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“The Goldbergs”: três razões para entrar nos anos 80

Há quebras de energia que nem uma boa noite de sono resolve. Há crises de criatividade que nem o silêncio desfaz. São momentos em que a racionalização das decisões do presente se confunde com os medos do futuro. Nessas alturas, o escape através da ficção ganha uma legitimidade vincada. Admito-o: 20 minutos de uma boa comédia têm mais efeitos em mim do que tentativas de meditação. Nesses 1200 segundos, fico ao corrente de outro mundo que não aquele que me rodeia, simplesmente porque apetece. E, no final desse espaço temporal, é bem provável que me sinta revigorada.

Não tenho dados estatísticos para o comprovar, mas desconfio que não sou caso único. A abstracção através da ficção não é cobardia – é estratégia de sobrevivência. Contudo, há quem inverta as peças do jogo e transfira para o ecrã o mundo que lhe pertence. E há quem o faça com grande mestria, tornando a sua própria realidade em escapes de tranquilidade para os outros. O produtor de televisão Adam F. Goldberg é um desses mestres e eu pertenço claramente aos outros, cada vez que assisto a um episódio da sua criação “The Goldbergs”.

Adam F. Goldberg

A série estreou em 2013, na ABC. Actualmente na quinta temporada, a premissa da história é simples: acompanhar a vida da família Goldberg, durante os anos 80 na Pensilvânia. Uma mãe, um pai, dois filhos, uma filha e um avô constituem o núcleo central e interagem, em grande parte, à base de… gritos. Muitos gritos. Mas desengane-se quem pense que se trata de uma família disfuncional só com o intuito de ter graça. São gritos baseados em factos reais, o que faz toda a diferença.

Com sarcasmo mesclado com lições de moral, cada episódio corre a um ritmo que torna impossível captar cada detalhe irónico de guarda-roupa, cenário e reações. Como consequência, “The Goldbergs” faz-nos sentir que o tempo de compromisso com o ecrã valeu a pena. Principalmente pelas três razões que se seguem:

Beverly Goldberg – Enquanto preparava este texto, perguntei a um amigo que motivos ele apontaria a alguém para acompanhar os Goldbergs. A resposta foi imediata: “Oh, a Beverly, sem dúvida! Ah, e a Beverly também!”. (Não o julguem, por favor. Não foi uma atitude de preguiça em ajudar… Ele apenas constatou o óbvio.)

Beverly Goldberg é a matriarca da família, a personagem interpretada pela atriz Wendi McLendon-Covey, que nos brinda com algumas das expressões faciais mais caricatas do pequeno ecrã.

De cabelo sempre perfeito e camisolas extravagantes, Beverly tem dificuldade em aceitar o crescimento dos filhos. É este sentimento que justifica o facto de aparecer em bailes de finalistas, festas de faculdade e ser temida na sala de professores. A personagem passa muito tempo nesse espaço a procurar defender o que julga ser o melhor interesse dos filhos. O resultado é, claro está, uma série de momentos embaraçosos, mas que acabam, geralmente, por ter os efeitos desejados. Nem que para isso Beverly tenha que encontrar alguma forma de chegar ao Presidente dos Estados Unidos da América…

Evolução sólida – A Beverly Goldberg bem que pode tentar ignorar o facto de os filhos já não serem bebés, mas o público nota o crescimento. A evolução está na narrativa de cada personagem e nos atores que as representam, ainda que as características essenciais não se percam na dinâmica.

O pequeno Adam Goldberg é quem melhor exemplifica esta realidade. Entre temporadas, passa pela fase de transição de voz, cresce em altura, apaixona-se, conquista o coração de uma miúda e quase, quase… amadurece.

À medida que os anos passam, Adam sente que talvez seja melhor afastar-se daquele que sempre fora o seu melhor amigo: o avô, carinhosamente tratado por Pops. Contudo, apesar de grande fisicamente, o Adam de 12/13 anos não perde a paixão pelos brinquedos e pelos filmes de que gostava, quando tinha uns sete anos. O amor declarado pelos Transformers, Star Wars, Goonies e outros que tais acaba por lhe custar o amor de uma rapariga. Apenas Pops compreende as brincadeiras, pelo que talvez não seja assim tão mau continuar a partilhá-las com o companheiro de sempre.

Assim, Adam ensina-nos a não negar as raízes de toda a diversão, por mais que à volta nos imponham barreiras sobre o que parece bem ou mal em cada faixa etária.

Baseado em factos reais – Quantas vezes já deram por vocês a ver uma série e a pensar algo do género “Oh, isto só podia acontecer mesmo numa série…”? Normalmente, o pensamento surge perante algo que julgamos ser engraçado ou descabido demais para ser real. Quando comecei a assistir a “The Goldbergs”, a ideia era uma constante. Passados alguns episódios, o desabafo foi substituído pela declaração “Desisto de perceber se isto foi verdade ou não.”.

Murray Goldberg, o pai da família, despe as calças assim que chega a casa e deixa-se andar por lá em cuecas. Pops mete conversa com gente que não conhece, quando vai a restaurantes e senta-se ao lado desses mesmos estranhos. Adam vestiu-se de cubo de Kubrick para o Halloween. Não são pormenores de ficção. Tudo isto é real… E as camisolas da “verdadeira Beverly” também eram tão brilhantes? Sim. E aquelas interpretações caseiras (e hilariantes) de videoclips dos anos 80 que Adam faz com o irmão na série? Aconteceram. Há vídeos a comprovar tudo isto.

A exposição que Adam F. Goldberg faz da sua família e conhecidos é levada a outro nível, quando as pessoas nas quais as personagens se baseiam entram na série. A “verdadeira Beverly” surge num episódio acompanhada pelas suas amigas e é observada pela “Beverly-personagem” como arquétipo do futuro. Um rapaz que maltratava Adam nos tempos de escola aparece no retrato dessa cena, como motorista do autocarro escolar. E os exemplos continuam… Porque a vida de Adam F. Goldberg nos anos 80 está recheada de histórias. E ele teve a capacidade de tirar o melhor partido das relações que estabeleceu e das atribulações por que passou.

Cada episódio é dedicado a algo ou alguém e, no final, podemos ver excertos dos eventos reais que foram filmados pelo produtor, quando era criança, e que deram origem à história. Adam F. Goldberg queria ser realizador quando crescesse e aqui está ele, em 2018, a produzir a história da sua vida, alicerçada nos filmes caseiros que fez nos anos 80.

Em Portugal, a série “The Goldbergs” é emitida na Fox Comedy. E fica a garantia: é uma das mais divertidas viagens no tempo. Mesmo para quem, como eu, nasceu uma década depois e noutro continente, sabe bem entrar naquele mundo. São bons vinte minutos de reposição de energia.

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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