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EducaçãoSociedade

“Só nós dois é que sabemos”…

Ser pai ou mãe nos dias de hoje, ou melhor, tentar ser pai ou mãe, de jeito, nos dias de hoje, é um desafio.

Munidos das pedagogias, dos livros, dos blogues, dos conselhos pediátricos, psicológicos e afins, parece que estamos sempre em passagem de ano: temos muito boas intenções, mas morrem, normalmente em janeiro, invalidadas pelo íman que nos puxa aos actos costumeiros. Ainda assim, temos hoje uma disponibilidade maior para ouvir a opinião dos nossos filhos, ainda que nem sempre a levemos em conta, que quem manda é o patrão. Temos uma preocupação maior do que as gerações primeiras, que desconsideravam a opinião infantil, tidas como os disparates dos putos, “vamos lá agora deixar as nossas sisudas vidas para ouvir criancices”? Esforçamo-nos por ouvi-los, de verdade que o fazemos, conscientes de que eles crescerão de forma mais feliz e estruturada se lhes for permitido pensar, dar opinião, e partilhar connosco as suas paixões. Tentamos, mas nem sempre conseguimos.

Qualquer pequenote, se vê que o foco da atenção paternal é outro que não a sua conversa, diz prontamente: não me estás a dar atenção.

Começamos por ouvi-los no seu entusiasmo com os desenhos animados, ou brincadeiras, ou livros, mas rapidamente a nossa mente foge para as rotinas existenciais do nosso dia a dia. Vamos murmurando um “sim, sim”, “claro”, “ai é”, “a sério”, entre frases que não ouvimos, como se estivéssemos a tentar fugir da vizinha do rés-do-chão. Ou seja, desconsideramos, apesar da teoria e, sobretudo, da vontade, aquilo que eles connosco generosamente partilham. Não é correcto, de facto. Eu própria fui brindada com um comentário do meu filho pré-adolescente, em tom magoado e, quase em exaustão das tentativas: tu não partilhas do meu entusiasmo pelo Fortnite. Eu, mãe, me confesso, não partilho mesmo. Até porque, se eu permitisse, ele passaria o tempo nesse mundo virtual, quem sabe esquecendo-se da minha própria e real existência.

Por isso, juntando o útil ao agradável, tento que esses momentos de partilha de entusiasmo ocorram em ambiente mais saudável do que a virtualidade. Ora, como o dito pré-adolescente adora tudo o que seja relacionado com automóveis e esses extrapolam a tecnologia electrónica e entram pela vida real, encontrei um ponto de convergência. Não é que eu partilhe desse entusiasmo, mas sempre é mais interessante que os jogos das skins e facas e armas e mais não sei quê, que de facto já não oiço metade (mea culpa). Ora, em consequência, lá vou eu, que nem caixeiro viajante, a pendular para todas e quaisquer feiras e feirinhas, eventos e exposições ligadas ao sector automóvel. Não me queixo, pois tem-me permitido usufruir, não só da companhia do meu filho, como de passeio e conhecimento de novas terras. Aliás, criámos rotinas anuais, como a ida ao Caramulo e ao seu festival anual. São tempos só nossos, em que o meu filho-formador me elucida sobre as grandes maravilhas da mecânica e das marcas, e eu, mãe-aprendiz, sendo uma aluna medíocre no assunto, lá vou retendo qualquer coisa.

Nesses eventos, em algum momento de fuga mental, olho em volta e reparo nas pessoas que o frequentam. Homens, sobretudo. Ou homens acompanhados das mulheres, a maioria revelando extrema sonolência. Ou homens acompanhados das famílias, com putos que se arrastam ao fim de 10 minutos de esforço. Mas, é de facto. evidente que o público-target é o masculino, adulto masculino. Ora, eu e um pré-adolescente, somos a excepção.

As bancas de venda associadas, acabam por ser basicamente iguais: material de merchandising, peças de automóveis, miniaturas de colecção, miniaturas integradas em micro-cenários, livros, calendários e autocolantes. Ao meio, habitualmente, uma banquinha de bijuterias, malas e lenços. Num destes dias, o meu filho questionou o sentido dessa banca, o que me deu uma profunda vontade de rir, que disfarcei com evidente dificuldade. Obviamente, é o aproveitamento financeiro da desgraça alheia: para alívio das senhoras arrastadas nestes passeios, há um local onde podem descansar os olhos e aliviar o peso da carteira, enquanto os maridos enaltecem as qualidades da jante 16. Um pouco ao nível da posição dos homens que, nos centros comerciais, aguardam que as mulheres saiam das lojas.

Pensei, mas não o disse, pela pedagogia, para não reforçar o pensamento geral de que as mulheres nada sabem de carros e, pior, só se interessam por futilidades. Retive o ímpeto da resposta,e expliquei-lhe que nem toda a gente se interessa por automóveis, nem mesmo os homens, e que de facto as mulheres não tendem, na generalidade, muito para o assunto, o que não quer dizer que não haja quem o faça e bem. Ou seja, não são muitas as mulheres que se interessem intrinsecamente, mas é como as bruxas, que as há, há e, quando são interessadas, ninguém as trava, como a Elisabete Jacinto. O filtro que temos que usar para travar a passagem de preconceitos para as gerações seguintes….

Confesso que tenho aprendido alguma coisinha.  Não é que sonhe com o assunto, mas o saber não ocupa lugar e dá jeito para alguma eventualidade. Sobretudo, com aqueles que acham que, por ser mulher, não percebo nada. Não percebo muito, mas percebo o suficiente para lhes mostrar que sei alguma coisa, e sabem porquê? Porque são tão tolos, tão convencidos da ignorância feminina, que qualquer coisinha os espanta. Obviamente que, se fossem entendidos, perceberiam facilmente que não passo duma aluna cábula. Mas os preconceituosos não são reveladores de grande inteligência… Assim, se for preciso, explico que uma matrícula 00-UT-00 de 2015 é obviamente um carro importado. Mas o gozo total é quando, no cúmulo do meu ar feminino, comento que da próxima vez que for à manicura, talvez pinte as unhas da cor das jantes do Clio Williams…delicioso…

Passamos assim bons momentos, ele explicando, eu aprendendo, não sem uma ponta de orgulho do meu menino. O automóvel é apenas o mote para a partilha, para a empatia e para o convívio. Parece-me, e não devo estar muito errada, que se eu agora ouvir aquilo que lhe importa, talvez ele partilhe comigo aquilo que me importa.Se o ouvir a falar da Playstation, talvez me diga se é feliz ou o que o preocupa. Se eu agora ouvir o que ele me diz, talvez o continue a fazer pela vida fora, mesmo quando o X5 já for um clássico…

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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