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The Stranglers, os Pais do Punk Rock

Poucas são as pessoas que viveram durante as décadas de 70 e 80 que não se lembram do surgimento de uma das maiores influências na industria da música – o Punk Rock. Durante este período, os Stranglers começavam uma duradoura carreira, repleta de êxitos que influenciaram gerações.

Os Stranglers tiveram 23 singles no Top 40 do Reino Unido e editaram 17 álbuns, ao longo de uma carreira que teve início em 1974, com a formação dos Guildford Stranglers, composta pelo baterista Jet Black (de nome verdadeiro Brian Duffy), o baixista/vocalista Jean Jacques Burnell, o guitarrista/vocalista Hugh Corwell e o pianista/guitarrista Hans Wärmling. A composição musical dos Stranglers roçava a perfeição, dando igual importância aos quatro instrumentos utilizados: o tambor jazziano de Jet Black, o idiossincrático trabalho de guitarra de Hugh Cornwell, os hipnotizantes acordes de piano de Dave Greenfield e a criatividade no baixo de J. J. Burnel.

Depois de fazerem digressões pelos pubs londrinos, em 1976, os Stranglers assinaram um contrato discográfico com a United Artists e os seus primeiros três álbuns (Ratus NorvegicusNo More Heroes e Black and White) tiveram um sucesso tremendo, oferecendo aos ouvintes pérolas punk como PeachesSomething Better Change e No More Heroes. Estas músicas eram uma brutal estalada de fúria, uma psicadélica Punk-Rock condensada em alguns minutos e cada um dos seus originais foi construído recorrendo a espectaculares batidas, repletas de florescimentos melódicos inesperados, e de intros e outros que, em conjunto, constituíam uma excelente batida extra. Durante estas primeiras incursões musicais, as suas letras falavam de aliens, karaté, heroína, Nostradamus, ratos, corvos e alienação. Tornando-se, desta forma, na banda outsider de uma geração de outsiders.

1979 viu a chegada de um novo ábum dos StranglersThe Raven, onde foi notória a transição da banda para uma sonoridade mais melódica e complexa, que apelava mais ao mercado da venda de álbuns do que o da venda de singles. As músicas presentes neste projecto tinham muitas texturas e uma musicalidade muito complexa, lidando com temas como a viagem solitária dos Vikings, o vício em heroína, a engenharia genética, os eventos políticos na Austrália e no Irão e a visita de extraterrestres. No entanto, todo este sucesso não foi replicado no primeiro projecto em que a banda teve total liberdade artística, The Gospel According to the Meninblack, um projecto conceptual, no qual se explora a religião e a suposta ligação entre o fenómeno religioso e as aparições de seres de outro mundo. Esta temática demonstrou ser um desvio muito grande da sonoridade pela qual ficaram conhecidos e afastou muitos dos seus fans fervorosos.

Com La FolieFelineAural SculpureDreamtime e 10, os Stranglers conseguiram redimir-se junto dos seus fans, alcançando o seu anterior sucesso, antes do principal vocalista, Hugh Cornwell, seguir uma carreira a solo. Durante este período, a banda lançou dois dos seus maiores singles – Golden Brown, uma balada evocativa de uma valsa, com uma batida extra na quarta secção da música, e European Female, que demonstrou outra alteração na sonoridade da banda, com a adição da guitarra acústica e a utilização de tambores electrónicos. Conquistando, assim, a oportunidade que procuravam para alcançarem desde sempre – o mercado europeu, a quem agraciaram com Norfolk Coast e uma subsequente esgotada tour (Coast to Coast: Live on Tour).

Com a entrada e saída de John Ellis, que substituiu Hugh Cornwell, a chegada de Baz Warne e a saída de John Black, os Stranglers lançam Suite XVI e Giants, no qual é possível encontrar um instrumental pela primeira vez desde 1980 e demonstraram o gosto da banda por outros géneros musicais, representado com Adios, um energético e excêntrico tango.

Ignorados pelos meios de comunicação, os Stranglers foram uns pioneiros e uma grande influência para outras bandas. Foram eles que criaram a sonoridade nodosa com o baixo Beefheart, a que os Fall são tão associados. Foram eles que inventaram as linhas que davam primazia ao baixo, que Peter Hook utilizou nos Joy Division. Já cantavam sobre temas mais obscuros, quando os Goth começaram a fazê-lo, e já eram Pós-Punk, quando as bandas suas contemporâneas conseguiram perceber como sê-lo. Os Stranglers reinventaram o papel do baixo no Rock & Roll e sempre tiveram a genuína atitude agressiva que era tão característica no Punk, mas que tão poucos conseguiram alcançar.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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