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The Americans

The Americans começa a sua terceira temporada no exacto ponto em que ocorreu o cliffhanger do fim da segunda temporada, enquanto avança essa linha narrativa a um passo relativamente lento. Misturando uma visão micro com uma macro da história, a série rodeia de mistérios todas as situações que envolvem a filha do casal central, num paralelo com a crise soviética que existe no Afeganistão e que ameaça tornar-se no Vietname do bloco soviético. Se juntarmos a isto a chegada de Frank Langella num papel recorrente, temos um início fantástico, apesar de umas pequenas falhas.

No fim da última temporada (e se não a viste, podes parar de ler aqui), os dois espiões soviéticos infiltrados nos Estados Unidos da América como se fossem um casal, Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth (Keri Russell), encontraram-se perante uma proposta inquietante. Ou melhor, encontraram-se perante um ultimato realizado pelos seus handlers – começar a treinar a sua filha de 14 anos, Paige (Holly Taylor), para que também se possa tornar numa espia infiltrada neste país. Uma posição que coloca o casal em rota de colisão, já que Philip se encontra renitente à ideia e Elizabeth, uma verdadeira convertida à ideia de proteger a sua pátria, aceita-a sem contestação. Aliás, ela chega a dizer à personagem de Langella, um velho amigo que é enviado para ser o contacto directo do casal com Moscovo, que, dada a tendência de Paige para aceitar causas liberais, “ideologicamente, ela está aberta a ser influenciada pelas ideias acertadas.”

Claro que esta é apenas uma pequena parte do enredo da série, com as suas habituais intrigas, os seus desertores e as suas manobras políticas dentro da própria missão soviética, na qual o responsável local (Lev Gorn, que, ao longo de duas temporadas, tornou-se numa personagem fascinante) tem uma filosofia muito familiar aos amantes do Ficheiros Secretos – não confiar em ninguém. O FBI, entretanto, continua a aproximar-se aos poucos desta conspiração no próprio solo, ao mesmo tempo que a história que envolve o vizinho do FBI (Noah Emmerich) de Philip e Elizabeth perde parte do seu interesse, por causa da sua paixão russa, Nina (Annet Mahendru).

Os produtores da série não têm qualquer problema em demonstrar os confrontos sem escrúpulos desta Guerra Fria em solo norte-americano, sendo que é frequente a justaposição de cenas de sexo e violência levas, infelizmente, ao extremo. Neste ponto, não é necessário ser-se um puritano para sentir estes extremos em The Americans, numa busca incessante pela criação de uma ambiguidade moral, mas que se esquece que o facto de ser possível fazer não é sinónimo de que deve ser feito.

Com isto dito, a série tem conseguido manter um delicado ambiente de corda bamba que parecia ser um balanço difícil de manter, quando a série estreou. É também extraordinário que seja possível avançar com as missões dadas e estar sempre um passo à frente das autoridades norte-americanas de forma credível, mantendo em simultâneo as motivações para a sua causa relacionáveis, mesmo ao cometerem actos desprezíveis em nome da mesma.

É também necessário dar crédito a The Americans por conseguirem criar histórias interessantes fora do casal central. O que inclui uma forma interessante de incluir as crianças do elenco em enredos que ultrapassam a simples curiosidade das actividades nocturnas dos pais. Os momentos históricos que sustentam a série, incluindo a experiência russa em terras afegãs, vão-se tornando progressivamente mais interessantes, há medida em que os anos 80 vão progredindo. Espero que a série dure, pelo menos, até à quinta temporada, porque seria interessante poder ver como é que estas histórias se desenvolvem após a queda do Muro de Berlim.

Com Sons of Anarchy terminada e Justified a dar os seus últimos cartuchos, The Americans é uma das séries que mais arrisca na televisão actualmente. E se a cópia de premissa é uma forma de elogio na televisão, a série deveria sentir-se muito lisonjeada por ter inspirado a criação da ainda por estrear Allegiance, que também se desenvolve em torno de espiões russos em solo norte-americano, mas, neste caso, a decorrer na nossa sociedade.

Bem-vindos ao mundo do capitalismo, camaradas.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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