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ContosCultura

Tocar

É muito simples o esticar de um braço, o abrir a mão e tocar em algo. Foi o que ele fez assim que despertou numa manhã igual a todas as outras. Olhar atento a algo que apenas ele via, estendeu o braço e com a mão tocou o vazio onde há algum tempo tocara a personificação de um sonho muito só seu. A mão estendida via-se iluminada pelos feixes de luz matinal que timidamente invadiam o quarto, o olhar fixo nos dedos que sentiam o vazio das teclas de um piano cujas notas eram as do silêncio. O silêncio de uma música sem som que apenas ele ouvia; e capaz de o atirar em força para a realidade de mais um dia.

Assim acordava ele todas as manhãs, sentido bem presente aquele gesto em que tocou o rosto dela pela primeira e única vez. Desde então acordava e sonhava, tocava o vazio e sorria. Sempre. Sorria porque via naquele vazio as linhas que formavam a beleza dela, as linhas perfeitas do seu rosto, o cabelo um manto de seda perfumada, a voz criada por um querubim de propósito para se soltar por entre os mais belos lábios de ouro humano. E o sorriso, aquele sorriso especial que o iluminava durante todo o dia.

Ele era feliz mas não se contentava com pouco. Queria mais, mais dela e mais de si. Mas aquele gesto era o que a vida lhe permitia ter, e era feliz mesmo sabendo que aquele vazio em que tocava era apenas o vazio de uma memória que de tão bela, perdurava em si. Era a memória do momento em que ousou tocá-la. Lembrava-se claramente, com a precisão de um sol desenhado a compasso. Imagens sucessivas em perfeita cadência que lhe mostravam ele e ela em frente um do outro. As imagens de como trocaram olhares e ouviram a voz um do outro. As confidências sem importância que partilharam e que eram o mais belo do mundo porque eram do mundo em que viviam. Falaram e falaram. E com o tempo a correr, sorriram. Sorriram um do outro e sorriram um com o outro. Sorriram porque não sentiam o espectro da distância com que sempre ela o separou dele.

Ele sentia-se habituado a essa distância, aprendera a ser quem é com ela. E quando de novo a distância se impunha, ele sangrava por dentro de si invisíveis lágrimas de sangue. Sem feridas, sem cicatrizes, apenas uma dor que o atingia quando a memória se vestia de saudade. Naquele dia ele ousou, e antes que ela de novo abri-se a distância que a caracterizava, ele despediu-se encostando levemente o seu rosto ao dela. Depois beijou-lhe a outra face e nela colou os lábio vermelhos de vida. O tempo pareceu parar naqueles três ou quatro segundos que quase se eternizaram na magia de um beijar. Por fim tocou-a. Pousou a mão no seu pescoço e deixou os dedos sentirem a pele suavemente. Então com o polegar desenhou-lhe na face a grandiosidade do seu sentimento por ela. E que desenho mais belo, ainda que apenas ele o visse. Aconteceu o toque, a carícia. Ela sorriu. E depois partiu.

Ele sorriu desde então. Mas não partiu. Ficou e apenas duvidou do beijo nos lábios que quis dar e não deu. Sabe agora que não o deu porque iria estragar a beleza com que a tocou. Porque por vezes, menos é mais, e assim aquele momento ficou desenhado no eterno. O mais belo desenho. O desenho de quando a tocou.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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