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ContosCultura

Tortura

O vento chicoteava-lhe a cara. Mas ele não sentia. O sol queimava-lhe a pele. Mas ele não sentia. A areia, debaixo dos joelhos, doía-lhe no corpo. Mas ele não sentia. Já não sentia mais nada. Não adiantava sentir mais dor, nem pânico, nem sentir mais esperança. Ele já não sentia porque já não sabia quem era.

Tinha tido tempo para chorar, para se arrepender, para se zangar, para ter esperança e para a perder. Dias e noites. Semanas. Meses. Anos. Tinha tido todo o tempo do mundo para questionar e negociar, para que a vida lhe doesse e a dor o conquistasse completamente, para desejar morrer e para se agarrar à fé. Nunca tinha compreendido nem descoberto se existia mesmo um destino que o tivesse levado até àquele dia da sua vida. Tinha revivido o passado e tinha perdido os planos que tinha para o futuro.

Agora, estava ali. Sozinho e longe. Despido de tudo o que era.

O homem ao seu lado falava para a câmara, vestido de preto e seguro da sua missão. Conhecia o sotaque carregado e conhecia a faca que ele tinha na mão. Aquele homem, e outros como ele, tinham-no transformado numa qualquer mensagem de um qualquer pesadelo que não devia ser o dele. Ele mantinha os olhos baixos. Via de relance a roupa cor-de-laranja onde se sentia preso, e sabia-se sem cabelo, sem futuro, sem personalidade. Não ouvia o que o homem dizia. Escolhia não ouvir. Ele já não era ninguém, era só um nome, uma mensagem.

Sentiu que o puxavam e repetiu as palavras que o obrigaram a decorar. Mas não as ouviu. Quis chorar e quis suplicar e sentiu-se a entrar em pânico. Repetiu as palavras para a câmara, olhando com olhos de quem já estava morto, e depois calou-se.

Sabia que tinha acabado.

Limpou aquelas palavras sujas da sua alma. O medo queria apoderar-se dele, mas sentia-se tristemente calmo. Não chorou, porque já tinha chorado muito. Não desesperou, porque já se tinha resignado. Porque já sabia. Porque já não adiantava de nada, e soube que nenhuma das torturas pelas quais tinha passado se aproximava daquela. Daqueles momentos finais em que o coração batia rápido demais. Daqueles momentos finais em que o tinham desprovido de identidade, em que o tinham roubado da família, da profissão, do futuro. Fechou os olhos e lembrou-se dos sorrisos das mulheres da vida dele, dos abraços das crianças, do olhar dos pais. Lembrou-se da sua infância, das estrelas e dos cheiros, do que queria ser quando crescesse; de momentos tão pequeninos como um roçar de mãos ou sentir o cheiro do Verão, porque esses momentos eram tudo. Esforçou-se por se lembrar de tudo o que era, naqueles segundos finais.

Porque eles podiam tirar-lhe tudo. Excepto as memórias.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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