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Todos na mesma cesta

Comprei uma dúzia de ovos a um criador. Fui para casa e abri a cesta cuidadosamente. Depois olhei para os doze ovos que tinha ali à minha frente: dois eram brancos e grandes, três pequenos e amarelinhos, cinco eram sarapintados e dois eram quase castanhos.

Cozi um, fiz uma omolete com três, uma gemada com cinco. Dos três que sobraram, um estrelei e dois guardei no frigorífico. Todos eles, diferentes por fora, eram deliciosamente bons. Todos tinham lá dentro uma gema e uma clara: uns mais gema, outros mais clara, mas todos eram, no fim de abertos ou cozinhados, simplesmente ovos.

Paralelismos à parte, o mundo onde vivemos é a cestinha de ovos ali em cima da bancada, viemos todos do mesmo criador, somos todos diferentes por fora, iguais por dentro e destinados a fins tão comuns como distintos.

Que palavra feia é a raça. Que insignificante que soa.

Se procurarmos um bocadinho na história, percebemos que a categorização por características foi algo que sempre existiu entre seres humanos. No entanto e numa fase inicial (pré-histórica mesmo), esta categorização resultava numa espécie de xenofobia, na qual determinado grupo era considerado superior com base na tarefa desempenhada ou na sua importância para o grupo: os caçadores seriam superiores aos que não o faziam e por isso eram “mais importantes”.

Naturalmente a sociedade foi evoluindo e, por muito que nos custe admitir, nós, Portugueses, pais da Diáspora, fomos algo responsáveis pelo que hoje é entendido como rácismo. Claro que não o fizemos de propósito, mas nós fomos aos países africanos, nós impusemos crenças, religiões. Nós inferiorizamos os que lá estavam. Nós negociámos escravos. Nós aproveitámos aquela mão-de-obra aparentemente “menos importante”.

É até na Biblia, querida e adorada como maior religião do Mundo, encontramos pequenos indícios que apoiam esta superioridade da tal raça: em determinado episódio bíblico, Noé amaldiçoa seu filho, Cam, lança-lhe uma espécie de profecia na qual os seus descendentes (netos de Noé) seriam escravizados pelos demais e seriam… negros. Ora, com base nesta permissa tão cientifica, nós, Europeus, seríamos, portanto, seres superiores aos Africanos, negros e descendentes de Cam e Canaã.

Talvez este racismo não passasse de medo, fascinio, incompreensão. Era uma nova terra, eram novas cores, eram novas crenças, era maravilhoso e inexplicável e, na dúvida, no medo o que se faz? Bate-se com o pé, enche-se o peito de ar, fala-se mais alto!

E os europeus lá foram. Espalharam-se pelo mundo, levando com eles escravos, perpetuando a sua “Raça” e a “Raça deles”… mas e eles? Eles eram fortes e determinados e iniciaram a luta pelo que, simplesmente, lhes havia sido roubado: o Ser, o Estar, o Crer. Contudo, seriam precisos anos. Anos de luta, anos de guerra. Ainda o são.

Talvez possamos pensar que o Racismo ou a Xenofobia em geral não fazem grande sentido nos dias que correm e que já ninguém pensa assim. Talvez possamos acreditar num mundo equalitario, em que pretos ou brancos é algo indiferente. Talvez podessemos acreditar nessa utupia…

Imagine all the people … You may say I’m a dreamer…

Há uns tempos parei, olhei à minha volta, para os imediatamente mais novos do que eu e observei os seus ídolos, as músicas que ouvem, as roupas que vestem. Reparei na miscelânea de culturas, no normal que hoje é comer sushi ou uma bela tagine, nos padrões africanos na roupa, nos cortes orientais das camisas. Reparei nas tranças nos cabelos e no Rap que sai dos fones. Reparei nos trejeitos linguísticos, nos estrangeirismos… E depois pensei: Olhei para aquelas/es meninas/os de bem e questionei-me se teriam coragem de apresentar o/a namorado/a preto/a ao pai. Se seriam capazes sequer de o namorar, se casariam com ele/a.

A cultura do outro é algo que nos fascina. Vai para além da cor da pele, do aspeto físico, desta ou daquela característica em particular. Então, porquê acharmos que a minha cultura é melhor que a tua? Será o fado melhor que o samba? Ou serão apenas diferentes formas de um mesmo sentir? Será o Malhao melhor que o tango? Ou serão apenas ritmos diferentes? E se gravarmos tudo no mesmo álbum?

Não faz sentido ostracizar alguém apenas por que é diferente, por que acredita noutro Deus ou em Deus nenhum. Não faz sentido olhar de soslaio para aquela mãe no parque que usa um sari, quando empurra a filha no baloiço ao lado do nosso. Não faz sentido entrar na loja do chinês apenas para falar alto para o senhor da caixa e rir descaradamente, porque ele não percebe a alarvidade que alguém lhe grita. Não faz, pois não? Ninguém faz isto, pois não? Os nossos jovens são melhores que isto não são?

Estamos em 2019, se calhar nada daquilo que escrevi hoje faz sentido… Afinal somos apenas ovos diferentes, lá dentro trazemos a mesma gema e a mesma clara e quem sabe se não vamos parar todos à mesma omolete.

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Andreia Mendes

Natural de Caldas da Rainha, 35 anos. Licenciada em Educação Social. Mulher, Mãe de dois. Com paixão pelas pessoas, pelas palavras, pelas acções, pelo teatro, pela música e claro pela escrita! Incapaz de compreender algumas injustiças por esse mundo fora, por esse tempo adentro.

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