Ainda que a pão e água, ainda que com horários interiores de verdadeiros escravos, eles dão sempre a sua última palavra. O último soldado, ainda que completamente cercado pelos mercenários da tua finitude grita em plenos pulmões: “ Vive!”. Este vive, é para que entendas que a luta não é em vão. É para que entendas que o sofrimento perante a visão de um castelo escancarado de dor, de sangue, não se entende como produto final, deixado à sorte e desabitado. Este “vive” significa reconstruir. Refazer. Reformular. Reaprender. Reorganizar e recuperar. Quando és sacrificado, enxotado, humilhado, injustiçado, deparas ainda, com o teu último soldado interior, que ferido, caído na berma do teu consciente, ainda tem forças para gritar “Vive”, significa que o amor que ele tem por ti, foi o mesmo amor que todos os outros soldados já tombados tiveram na batalha da tua manutenção.

Claro… não esperares viver, depois de tantos assaltos à tua condição humana, como se o teu castelo de pedra, mantivesse uma guarda pretoriana eterna. Não irá acontecer. O teu castelo viverá tal como tu, semi-nu. Porque nas portas de entrada do teu castelo, entrarão por bem quem te quer bem, como por mal chegarão aqueles que de vestes brilhantes carregam consigo a destruição, inveja, e o desejo de sugaram a tua energia, de corromperem os teus soldados. Soldados esses que se iram vestir a pele de mercenários. Não porque não acreditam em ti, mas porque foram corrompidos a deixar de olhar por ti.

Existem pedras que são difíceis de repor. E perceberás o abandono que o teu castelo, o teu empreendimento terá ao longo da tua vida. Alimentamos mal os nossos soldados, porque somos, levados a acreditar em outros soldados. Em outros pelotões de esperanças vazias, de guerras já perdidas, que não desejam o teu castelo. Apenas as pedras que te sobram, para construir o deles.

E quanto a isso fazemos remendos. Não se vislumbra outra hipótese. Se não pudermos colocar cimento, tapamos com um pano. Se não pudermos colocar um vidro, tapamos com uma cortina. Não queremos que nos vejam de forma consciente destituídos das nossas janelas e portas. Arranjamos remendos, produzimos cenários, apresentamos contextos, distribuímos sorrisos. Somos uma parte de nós morta, que carregamos com esforço, lágrimas, supondo que talvez um dia possamos voltar a ser aquele castelo de pedras preciosas. De gente que entra por bem e que sai feliz. Lamentamos o assalto da desgraça, do trauma, da mentira, da perdição. Vociferamos entre dentes questionando o porquê a esse nosso acontecimento.

E lá o vem o nosso soldado que grita: “Vive”.  Mas vive fazendo mais, fazendo melhor. Não nos transformamos em humanos bipolarizados pela desgraça e com isso colocamos e usamos diferentes máscaras, conforme os contextos. Isso é falsear o conceito da felicidade. É dar vivas à continuidade do medo, da mentira, da omissão e perpetuar dor.

O problema não está na tragédia em si. Ela acontece. Faz parte desta longa vida de humanos que carregam pelotões imensos com bibliotecas de livros distintos em si mesmos. O problema é que não se alimenta a dor com amor. Alimentamos com vingança. O problema não é alimentar a lembrança do trauma, é compactuar com o medo, não abrindo as portas à coragem. O problema não é esquecer eternamente…porque lembramos diariamente. O problema é que no quadro dos traumas pintado de cor inócua, sem sal, sem vida, não usamos nenhum tipo de cor. E esquecemos da frase do soldado que na sua grandiosa batalha em prol da nossa manutenção nos grita: “Vive!” O que ele te diz é um aviso, é um alerta que se centra, apenas ao fato de que poderá ser tarde demais para viver. Ele sabe-o, ele sente-o, ele entende-o. Ele não quer a destituição ou abandono de ti mesmo.  O que ele quer, é que o possas olhar nos olhos e que entendas: Que é cedo demais para morrer… porque há cores a serem pintadas e há obras que necessitam de ser perpetuadas…

 

 

 

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Bruno Fernandes

Nascido a 29 de Dezembro de 1975, natural de Lisboa, Bruno Fernandes, bloggler ativo há já alguns anos, dedica-se essencialmente à luta pela mudança interior e novas formas de entender o ser humano através da sua experiência de vida. Cinéfilo ativo e leitor assíduo.

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