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Subida para o inferno

Enorme escadaria. Olhando para o topo ainda maior se tornava. É o seu primeiro grande tormento agora que mudou de vida para morte, de carne para vazio. Não via o topo da escadaria porque parecia não existir. A imagem da ascensão ao eterno que aprendera em nada se assemelhava ao que encontrou. Não era uma escada, eram apenas degraus de vento que pisava ritmicamente sem realizar qualquer gesto. Não haviam nuvens que se vissem, pelo que não podia também chegar a um portão celestial que sempre imaginou, onde o mandariam para os calabouços da Terra, para o palácio de Lúcifer, seu fiel amigo em vida.

Ele foi um homem mau, pessoa ruim, coração estéril. Talvez o maior cliché da sociedade em que nasceu. Pai ausente que parecia só estar para lhe marcar o corpo com o cinto de cabedal ou com a pedra do anel cujo brilho se perdeu sob finas camadas de sangue. Era sempre o alvo do seu pai quando procurava defender a sua mãe de mais um sova vespertina. Afinal era a sua mãe, e ainda que a odiasse por o trocar por consecutivas garrafas de aguardente, abominava vê-la a tornar-se num farrapo humano, numa alma solta de um corpo sem forças para a segurar. Um dia ouviu-a a pedir ajuda para se silenciar instantes depois, ainda antes de poder reagir. O que encontrou foi o seu pai a retirar a faca do peito da mulher feita sangue para a enfiar na própria barriga e se esventrar. Para ir ter com ela. Para continuar a infernizá-la na eternidade.

Os dois corpos que lhe deram a vida, inanimados em frente aos seus olhos, ossos sem almas. Assim contava ao Sr. Doutor, médico do orfanato. Falava-lhe e ouvia-o e assim aprendeu finalmente a confiar. Esse homem era alguém novo, nunca antes lhe haviam dado vontade de crescer. Soltou-se e chorou na sua frente, sentiu-se aconchegado, acarinhado, um abraço e o som do fecho das calças a abrir. Durante semanas viveu com o terror nos olhos e o sabor do pénis do Sr. Doutor no corpo.

Quando se fez adolescente já tinha assassinado. Primeiro o Sr. Doutor, depois o senhor da loja que não lhe deu as notas da caixa registadora. Caiu na vida de crime como quem cai de um precipício. A gravidade manda e tudo o que a vida lhe mostrou o empurrou para lá da borda.

Era um homem mau, não tinha dúvidas. Por isso quando aquela bala o penetrou com o desígnio do fim, já sabia que iria para o inferno. Mas estava a subir aquela escadaria e estranhava não saber. Mas afinal o que sabe o homem dos caminhos da eternidade? Subir ou descer, céu ou inferno, não passam de metáforas que nos ensinam em vida. E ali estava ele a subir pesadamente, com a alma cansada. Aquela subida estava a ser demasiado grande e isso fazia-o pensar no que fora a sua existência. Tanto tempo ali a subir obrigou-o a examinar as suas escolhas, e reflectir-se no rosto dos homens que matou e das mulheres que espancou. Das vidas que arruinou. Queria cansar-se, mas não conseguia. A alma não se esforça, as almas não se cansam.

Não sabia há quanto tempo havia morrido porque na eternidade não há tempo. Há um espaço vazio onde apenas ele está, só, sem companhia, sem alguém que lhe diga para onde ir. Em vida nunca lhe disseram para onde ir e o resultado foi uma existência envolta em maldade. Ser mau foi o seu trabalho de vida. A dor foi o que deu a quem com ele se cruzou, medo foi o sentimento que fez nascer nas pessoas. Cada paixão, sim porque os maus também se apaixonam, cada paixão foi transformada numa experiência fracassada em ser alguém que não podia ser. Não sabe se alguma vez amou porque nunca lhe ensinaram o que é amor. Mas sabe que cada momento de paixão, mesmo os mais tórridos, terminaram em violência. Cedo percebeu que os maus morrem sós.

E só ficou quando encontrou o seu companheiro deitado no corredor de uma casa abandonada, mergulhado no seu próprio vómito. Não sentiu pena dele, apenas mirou a seringa espetada no braço e revirou-lhe os bolsos em procura do valor que aquela amizade não lhe deu. Nenhum valor guardou, apenas duas beatas e o resto da heroína que lhe tinha vendido.

Um século, dois séculos, um milénio talvez. E não chegava ao topo das escadas. Sentiu o tempo de cem vidas terrenas e depois duzentas. Apenas queria chegar ao inferno, viver as dores que Lúcifer guardava para ele. Mas o tempo passava e as pessoas da sua vida desfilavam incessantes sob os seu olhar. Pensar nelas era tudo o que conseguia fazer. As torturas no inferno iriam permitir-lhe apagá-las por isso queria lá chegar depressa. Mas não havia velocidade. Apenas aquelas escadas e aquelas pessoas e os seus imutáveis pensamentos. As recordações da vida que odiou, os horrores que viveu, e aquelas escadas intermináveis.

Não se sabe quando este homem mau percebeu que já estava no inferno.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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