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Sobre arte e outras coisas

Experimenta colocar “mona lisa” no Google e vê a quantidade de imagens que te sugere. São centenas? Milhares? Provavelmente a primeira coisa que notas é que umas têm maior definição do que outras, algumas serão a original e outras serão memes ou variações mais coloridas e contemporâneas. Sabias que há apenas 15 anos não poderias realmente ver uma boa cópia desta pintura a menos que comprasses um livro? Terias de ir pessoalmente a uma livraria especializada em arte, terias de gastar uma pipa de massa e levarias para casa um volume pesado, um daqueles chamado Arte do Renascimento ou As 100 pinturas mais famosas de todos os tempos. E depois, provavelmente numa página inteira, terias a reprodução da Mona Lisa.

A maneira como hoje em dia podemos ver esta e outras obras de arte nunca passou pela cabeça daqueles que as criaram, e nem sequer daqueles que as tornaram famosas. Na verdade, os historiadores de arte, os teóricos da cultura visual e mesmo os próprios artistas ainda estão a aprender a lidar com o que é a arte nas condições proporcionadas por uma Internet omnipresente. Já pensaste em como esse ato simples de “ver no Google” mudou a tua impressão das coisas?

Eu comecei a pensar nisso quando me vi pela primeira vez à frente de uma turma, desta vez do outro lado da barricada, para dar história da arte a quem não tinha o mínimo interesse naquilo. Contudo, eu estava ali e eles também, por isso tive de arranjar uma maneira de fazer aquilo funcionar. Se eu lhes “ensinasse” história da arte da mesma maneira que me tinham ensinado a mim, não lhes ensinava coisa nenhuma, porque eles nem queriam saber, iria tudo parecer-lhes demasiado aborrecido. E, por outro lado, era tudo coisas que poderiam ver na Wikipédia. Não podia negar que os smartphones e iPhones que eles tinham nas mãos eram ferramentas de pesquisa muito mais eficientes para encontrar a Mona Lisa ou as outras obras de arte do que o meu método de ir comprar livros ou requisitá-los em bibliotecas. Em menos de uma década, o meu método de construir conhecimento já não servia para eles e, por outro lado, o mundo onde eles iam viver e onde precisariam do que a arte lhes tinha para dar era profundamente diferente. No entanto, isso não quer dizer que a arte e mais exactamente a história da arte não tivesse nenhuma utilidade para eles, antes pelo contrário. Eles é que ainda não sabiam o quanto precisavam disso. Cabia-me a mim fazer as perguntas certas, para que lhes acordassem as consciências.

Por isso, os smartphones e iPhones entraram no jogo, pelo menos inicialmente. Eu queria provar-lhes que o que eles ali viam não era nenhuma obra de arte, mas aos olhos de quem está tão habituado ao motor de busca isso é uma crença difícil de desmontar. Por isso, antes de mais notámos as diferenças entre as imagens ditas “originais”. Havia imagens da obra completa e imagens de detalhes, versões em espelho, versões que comparavam a pintura com outra pintura, fotografias de turistas, reproduções com diferentes tonalidades e tipos de iluminação, até imagens que eram fotografias de livros e cartazes (reproduções de reproduções). Estavam todas ali, aparentemente de igual para igual, pequeninas no ecrã iluminado. Eram inconsequentes, nada impactantes e toda a gente concordava que havia maneiras muito melhores de fazer o retrato de uma mulher bonita. Se nós procurássemos definir o que é a Arte através da experiência de pesquisar no Google o nome de uma das obras de arte mais famosas de todos os tempos provavelmente apenas chegaríamos a uma definição muito triste de Arte. E esse é o cerne da questão.

As obras de arte famosas, especialmente as pinturas, estão em todo o lado. Os detentores dos direitos de imagem fazem questão que assim seja. Pinturas do Van Gogh aparecem em sacolas de pano, podemos vestir t-shirts com os desenhos do Picasso ou encomendar pela Internet almofadas com a impressão dos nenúfares do Monet. A arte vende, o merchandising mexe as finanças dos grandes Museus. E quanto menos as pessoas se mexem para ir realmente aos grandes museus ter com as obras de arte, mais as obras de arte aparecem por todo o lado. Elas vêm-se mais, mas observam-se menos. Elas estão em todo o lado, mas ninguém tem nenhuma relação significativa com elas, não para além do uso decorativo e meio fútil das suas reproduções. Ir ter com a Arte, estar com uma obra de arte, é uma coisa completamente diferente. A diferença é esta: em vez de se consumir um produto (passivamente), quem se vai encontrar com uma obra de arte dá-se à oportunidade de se descobrir (activamente). E, por isso, os Museus, os sítios onde as obras de arte realmente estão, são uma espécie de ginásios disfarçados de igrejas. Aquele silêncio todo, aquela solenidade, não é tanto para assustar, mas para permitir o bom combate que cada um dos visitantes trava com as suas próprias limitações. Estar com uma obra de arte é um desporto exigente e quem o pratica frequentemente não evita sair lesionado de vez em quando. Às vezes, uma obra de arte bate-nos com uma verdade na cara, que não queríamos ver de outro modo. Aliás, essa até é uma parte importante da razão da fama da Mona Lisa…

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