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The Lovely Bones

Quando se perde um filho, um irmão, um amigo… como é que se continua a viver da mesma forma, se tudo mudou? Como é que se lida com essa perda? Como é que sobrevivemos? E as maiores dúvidas que nos assaltam o coração: como está essa pessoa? Será que ainda nos acompanha? Será que sofreu? Desapareceu definitivamente?

No livro The Lovely Bones (Visto do Céu, em português), de Alice Sebold, Susie Salmon, de 14 anos, é violada, assassinada e o seu corpo é desmembrado para esconder os crimes que lhe foram infligidos. Após a busca pela criança desaparecida, o cão da família encontra um osso, que se descobre que era de Susie. Nesse dia, começa o pesadelo da família Salmon. O terrível sofrimento de saber que ela está morta, mas sem um corpo, para além daquele osso, para enterrar. A impotência de não terem conseguido evitar aquele crime e de não saberem o que lhe aconteceu realmente. A incompreensão do porquê daquele acontecimento violento tocou a sua família e a sua vida. Contudo, Susie não desapareceu.

Susie chega perdida ao seu céu pessoal. Um lugar (e uma ideia, devo acrescentar) incrivelmente reconfortante e maravilhoso, onde vai conhecendo pessoas importantes para ela própria conseguir compreender e ultrapassar o que lhe aconteceu. Neste lugar, Susie está também com a família, a guardá-los e a tentar ajudá-los a ultrapassar a sua morte. Através das suas palavras, vamos seguindo o dia-a-dia da família e dos amigos, após a sua morte, assim como as investigações do seu assassinato. Como não podia deixar de ser, vamos também vigiando o seu violador, que vive mesmo ao lado da família e que aparenta estar a escapar das suas acções impunemente.

Desde o princípio sabemos o que aconteceu e quem foi, porque Susie sabe. Todos nós sentimos um pouco do que Susie está a sentir: sabemos tudo, mas não podemos dizer nada. Ao passar as páginas, mal conseguimos conter os gritos de aviso. Queremos dizer à família, queremos ajudar a polícia a descobrir quem foi, dar-lhes provas, contar-lhes tudo. Podíamos pensar que o facto de se saber toda esta informação seria um “turn off” para o resto do livro. Nada disso! O final da vida física de Susie é só o começo de toda uma história envolvente e cheia de curvas.

Passo a passo, vamos conhecendo a vida de Susie: o antes, o durante – o que lhe estava a acontecer e às pessoas próximas dela, no momento da sua morte – e o incrível depois. Incrível, porque, apesar do terrível fim de vida que teve, Susie continua a viver, através dos seus familiares e amigos, tudo o que lhe foi negado em vida. Principalmente, através da irmã mais nova, que experimenta tudo o que Susie não pôde experimentar, e da amiga que é um pouco médium e com quem ela, de certa forma, vai comunicando.

Recomendaram-me o livro há uns três anos, na mesma altura em que ia estrear o filme, e fiquei imediatamente fascinada pelo que me contaram. Depois de ler o livro e de procurar informações sobre a autora, descobri que tinha sido violada e que a polícia, na altura, disse que ela tinha tido sorte, porque, pouco tempo antes, no túnel onde tinha ocorrido a sua violação, uma rapariga tinha sido assassinada e desmembrada. Para mim, o livro tornou-se ainda mais arrepiante pela crua experiência da autora com esta violência e a maneira como ela decidiu incluir esse momento da sua vida num livro que se revela mágico.

Mágico, sim, porque mesmo com a sombra de um crime, este não é um livro policial, trágico ou “gore”, como poderia ser de esperar. É um livro de mistério, sem dúvida, pois, mesmo com o passar do tempo, todos continuam sem esquecer o terrível acontecimento e a questionarem-se incessantemente: quem seria capaz de fazer isso à inocente e querida Susie Salmon? Porém, este livro é, acima de tudo, uma incrível história de amor e um testemunho incrível de como continuar a viver, depois de uma tragédia que nos deita ao chão, porque viver é o melhor presente que podemos dar a um ente querido que já não o pode fazer.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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