Desporto

Sporting – O filme

Vinte e oito de Abril de 2002, no Estádio do Bonfim. Sócios, adeptos, sportinguistas de gema e afins guardam e recordam essa data com o maior dos saudosismos. O Sporting Clube de Portugal acabara de empatar o jogo com o Setúbal, a dois golos, e de confirmar a máxima expectativa que tinha de se tornar campeão nacional de futebol naquele ano, com ainda uma jornada por disputar.

Quatro de Novembro de 2012, no Estádio do Bonfim. Sócios, adeptos, sportinguistas de gema e afins rezaram e ansiaram para que essa fosse a data da mudança. O Sporting Clube de Portugal acabara de contratar um treinador belga, sob o qual caem esperanças imortais para um novo rumo, sob o qual recaem as responsabilidades de alterar o actual panorama de resultados do clube. Contudo, o Sporting perdera, então, na estreia de Franky Vercauteren, por 1-2, com o Setúbal.

Laszlo Bölöni, o último treinador campeão nacional pelo Sporting, em 2002

A cena inicial deste filme cheio de começos e de fins – o primeiro fim desta história é precisamente o campeonato nacional conquistado pelo clube dos Cinco Violinos – pode perfeitamente ser a temporada de 2002-2003. Com o obreiro do título, Laszlo Bölöni, a temporada começa por não corresponder ao sucesso da anterior.O campeão de 2002 tornava-se num 3º classificado. Esse foi o resultado final de uma época de avanços e recuos, numa equipa que tinha Cristiano Ronaldo a explodir, Quaresma a abanar, a segurança de Paulo Bento e até a magia do eterno Jardel.

Fernando Santos era o nome sonhado pelo presidente Dias da Cunha para esquecer a frustração de 2003. O trabalho desenvolvido no Porto era um bom cartão de visita. Lá, o treinador conseguiu cinco títulos – duas Supertaças, duas Taças de Portugal e Campeonato nacional. No Sporting, entrou e saíu sem que se desse positivamente pela sua presença – zero títulos e… 3º lugar.

Aquela que poderia ser uma história com grandes desenvolvimentos e peripécias não parecia ser passível de conquistar quem a seguia de perto. Para 2004-2005, sobravam grandes expectativas. José Peseiro, que levara, anos antes, o Nacional da Madeira da terceira divisão à Primeira Liga e que esteve também no mediático Real Madrid, queria alavancar a comunidade sportinguista e, claro está, a sua própria carreira. Era o terceiro treinador de Dias da Cunha em três anos, escasseando, cada vez mais, a margem de manobra do presidente. O discurso, com foco no tradicional, mas arriscado ‘‘quero ganhar tudo!’’ espelhava na perfeição o objectivo de Peseiro para o Sporting.

José Peseiro, actualmente no SC Braga, deixou boas indicações no Sporting, em 04-05

Deste Sporting, esperava-se um futebol atractivo, com preferência pelo momento ofensivo do jogo e espectáculo. O 3º lugar, novamente, não é absolutamente rectilíneo com o que a equipa produzia. O auge, esse, deu-se com a garantia da final da Taça UEFA, a jogar precisamente no Estádio de Alvalade, para a qual o clube se conseguiu apurar. No mais familiar palco, o Sporting, ainda assim, perderia uma competição internacional – 1-3, com o CSKA de Moscovo.

Talvez só esse pormenor tenha permitido que José Peseiro pudesse começar como treinador do Sporting a nova temporada, que foi de alteração na cadeira da presidência do clube. Soares Franco entraria para o lugar de Dias da Cunha. Futebolisticamente, os resultados começam por desiludir. Derrotas e falhas em compromissos europeus foram imperdoáveis e culminaram na demissão de Peseiro. Entraria Paulo Bento, em 2005, para o comando do Sporting. As novas filosofias do presidente coincidiam com o espírito igualmente renovado de Paulo Bento enquanto treinador – vinha da equipa júnior do clube.

O treinador dos títulos – Paulo Bento conseguiu quatro, mas nunca o tão desejado Campeonato

A base do plantel passaria a estar enraizada nas camadas jovens do Sporting, conhecidas em profundidade por Bento. A travessia no deserto dos títulos conheceria novos contornos: Paulo Bento é a figura principal desta trama por uns longos quatro anos, período em que conquistará duas Taças de Portugal e duas Supertaças. Para quatro temporadas, quatro títulos e nenhum o verdadeiramente desejado. Durante o seu reinado, foi em 2007 que esteve mais perto do título nacional. Um ponto foi o que o separou da glória efectiva. Ainda assim, conseguiu, nesse período, revelar alguns figurantes especiais, dos quais bastará apenas nomear João Moutinho, Nani e Rui Patrício. Para lá disso, Bento saíria de Alvalade com quatro títulos e quatro segundos lugares, em quatro anos – o casamento acabaria com a chegada de José Eduardo Bettencourt.

Nos últimos três anos, o período mais cinzento do filme, o bocejo cansado pela confusão e o baixar de cabeça. José Eduardo Bettencourt dura um ano na presidência do Sporting, para a qual salta Godinho Lopes e o clube conhece cinco treinadores – Carlos Carvalhal, Paulo Sérgio, José Couceiro, Domingos Paciência e Sá Pinto. Apenas o último conseguiu atingir uma final. Perdida, na Taça de Portugal, para a Académica (0-1). Zero títulos, portanto. No campeonato, dois 4º lugares – um deles a 28 pontos do campeão – e um 3º, a 36 pontos do 1º.

Foi Sá Pinto a começar 2012-2013, a digerir uma boa ponta final da época anterior, com boas participações na Europa e na Taça de Portugal, com o desejo de se tornar um novo-Paulo Bento, seu amigo pessoal, pelas parecenças na forma como se tornaram treinadores principais do Sporting. Já saíu de cena. Oceano, um outro homem da casa, também já fez dois jogos esta temporada. Em quinze jogos, nesta temporada, o Sporting leva duas vitórias, sete empates e seis derrotas, no total. Marcou dezasseis golos e encaixou dezanove.

Franky Vercauteren, o novo treinador dos leões

Para a nona jornada, o Sporting entra num 13º lugar, longíssimo dos seus rivais. Em dez anos, década em que não conquistou qualquer campeonato nacional, o Sporting teve quatro presidentes, onze treinadores, quatro títulos e inúmeras decepções. Laszlo Bölöni, esse mesmo de 2002, disse, há duas semanas que estava ‘‘disponível para regressar ao Sporting’’. É Franky Vercauteren que lá está já, com a missão impossível de se tornar no verdadeiro protagonista da película e inverter o ciclo negro em que o Sporting está afogado. A sessão continua, já com o Braga, de… Peseiro, e com a surpresa das surpresas – vitória do Sporting por uma bola a zero. Será este o início de um regresso ou a continuação de um filme que já dura há mais de dez anos?

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Vítor Teixeira

Gosta de letras e do que se pode fazer com as mesmas. Interessa-se por compreender e comunicar tudo o que se passa à sua volta, exactamente um género de repórter-sombra, solto, por aí.

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