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CinemaCultura

The Avengers – Age of Ultron

Em tempos, o género (agora formado) de filmes de super-heróis eram consideradas “produções malditas“, obras de segunda categoria,onde só se encontrariam envolvidos actores em plena decadência, ou realizadores despreocupados com a sua própria seriedade artística. Pois bem, os anos 90 nunca foram amistosos para tais super-heróis, que com a excepção de Batman e o legado deixado por Tim Burton, nenhum outro trabalho do género mereceu atenção à grande indústriacinematográfica. O êxito existia ocasionalmente, mas eram raros os casos que excediam o catálogo de mero culto seguido por um nicho fechado e próprio.

Contudo, a partir do novo milénio, o cenário alterou drasticamente com o feito de Bryan Singer, realizador de The Usual Suspects, a conseguir cumprir um desejo antigo para a própria industria, adaptar a popular banda desenhada de Stan Lee e Jack Kirby, X-Men, resultando num filme morno, porém, propício a terrenos mais dramáticos do que o habitual. Seguiu-se depois Sam Raimi, em 2002, com Spider-Man, o qual elevou o género ao topo do box-office. Ambos os filmes geraram sequelas mais confiantes e acentuadas nas explorações do foro dramático nos seus personagens, no caso de Raimi e a continuação de Spider-Man, a dimensão foi aprofundada, garantindo uma ambiguidade que serviria de exemplo a todos os outros que seguiriam. Caso inverso, foi o fracasso de Ang Lee e o seu Hulk, em 2003, um filme mais denso nas suas cargas psicológicas e dimensionalmente dramáticas, que consistiu numa reflexão ao próprio conceito de super-herói. A obra não convenceu fãs, apesar de ser de momento um dos mais singulares deste género estabelecido.

No entanto, foi com Christopher Nolan, numa manobra “suicida“, que apostou no cariz sociológico e simbolista dos heróis de banda desenhada. Refiro obviamente a Batman, numa operação que o fez resgatar do terreno “camp” e assim a garantia do processo de devolução às trevas que o envolviam. A par dos filmes de Raimi, Nolan acrescentou no género uma confiança digna da grande produção, não se tratava de fazer uma adaptação de BD, mas sim cinema universal para todo um grande público. A experiência foi consentida por milhões, que o tornaram num dos maiores sucessos do Cinema Actual. Com a gradual fama dos filmes de super-heróis, a Marvel decidiu levar a cabo um dos projectos mais arriscados de sempre na grande indústria, o de transitar todo um universo existente na BD para o Cinema e,assim, começou o chamado MCU (Marvel Cinematic Universe), que arrancou com Iron Man (2008), um filme que transformou o enfant terrible de Hollywood, Robert DowneyJr., numa estrela a nível global, até chegar a este Age of Ultron, o 11º capítulo deste longo franchising.

Novamente a equipa reunida contra as ameaças do nosso planeta!
Novamente a equipa reunida contra as ameaças do nosso planeta!

Depois de uma “lufada de ar fresco” que foi Guardians of the Galaxy (James Gunn), voltamos agora ao “joint movie”, a segunda fase dos objectivos delineados pela Marvel (agora assumido como estúdio através de uma coligação com a Disney). Esta sequela directa do mega-êxito de 2012 (The Avengers, que é até à data o terceiro filme mais rentável de sempre), regressa com Joss Whedon a deter o leme, preenchendo toda a aventura com os seus toques de “autoria”, o seu humor deslocado, mas simbiótico com a acção. Porém, ao contrário do antecessor, Age of Ultron acaba por ceder na sua grandiloquência. Tal como o antagonista, o filme é megalómano e demasiado abrangente no seu desenrolar de sub-intrigas e na excessiva inserção de personagens, o resultado é um amontoado de easters eggs para fãs salivarem e personagens descartáveis para cinéfilos desesperarem.

Contudo, tudo se resume a um registo de “mais do mesmo”, aliás, são os adjectivos mais que adequados para classificar esta “grandiosa” produção, um capítulo adicional ao franchising que nada acrescenta em termos cinematográficos, estilísticos nem dramáticos (mesmo que esta sequela tenha tendência de ser levada demasiado a sério). Sim, este novo The Avengers está mais próximo do terceiro Iron Man do que propriamente da primeira estância de Joss Whedon neste franchising, igualmente interessado em tecer intrigas humanas aos seus heróis (um tempo perdido nesta concepção), para depois seguir à deriva do festim tecnológico e do vazio que esta parece emanar.

Ultron, inteligência artificial combinada com totalitarismo.
Ultron, inteligência artificial combinada com totalitarismo.

Não se deixem enganar, Whedon faz a diferença e é o seu pontuado humor que o demarca dos restantes capítulos deste Universo Partilhado, mesmo que em doses pequenas, são triunfantes no preciso momento em que são retiradas da “cartola“. O elenco é prestável nas suas encarnações (Elizabeth Olsen e Aaron Taylor-Johnson, sob um sotaque artificial, chegam mesmo a resultar como novas adições) e até o vilão encontrado, o referido Ultron, reserva-se como uma surpresa, tão ou mais carismático que o maior trunfo da Marvel Studios na categoria dos antagonistas, refiro-me a Tom Hiddlestone e o seu Loki. Contudo, a previsibilidade é por si impossível de contornar, o que não devemos esperar grandes surpresas, nem sequer irreverências. Tudo corre como planeado, com direito a um colossal confronto final (esperado…) e, sinceramente, mastigado pelo uso e abuso dos efeitos visuais.

É um entretenimento que resistirá no teste dos espectadores, mas infelizmente é povoado por concertantes lugares-comuns geográficos e etnográficos, estereótipos servidos para simplificar todo um Mundo criado. Outro ponto negativo, se prestarmos atenção aos propósitos subliminares do filme, é o excesso de militarismo de que a iniciativa The Avengers parece adquirir, como por exemplo, Hawkeye (Jeremy Renner) a comportar-se como um autêntico Tio Sam: “we want you to join in our cause“. Claro que fazer leituras políticas aqui é quase tão descabido como ir a um restaurante chinês pedir um bitoque, mas também não é vergonhoso fazê-las, visto que os filmes de super-heróis querem ser acima de tudo tratados como cinema a sério, porque não começamos a critica-los sob os mesmos contextos do qual são criticados os ditos “filmes sérios”. Em suma: quem é fã, continuará a ser fã, e quem não é, não é desta que será convertido.

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Hugo Gomes

Jornalista freelancer e crítico de cinema registado na Online Film Critics Society, dos EUA. Começou o seu percurso ao escrever no blog "Cinematograficamente Falando", acabando por colaborar nos sites C7nema, Kerodicas e Repórter Sombra, e ainda na Nisimazine, a publicação oficial da NISI MASA - European Network of Young Cinema. Nesse âmbito ainda frequentou o workshop de crítica de cinema em San Sebastian, também cedido pela NISI Masa, e completou o curso livre de "Ensaio Audiovisual e a Crítica de Cinema como Prática Criativa" da Faculdade de Ciências Sociais e Humana das Universidade Nova de Lisboa. Foi um dos programadores da edição de 2015 do FEST: Festival de Novos Realizadores de Espinho, e actualmente cobre uma vasta gama de festivais, quer nacionais, quer internacionais (Cannes, San Sebastian).

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