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ContosCultura

Terminal 1, Chegadas

O enorme placar mostrava a informação dos voos de chegada num piscar constante e repetitivo. Actualizava-se quase ao segundo fazendo desaparecer os voos resolvidos e mostrando outros ainda a horas de distância. Ele olhava ansioso para o placar. Esperava por ela sem ela o saber. Seria uma surpresa pensada para ela se sentir bem-vinda e ao mesto tempo matar as saudades que tinha. Para o fazer, levava uma cartolina branca enrolada cuidadosamente por baixo de um braço. Ainda faltava uma longa meia hora para o seu voo pousar. Claro que a ansiedade levou-o a chegar cedo demais. Não fosse acontecer algum imprevisto pelo caminho.

Estava nervoso por ali estar à espera dela. Hesitara mas ganhara coragem e agora seria francamente estúpido voltar para trás. Afinal era só mais uma pessoa à espera de alguém, ali no terminal de chegadas do aeroporto. O ambiente em volta dele era frenético e não o permitia descontrair. Ruídos indistintos próprios de um aeroporto em funcionamento juntavam-se com mil vozes em diferentes línguas e sotaques, aqui e ali projectadas acima de todos os sons com gritos de alegria no momento dos reencontros.

À sua frente agentes de turismos concentram-se. Começam a surgir várias pessoas ao mesmo tempo, um rio de almas sorridentes e aliviadas por terem chegado. Ele detém-se a assistir, tentando ver naqueles reencontros o que tanto aguarda. Vê o profissionalismo do agente de turismo recompensado. De fato e gravata, nome imprimido numa folha sem rugas numa mão levantada. Cortesia correspondida. Outro agente, este de jeans e t-shirt, nome gatafunhado num papel, não evitou um olhar de desdém por cima de um sorriso amarelo de uma senhora alta, idade avançada. Certamente esperava outra recepção.

Nova ida junto ao placar. Olha para as horas. Ainda faltam quinze minutos. De novo circula por toda a zona de chegadas, tentando empurrar o tempo para o apressar. Gritos audíveis chamam-o por momentos. Toda uma família, três gerações, soltam alegria a um jovem casal num coro espontâneo assustando um bebé que começa a chorar. Na rampa oposta duas crianças precipitam-se numa correria entusiástica. Um homem deixa cair com estrondo as duas malas que puxava e abre os braços para as receber bem junto da saudade que ansiava derrubar. Novos gritos, novos sorrisos, novos reencontros vão acontecendo em catadupa, permitindo-lhe abstrair-se um pouco.

Nova consulta ao placar e a ansiedade cresce mais um pouco. A hora de chegada já foi ultrapassada em dois minutos. Não tira os olhos esperando actualizações. Aguarda, fixa a atenção na linha do voo dela. Deixa-se hipnotizar pelo piscar constante de números e letras, ora em português ora em inglês, em português, em inglês, português, inglês. “Chegada prevista 11:20”, “Arrives at 11:20”, “Chegada prevista 11:20”, “Arrives at 11:20”, “Chegou às 11:22”, “Landed 11:22”, “Chegou às 11:22”, “Landed 11:22”. Chegou, aterrou e ele continua a ler o placar. Já sabe que ela chegou, mas permanece como que hipnotizado a ler aquela linha. Desperta e avança para junto da porta de onde surgem os passageiros. Sabe que ainda tem que esperar. Passam-se sempre longos minutos enquanto o avião estaciona, as pessoas saem, aguardam pelas malas e só depois vão ao encontro de quem as espera. Ele sabia-o mas logo ali parou, e levantou a cartolina branca.

Vão surgindo pessoas. Ouvem-se gritos de alegria. Em volta dele dão-se abraços, acontecem reencontros. Os minutos passam. Mais um grupo de pessoas surge puxando malas e carregando mochilas. Mais uma criança corre para os braços do pai regressado. Mais uma família grita as boas vindas. Mais agentes de turismo conhecem cordialmente os seus clientes. Pessoas agarram-se ao telemóvel. “Onde estás?”. Ouve-se porque há reencontros mais difíceis de acontecerem. Um casal surge e segue sem parar. São turistas e esses não têm ninguém à espera. Terão quando regressarem a casa. Duas raparigas saltam extasiante alegria, a amiga surge e abraçam-se as três com saltos pelo meio. Genuíno reflexo da infância que nunca perdemos e ali surge com naturalidade. Há sorrisos no ar misturados com vozes e gestos, acenos e emoções. Os regressados vão aparecendo pausadamente e ele continua a aguardar. Três amigos com pranchas de surf e mochilas indicam-lhe que são já as pessoas do voo dela. Pais, filhos, casais, amigos, e depois ela, finalmente. Segue indiferente antes de se deter ao ler o seu nome numa cartolina branca. Lê e não disfarça a surpresa. Sorri e ele também. Andam para o fundo da rampa quase sem desviarem o olhar um do outro. Aproximam-se. A cartolina voa gloriosa para o chão. Abraçam-se com a força da surpresa que ela sentiu. Um beijo agradecido no rosto.

“Que surpresa tão boa!” Ela disse e eles saíram a sorrir.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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