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Tempo de espera

Manteve o olhar vitrificado no painel como que a desafiá-lo na sua incoerência. Primeiro a informação. Ainda nem eram oito horas da manhã. Depois a constatação do absurdo quando os números se transformaram num 30ºC. Estava um calor estúpido e mais estúpido era estar ali. Assim pensava mas sabia  ser-lhe inevitável. Estar ali era um desconforto inevitável para fazer cumprir um desígnio desejado. Parecia que naquele olhar deslocado tão seu estava uma voz transcendental a gritar num canto do universo para que ele se mexesse na perseguição do seu propósito.

Era parvo estar ali àquela hora mas ele não sabia a que horas ela chegava. Chegaria de manhã, isso ele sabia. Tinha-o lido nas palavras em tons de prata que ela usava sempre que falava com ele, assim ele as gravava. E gravava tudo o que ela dizia porque só assim se guiava no emaranhado de dúvidas e ignorâncias do seu simples existir. Claro que ela não sabia que era esperada e esse era o assunto que o motivava a estar ali tão cedo, preparado para uma espera que podia ser bem longa. Ainda que soubesse que ela não precisava de ser esperada, o conforto de um sorriso de boas vindas após longa ausência soava-lhe ao romantismo de uma chuva de pétalas de rosas. Todavia não conseguia deixar de se sentir parvo. Sabia perfeitamente que se se oferecesse para a esperar ela responderia com o cansaço da viagem, a urgência de sentir o corpo desmaiado e a mente adormecida. Ele argumentaria com a vantagem de mais depressa chegar a casa, ela rebateria. Antes que um não fosse um não, fazer uma surpresa fazia todo o sentido.

Só sabia de onde ela vinha. Multidões chegavam e atropelavam-se nos encantos de um regresso, nas saudações e abraços, momentos ímpares de matança da saudade. Não há fado que resista a reencontro ansiosamente aguardado. No meio de tanta gente tornava-se difícil distingui-la, ele desejava ter visão para se  deixar absorver pela beleza que ela carregava. Pensar nessa beleza era o martírio que ele não conseguia evitar. A paciência vestia a farda de um soldado que o defendia da loucura. Após três horas desistir era fácil, mas desistir assim era o mesmo que deixar a mesa de jogo com a roleta a girar rápido e a aposta feita. E se saísse no número onde depositara as suas esperanças?

A realidade era o pesado calor que lhe colava a roupa ao corpo. Isso arreliava-o. O tempo esse é que em nada parecia real. Há horas que esperava mas mal as sentia passar. O calor derreteu o relógio e deixou o tempo suspenso na ansiedade que ele sentia. Viver manhãs de verão daquela forma fazia estender os dias para lá das 24 horas. Sentia o tempo parado e estava praticamente perdido no local onde escolheu estar. A testa suada não o refrescava e a fraqueza aligeirava-se silenciosamente. Definira uma hora para ir embora sem a ver, estupidamente ignorando que essa era apenas uma forma aflorada de desistência. Sentia esse momento próximo mas os ponteiros do relógio pendiam desmaiados desenhando curvas que alteravam a velocidade do tempo e cegavam-o

Hirto na espera e quase perdido dentro de si, sentiu um arrepio frio a percorrer-lhe o corpo. Primeiro agradeceu, depois vaiou. Sentiu os músculos cederam e os braços perderam a força no exacto momento em que a viu chegar. Levantou o braço, gritou o seu nome e mergulhou no chão após perder os sentidos.

As chapadas de preocupação que sentiu da mão dela suplantaram a vergonha por se ver cercado de curiosos. Nada disso importava agora. Estragara a surpresa que imaginara, mas sabe agora que o calor emanado e o tempo de curvas incertas não desenharam um relógio a desfazer-se, mas sim traçaram a direcção do caminho que o levou a acordar ao lado dela.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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