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Bem-EstarLifestyle

Sobre a morte prematura

Neste início de primavera, vieram a público notícias de flores que foram colhidas prematuramente: Fábio, Patrícia, Catarina. Todos eles vítimas de doença súbita.

A mãe da Patrícia publicou, na véspera da sua morte, uma memória de família com o seguinte desejo: “que estes momentos se repitam por muitos e bons anos”. O sorriso que a sua menina – de apenas 19 anos – ostentava não se repetirá. As redes sociais encheram-se de fotos de perfil enlutadas, de desabafos, incredulidade e perguntas. Como foi possível? No dia 26 de Março, a mãe da Patrícia estava longe de imaginar que a sua filha partiria no dia seguinte. Para sempre.

O Fábio tombou em campo durante um jogo de Futsal, vítima de uma paragem cardiorespiratoria. Foi reanimado no local, mas acabou por não resistir.

 A Catarina carregou no ventre, enquanto foi medicamente viável, um feto que nasceu prematuramente. A vida e a morte num desencontro prematuro. A mãe da Catarina, em jeito de desabafo, confessou perante as câmeras televisivas que se arrepende de ter mantido a filha ligada ao suporte de vida para salvar o neto, Salvador. Quem a pode julgar? Que questão ética se sobrepõe à complexidade das emoções humanas?

As redes sociais, no seu sentido mais perverso, admitem julgamentos à luz de outras experiências de vida. Uma senhora pedia à mãe da Catarina que não deixasse desligar as máquinas porque o marido dela sobreviveu após a sua oposição a uma situação semelhante. Uma médica interveio para esclarecer que existe uma diferença entre coma profundo e morte cerebral, sendo a última irreversível. E este comentário, por sua vez, gerou a revolta de uma senhora profundamente relogiosa que confrontou a médica com a certeza de que a última palavra a Deus pertence e que a ele caberia acordar ou não a Catarina. Houve ainda quem tivesse esperança de que a jovem mulher “regressasse” após o contacto com o bebé.

Nada disto aconteceu. Não existiram segundas oportunidades para nenhum destes jovens. A medicina avança, mas permanece incapaz de combater a imprevisibilidade da morte que vai marcando posição perante a impotência de qualquer avanço científico.

Serão as vidas, cada vez mais atribuladas, responsáveis pelo desenvolvimento da doença súbita ou mesmo pela desvalorização de sinais que o corpo vai dando? Se por um lado os meios de diagnóstico são numerosos e mais eficazes na deteção de patologias graves, por outro parece existir um aumento de casos de morte prematura. Ou será apenas sinal de uma maior atenção da comunicação social?

São inúmeras as questões que se colocam quando nos confrontamos, mais do que com a imprevisibilidade, com a inevitabilidade da morte, sejam elas de caráter ético, emocional, filosófico, científico ou social. Talvez por esse motivo os nossos alicerces cedam um pouco a cada novo confronto. Amanhã posso ser eu, ou tu, ou um dos nossos filhos.

Retiremos então de toda esta reflexão em torno da morte súbita as ilações necessárias para que possamos, de vez em quando, realmente viver.

Lara Barradas

Vivo com os pés na terra, a cabeça na lua. As palavras correm-me nas veias, pulsantes de emoções e ansiosas por se despenharem sobre uma folha branca. Tentam, desesperadamente, definir o indefinivel: eu.

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