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CinemaCultura

The Hunger Games: The Mockingjay Part 1

Existe uma cena no mínimo curiosa em The Hunger Games: Mockingjay Part 1, na qual o presidente Snow (o antagonista interpretado por Donald Sutherland) debate com a sua consultora um termo utilizado no seu eventual discurso, preparado para ser proferido para toda a Nação. A causa de todo este dialogo deriva do uso de “forças rebeldes” para classificar os tumultos e revoltas por todos os distritos. Depois desta negociação entre a consultora e o Supremo Líder, “forças rebeldes” foram por fim substituídos por “radicais”, de forma a descredibilizar a luta de Katniss e os seus seguidores. Radicais, é coincidentemente uma palavra que caiu actualmente no uso da comunicação social e não só, provavelmente sob idênticos termos.

Eis o início de uma preparação bélica ao clímax que se adivinhava na adaptação cinematográfica da série literária de Suzanne Collins. As promessas são feitas neste aquecimento, cujo seu maior pecado encontra-se estampado no título. Sim, refiro obviamente à primeira parte. Parte, essa com menos acção e conflitos devidamente relevantes para a intriga que se arrasta há três filmes. É os Jogos da Fome sem jogos, um espectáculo que não irá de todo seduzir os já estabelecidos fãs, mas que, e curiosamente, é detentor de uma crítica audaz e perspicaz nos seus objectivos, elevando a fasquia, supostamente direccionado ao público adolescente pós-Twilight, para um patamar mais negro e subliminar.

Este último The Hunger Games tem como factor ser um exemplar cínico até à medula, até mesmo na composição dos heróis desta distopia ficcional, que operam nas sombras e na marginalidade da ética do campo de batalha. Correctamente, podíamos salientar que os ditos “radicais” jogam os mesmos jogos que os seus ditadores “alvos”, a comunicação social e a manipulação colectiva consequencial continuam como peões ambíguos e recorrentes ao maniqueísmo. The Hunger Games: Mockingjay Part 1 baseia-se em construir um símbolo de guerra e nada melhor que Jennifer Lawrence paravestir tal pele, a sua Katniss é uma figura de resistência e emancipação feminina a deter no universo da cultura pop, para além da jovem actriz nos entregar com um desempenho voraz, emotivo e por vezes explosivo “I have a message for President Snow: If we burn, you burn with us!”.

"Radicais"? Será Katniss uma verdadeira heroína?
“Radicais”? Será Katniss uma verdadeira heroína?

Do outro lado da arena, Donald Sutherland vai expondo as suas garras retrácteis e demonstrando o potencial vilão que o seu presidente Snow poderá tornar-se, um espelho alusivo aos ditadores do século XXI, escondendo por trás de disfarces sociais e no capitalismo. A nova incursão de Francis Lawrence é distribuídaentre essas duas figuras, estabelecidas em maniqueísmos não evidentes, que apesar de torcermos por Katniss na sua missão, é curioso explorar e questionar a credibilidade da política de Snow, não sob vertentes éticas e politicamente correctas, mas no sentido de contenção social e ordem adquirida pelas mesmas. Aliás, este é tipo de política pós-guerra, uma prevenção de tal repetido cenário.

É certo que muitas destas mensagens irão passadas ao lado pela maioria da audiência para os quais os contos de Suzanne Collins são direccionados. No entanto, até nesse sentido a saga cinematográfica de The Hunger Games supera os escritos, enquanto em papel, os temas são abordados sob um contexto juvenil, maioritariamente apostando no triângulo amoroso descrito, no cinema, tal matéria é levada a uma plataforma mais adulta e dramática. Evitando os lugares-comuns da romantização levado a cabo pelos personagens e salientando no cenário geopolítico “what if” e, com isso, trazer influências dignas de George Orwell e as suas distopias literárias.

Como espectáculo, The Hunger Games resulta num portento visual, sonoro e leva a sério a sua aquisição de actores, vale a pena sublinhar que temos aqui um dos últimos papéis do falecido actor Philip Seymour Hoffman. O único senão desta obra é alguma aposta, falhada, em personagens descartáveis, ou outras levadas indevidamente pelos seus actores, falo, obviamente, na fraca entrega de Liam Hemsworth em compor um dos vértices do referido triângulo amoroso, mas nada que verdadeiramente impede de visualizar um majestoso terceiro capítulo de uma das melhores sagas juvenis do cinema hollywoodesco. Entretenimento desafiante.

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Hugo Gomes

Jornalista freelancer e crítico de cinema registado na Online Film Critics Society, dos EUA. Começou o seu percurso ao escrever no blog "Cinematograficamente Falando", acabando por colaborar nos sites C7nema, Kerodicas e Repórter Sombra, e ainda na Nisimazine, a publicação oficial da NISI MASA - European Network of Young Cinema. Nesse âmbito ainda frequentou o workshop de crítica de cinema em San Sebastian, também cedido pela NISI Masa, e completou o curso livre de "Ensaio Audiovisual e a Crítica de Cinema como Prática Criativa" da Faculdade de Ciências Sociais e Humana das Universidade Nova de Lisboa. Foi um dos programadores da edição de 2015 do FEST: Festival de Novos Realizadores de Espinho, e actualmente cobre uma vasta gama de festivais, quer nacionais, quer internacionais (Cannes, San Sebastian).

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