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Todos acreditavam no chavismo. E agora?

Durante os 14 anos de liderança de Chávez, a Venezuela vivia dias de prosperidade aliado ao crescimento da exportação de petróleo. Nessa altura, o custo das finanças públicas bem como a inflação crescente foram determinantes para extinguir metade do desemprego (de 14,5 em 1999 para 7,6% em 2011, dados do Observador) e reduzir significativamente os valores de pobreza extrema (de 23,4% em 1999 para 8,5% em 2011).

Contudo, hoje o cenário é outro. A Venezuela atravessa uma enorme crise a todos os níveis (económica, política, social…), levando à sua capital – Caracas – uma das maiores manifestações de sempre contra o Governo e, claro, contra o chavismo. Um país suportado pelo petróleo que rapidamente ressentiu a queda abrupta do preço, conduzindo à escassez de bens. Os cidadãos formam-se em filas intermináveis nos supermercados. Procuram os bens essenciais como alimentação, produtos de higiene e mesmo medicamentos. Compram o que podem sem saber o que haverá no dia seguinte. Compram, muitas vezes, apenas o que lhes dão.

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FOTO: HENRY ROMERO/REUTERS

Por conseguinte, a inflação atingiu níveis incomportáveis podendo chegar aos 480% este ano (dados do Observador). As empresas, sem acesso aos dólares, têm cada vez mais dificuldade na importação de produtos, com a moeda a desvalorizar de forma galopante. A corrupção que outrora levara Chávez ao poder – por prometer combater este flagelo – é agora um dos motores da crise venezuelana. Não há melhorias à vista, não há em vista um futuro diferente, sustentável. Foi assim que chegou a governação de Nicolás Maduro que – embora tivesse feito uma campanha segundo os ideais do chavismo – o nível de popularidade tem decrescido dia após dia.

Por outro lado, a oposição partidária tenta pressionar para a realização de um referendo no início do próximo ano. Querem saber qual é a posição da população venezuelana sobre o estado do país. As sondagens, essas, são esclarecedoras. Em 742 inquiridos, 88,4% querem a saída de Nicolás Maduro.

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REUTERS

Chávez é recordado como um governante preocupado com as classes desfavorecidas que – dizem mesmo – ter sido capaz de melhorar as suas condições de vida. Mais. Afirmam que foi capaz de enfrentar tudo e todos, até os EUA. Neste período, o país conheceu uma forte indústria e fez crescer a sua imagem a nível internacional. Com esperança que Nicolás Maduro fosse seguir o percurso de Chávez, o povo votou sim. Votou sim ao chavismo. Ora hoje, a situação é bem diferente.

Como é que se explica que o homem escolhido por Chávez para comandar o país – país que viveu intensamente o chavismo – seja agora um alvo a “abater” por parte da população? Como é que o Nicólas Maduro deixou que o país atingisse este nível de crise financeira?

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Foto: Federico Parra / AFP

Entretanto, os media vão colocando este tema nas discussões do dia, mas até ao momento sem grande impacto mediático. Será a Venezuela um país fora do periférico de interesse por parte dos ocidentais (nos quais me pertenço)? A mais recente discussão em torno da Venezuela foi a presidência da Mercosul. Os países fundadores desta organização intergovernamental – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – chegaram a um acordo que impede a Venezuela de assumir a presidência do bloco, devido à crise que a República Bolivariana atravessa. O desrespeito das regras impostas pelo Mercado Comum do Sul coloca em causa a permanência da Venezuela neste bloco. É apenas uma das mais recentes consequências da crise financeira do governo de Maduro. Até um dos principais parceiros da Venezuela – a China – tem fechado o cerco à economia do país latino-americano. Segundo o The Wall Street Journal, o governo chinês pressiona na cobrança de dívidas e na diminuição do apoio financeiro – que fora uma das bases de sobrevivência económica da Venezuela nos últimos anos. Paralelamente a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) tem manifestado preocupação em relação ao país, especialmente em relação à onda de ameaças e detenções contra opositores partidários, a manifestantes pacíficos bem como a jornalistas. Mas será tudo isto suficiente para alertar o estado de calamidade em que o país chegou?

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São muitos os que já saíram do país à procura de um futuro melhor e tantos outros que pensam partir. Os que ficam têm esperança que a situação melhore, ou mesmo porque ainda acreditam em Nicólas Maduro. Contudo, muitos se queixam que lhes falta dinheiro para comprar pão, como poderão então sair do país? Vive-se o caos completo do “salve-se quem puder”. E o amanhã? O amanhã é incerto, mas até lá as manifestações vão permanecendo à espera que as suas vozes atravessem fronteiras, à espera que o referendo que a oposição exige seja realizado.

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