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Star Wars Episódio VIII: Os Últimos Jedi

Rian Johnson concebe uma Guerra das Estrelas mais arriscada

Já estreou o novo filme da saga Star Wars. Este Episódio VIII: Os Últimos Jedi é muito mais arriscado que O Despertar da Força. 

Star Wars Episódio VIII: Os Últimos Jedi” (2017) estreia precisamente 40 anos depois do lançamento de “Star Wars: Uma Nova Esperança” (1977). Estamos a falar de quatro décadas que separam estas visões, a mais recente de Rian Johnson (realizador de “Brick” e de “Looper“) e a mais antiga do visionário George Lucas. E as diferenças são obviamente perceptíveis em vários níveis, quer sejam nos domínios das suas narrativas (e formas ou fórmulas como se constroem), quer na concepção dos seus efeitos especiais, mas também a um nível que não passa despercebido: o do seu público/clube de fãs. Muitas das crianças e adolescentes de outrora são os pais (e surpreendentemente avós!) de hoje, que levam os seus filhos a assistir ao novo capítulo.

Temos, portanto, uma série que procura unificar gerações, que pretende agradar a miúdos e graúdos, celebrizando-se a si mesma. Ou seja, o presente nasce, ou renasce, pelo passado e pela busca de um sentimento que faça os seus espetadores venerarem mais um capítulo. Para mais que, como não seria de esperar outra coisa, e para a dar início a esta viagem, o habitual enquadramento do espetador na ação é feito in media res, algo que se tornou mesmo numa marca emblemática da saga. Por isso, o sentimento predominante no espetador seja o de nostalgia. Se tal não bastasse, “Star Wars” e a sua produtora a Lucasfilm juntaram-se ao universo da Walt Disney que é já uma máquina de contar histórias em tom classicista e em jeito de fábula (diria até de fabuloso). Já o anterior capítulo, “O Despertar da Força”, de J.J. Abrams (que assume agora apenas as tarefas da produção), insistia nessa sensação.

Nostalgia, porque “Star Wars” quer conservar um passado de Hollywood baseado no espetáculo, agora com mais sequências de ação de cortar a respiração (talvez, por isso, já esteja a ser considerado por muitos como o melhor filme da série), ao mesmo tempo que coloca os atores dos filmes originais, Mark Hamill e Carrie Fisher num pedestal de estrelas e divindades que se tornaram. Aliás, a personagem de Mark Hamill é agora o centro da história, vivendo numa ilha de um planeta bem remoto, sendo confrontado com os erros do passado. O seu envelhecido Luke Skywalker é um verdadeiro Mestre Jedi, que mostra em toda a sua intensidade como o actor amadureceu. Já a nossa General Leia, antes Princesa, tem uma participação fulcral no desenrolar dos acontecimentos, intensificando todo o drama, a própria tragédia familiar que a circunda, e o misticismo que a tornou aquela figura de referência para os fãs. Note-se que este filme, não seria de esperar o contrário, acaba mesmo por ser dedicado à actriz, que faleceu no final de 2016, aos 59 anos.

Star Wars: Os Últimos Jedi

Na tentativa de não revelarmos quase nada sobre este novo capítulo, vale pelo menos a pena dizer que a trama constrói-se através de vários sub-enredos, tal como acontecera em “O Império Contra-Ataca” (Irvin Kershner, 1980), e que reunem as novas personagens surgidas no filme anterior. Um confuso e angustiado Kylo Ren (Adam Driver) tenta convencer Rey (Daisy Ridley) a unir-se ao Lado Negro da Força e ao Líder Supremo Snoke (Andy Serkis em performance motion-capture), uma vez que o seu poder é despertado nos treinamentos de Luke Skywalker. Neste ponto da narrativa, temos o melhor dos confrontos entre Bem e Mal alguma vez vistos na série e como ambos se podem mostrar caminhos tortuosos. A conversa maniqueísta que é feita psicologicamente entre Kylo Ren e Rey mostra-se sub-carregada de sentidos. A carga sexual poderá ser subentendida como um deles, sendo exactamente o toque de dedos (e de mentes) entre ambos a unificação entre homem e mulher. Como Adão e Eva perdidos no paraíso que são tentados a criar algo de novo e revolucionário e a esquecer o passado. Rey terá que superar o mistério em torno dos seus pais e Kylo Ren insiste em renegar as suas origens, pelo menos no que toca ao poder da Luz.  Tudo continua ligado às forças patriarcas e à identidade.

Star Wars: Os Últimos Jedi

Numa segunda linha, temos Finn (John Boyega), que embarca numa aventura pela galáxia para conseguir encontrar um decifrador de códigos de segurança (Benicio del Toro a.k.a. novo Han Solo). E o sempre impulsivo Poe Dameron (Oscar Isaac) tem que lidar com uma destemida e arrogante Vice Almirante Holdo (Laura Dern, a roubar a nossa atenção na cena que nos deixou completamente boquiabertos pela ausência de som). Tudo é construído num tom quase novelesco, do seriado/serial, que separa a intriga, apenas para unifica-la no final. E até que isso aconteça, temos uma explosão de cores em diferentes locais e diferentes sabres de luz. Tudo devido à direção de fotografia Steve Yedlin e ao design de produção de Rich Heinrichs, das melhores que vimos este ano.

O design de produção consegue ser mesmo mais arrojado em relação que o filme anterior, vejamos por exemplo o espaço que o Líder Supremo Snoke ocupa. O vermelho intenso que o circunda parece assemelhar-se ao Technicolor dos anos 50, utilizado numa grande produção de Hollywood. Ao mesmo tempo que os guardas que o circundam carregam fortes semelhanças com o vermelho de guerra recorrente em Akira Kurosawa, visto, por exemplo, em “Ran”. Quanto à fotografia tão cedo não esqueceremos o planeta onde decorrem os últimos trinta minutos do filme. A imagem puxa o espetador à ação, visto que o impacto visual é estrondoso. O piso branco torna-se vermelho à medida que as naves saltam por cima dele.

Star Wars: Os Últimos Jedi

Outra das qualidades deste “Star Wars: Os Últimos Jedi” é a diversidade que se faz sentir entre o elenco. Temos actores de várias etnias e temos mais mulheres. Entre elas, Rose (interpretada pela estreante Kelly Marie Tran), uma ásio-americana num papel de uma heroína inteligente e talentosa. Afinal Star Wars é sobre uma galáxia distante, mas consegue estar tão terra à terra quando é preciso, num momento em que a indústria está a exigir uma radical metamorfose quanto à concepção de mais heroínas, vindas de várias partes do mundo. 

De resto, Star Wars: Os Últimos Jedi” não é o melhor filme da saga e a principal culpa é da sua longa duração, de 152 minutos. Ficamos cansados de tanta atenção dada a pequenos plots que prolongam e que demoram a ser resolvidos, quando na verdade não existe também nenhuma revelação que deixe confirmar teorias e especulações dos espetadores e fãs. Todo o fio que envolve as personagens poderia ser resolvido em menos tempo.

Mesmo assim, “Os Últimos Jedi” é talvez o filme mais desafiante alguma vez feito na saga. Temos ação, humor, tragédia e muita tensão entre as personagens, que certamente permitirão seguir novas linhas. Esperemos que o Episódio IX terminar com a saga Skywalker da melhor forma possível e que misture os desafios deste capítulo com o tom classicista do VII, afinal J.J. Abrams voltará a dirigir o projeto depois da saída de Colin Trevorrow. A ver vamos como Rey e Kylo Ren terminam o seu confronto. 

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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