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Todos temos um depois

Mais tarde, não conseguiria ir a um café sem sentir o triste peso de um mau augúrio, até se habituar àquela melancolia medrosa e sentir que já fazia parte dele.

O cheiro a café iria sempre ficar associado às más notícias.

Desligou o telefone e olhou para o nada. Perdido. Sem pensar. Com a cabeça a mil. Sem pensar, sem perceber, sem ver, mas com o cérebro a mil. Quem o visse, talvez sentisse o peso que ele tinha no corpo, de repente; talvez notasse que tinha envelhecido tanto que tinha feições irreconhecíveis de tão diferentes às de uns segundos atrás. Talvez a sua cara parecesse uma máscara do sofrimento que ele sabia que o ia enforcar, que estava a chegar, que tinha chegado, mas que não se permitia ainda sentir. Evitou. Evitou. Evitou. Tudo à sua volta parecia escuro, desaparecido. Até que a tempestade lhe caiu nos ombros, até que esse sofrimento o encharcou e ele sentiu-se afogar. Sem entender como, conseguiu respirar fundo depois de suster a respiração pelo que lhe pareceu um tempo infindável. E cheirava a café. Não ouviu o moinho do café associado àquele cheiro, não ouviu as chávenas contra os pires, os pires contra os balcões de vidro, as pessoas a falar, a amaldiçoar um deus pelo café derramado, quente, a tosta queimada, a vida.

Razões insignificantes. Supérfluas. Nada. Uma gota ao lado do buraco negro em que ele se tinha transformado assim que atendeu o telefone.

Levantou-se sem pagar. Esqueceu-se. Mas ninguém o parou nem chamou, pelo menos que ele tivesse percebido. Esperava aquela notícia há muito tempo, sem a esperar realmente. Como é que esperamos as notícias que transformam a nossa vida? Aquelas, as más, que fazem com que o “antes” e o “depois” da notícia estejam separados por um abismo tão definitivo que parecem duas vidas, duas pessoas, gerações afastadas por milénios? Saiu, para longe. Não conseguiu olhar para o céu, nem para os lados, nem ver as ruas por onde andava. Pensou em ir para casa, mas os passos levaram-no a um qualquer jardim. Não parou. Andou às voltas sem perceber, sem pensar, sem parar de pensar. Depois, os pés guiaram-no para casa. Mal abriu a porta, caiu no sofá a chorar. Já sentia a falta. Já sentia a falta de tanta coisa que só lhe começaria a fazer falta daqui a uns tempos. Pareceu-lhe tudo demasiado triste e arrebatador.

Entrou na casa de banho e vomitou. Nervos. Vomitou até só sentir espasmos, até não ter absolutamente nada senão o seu próprio estômago, a sua própria pele, a sua longa e carregada tristeza. Lavou a cara. Olhou-se ao espelho. A cara molhada, os olhos vermelhos, um esgar de dor, as mãos a tremerem. Parecia um desenho de si mesmo, em papel vegetal, torto e inadequado. Passou as mãos trémulas pela cara. Não se reconheceu. Alguém diferente olhava-o de volta, encarando-o no espelho.

Ali. Naquele momento, ali, começou o seu “depois”.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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