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The Jungle Book

Actualmente é difícil separar os contos de fadas da própria Disney, a sua apropriação de muitas das histórias e de livros que ditaram gerações é fruto de um trabalho de quase um século de existência. Nos dias de hoje, essas memórias “acorrentadas” encontram-se à mercê de novos produtos, basta relembra os irrelevantes Maleficent e Cinderella e olhar para este The Jungle Book, um sucessor directo da adaptação animada de 1967 e não o incontornável livro de Rudyard Kipling, cuja primeira publicação foi há 122 anos atrás.

Tratando-se de uma história que reúne o folclore de crianças selvagens, criadas por lobos ou qualquer outra coisa selvagem (desde a Roma Antiga que tais lendas eram divindades), com um cenário de animais antropomórficos, em que cada espécie incute uma diferente motivação politica, The Jungle Book acaba de ganhar vida através da tecnologia motion-capture, bem afinada pelos estúdios Weta na Nova Zelândia. O resultado é imensamente esplendoroso. Com um visual que colocará o espectador na dúvida se tudo isto é fruto de efeitos especiais ou algo real. Escusado será dizer que a adaptação de Jon Favreau é o novo “Avatar“, superando mesmo o filme de James Cameron nesta marca tecnológica. A reconstituição da selva indiana, dos animais sob gestos humanizados e a interacção do jovem actor Neel Sethi com tais criaturas digitais dita-nos no rumo de um cinema onde cada sonho é executável e possível de ser re-imaginado.

Um mundo digital esplendoroso que fascinará os espectadores mais aventureiros!
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Contudo, se este The Jungle Book é quase uma sétima maravilha nos efeitos visuais e sonoros (adeus Life of Pi), é na sua concepção que encontramos as suas falhas. Como havia referido, é a associação Disney e a preservação da sua estética que colocam o filme num trilho mais perigoso. Como por exemplo: ouvir “The Bare Necessities” cantado por Bill Murray ou “I Wanna Be Like You” sob um estilo gangster por Christopher Walken que funcionam como nostalgias vividas para quem cuja infância foi ditada pelo estilo Disney.

Enquanto isso, os mais novos confrontarão os seus respectivos progenitores quanto às origens desta história de “meninos-lobos” e a resposta será maioritariamente a popular animação de 1967. E é assim que se “rende o peixe”, tudo resumido numa questão de marketing. A Disney rentabiliza o que é seu, dá ares a novas adaptações directas das suas anteriores conversões (será isto um remake?) e cria um círculo fechado no espectador cada vez mais refém dessa máquina industrializada. Infelizmente, The Jungle Book é um filme sobre tecnologia e como essa tecnologia deverá ser utilizada numa nova definição de cinema, um cinema visualmente diversificado.

Como exemplo dos bons usos dessa mesma digitalização, o manuseamento dos meios tecnológicos com o trabalho “invisível” dos actores, está em Kaa, a conhecida jibóia que tentou devorar o nosso Mowgli, protagonista de uma sequência sinistra que se funde com a voz de Scarlett Johansson (dando provas que o seu sucesso em Her, de Spike Jonze, não foi em vão).

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Hugo Gomes

Jornalista freelancer e crítico de cinema registado na Online Film Critics Society, dos EUA. Começou o seu percurso ao escrever no blog "Cinematograficamente Falando", acabando por colaborar nos sites C7nema, Kerodicas e Repórter Sombra, e ainda na Nisimazine, a publicação oficial da NISI MASA - European Network of Young Cinema. Nesse âmbito ainda frequentou o workshop de crítica de cinema em San Sebastian, também cedido pela NISI Masa, e completou o curso livre de "Ensaio Audiovisual e a Crítica de Cinema como Prática Criativa" da Faculdade de Ciências Sociais e Humana das Universidade Nova de Lisboa. Foi um dos programadores da edição de 2015 do FEST: Festival de Novos Realizadores de Espinho, e actualmente cobre uma vasta gama de festivais, quer nacionais, quer internacionais (Cannes, San Sebastian).

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