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ContosCultura

Só me lembro do fim

O bar de jazz é escuro e o fumo inunda-me os pulmões. Deixei de fumar há anos. Talvez a alegria se tinha ido embora com os cigarros, ou aproximadamente na mesma altura. As notas do piano passam por entre o fumo. Com um braço apoiado no balcão do bar, sentado num banco que tem mais conforto do que eu imaginava, mudo a minha atenção entre o copo de whisky puro e o barman que parece saído de um filme. De uniforme preto e branco, limpa um copo – não, vendo bem afinal é um shaker. Toda a atenção do barman está no shaker e no pano branco com riscas azuis que o limpa; a concentração dos olhos, o movimento já conhecido da limpeza. Eu bebo mais um gole e surpreendo-me com o copo vazio. Devia ter pedido quatro ou cinco dedos, em vez de dois. Precisava de esquecer a culpa. Preciso de sentir a garganta a queimar e os sentidos a definharem, a abandonarem-me, até sobrar unicamente uma alegria pura e pueril que há anos que não sinto. Se é que alguma vez senti.

 A voz começa a cantar. Eu peço outro whisky. O barman serve-o com rapidez: desviei o olhar mas já tenho um copo à minha frente. Pego nele e cheiro-o. Olho entre o fumo para a voz que canta, tento identificá-la na figura que está de vestido brilhante, lábios enormes e cabelo selvagem. Não sei dizer se é bonita ou feia, mas nem sequer me importo. Bebo o whisky devagar. Aquela música é triste. A voz é melancólica, o piano é infeliz. Um saxofone acompanha a tristeza, torna-a mais triste, penetra-a, eleva-a. Sexofone, penso. Sexofone. Piada sem graça. A melancolia é linda, a melodia é linda, a canção é linda, mas só tenho vontade de chorar. A música está a deixar-me ainda pior, mais deprimido e culpado, sinto-me bêbado e arrasado, incapaz, perdido. Continuo a beber o whisky, goles maiores até acabar. Talvez assim esqueça. Peço a garrafa inteira e deixo o dinheiro para pagar em cima do balcão. Quando pago, o meu cérebro sabe que acabou.

Levanto-me do balcão e, cambaleando, vou sentar-me a uma mesa mesmo em frente à cantora. Deixo-me escorregar no sofá, a música deprimente embala-me o corpo mole e os sentidos cansados. Olho para ela e tento ver os seus olhos, mas o meu foco não abdica dos lábios vermelhos enormes, imagino a voz de dentro dela a sair, em notas, em palavras, tão suave e afinada, e pergunto-me como é possível a voz e a pessoa serem uma só. Sinto muito calor. Sinto picos de calor na testa e nos sovacos, estou desconfortável. Dispo o casaco e Satanás senta-se ao meu lado. Sorri-me. Um sorriso brilhante e um fato impecável. Não me lembro de ter morrido. Mas se tivesse morrido, iria directamente para o Inferno.

“Estás pronto?” pergunta-me.

“Estou morto?”

“Não.”

Se calhar não é Satanás. Se calhar sou só eu. Se calhar eu sou o demónio.

“Quer beber mais alguma coisa?” o barman aproximou-se da minha mesa sem eu notar. Olha para mim. Deita um olhar azedo ao vazio onde Satanás esteve há segundos. Como se também o barman o visse. Mas eu já não o vejo. Satanás já não me acompanha.

“Não, estou bem” volto a servir-me.

Ele olha-me, entre a desconfiança e a pena. Não consigo afastar a culpa.

“Está pronto?” pergunta-me.

“Estou morto?” estranho, de novo.

O barman afasta-se sem me dar resposta.

Se calhar o barman é Deus. Se calhar morri mesmo e estou no purgatório à espera que alguém me aceite, que alguém veja o extenso pergaminho onde estão escritos todos os meus pecados e veja se sou digno de entrar no Inferno. Para o Céu não vou, não agora. Não nunca mais. Existem? O purgatório, o céu, o inferno? A culpa e a educação fazem-me temer que sim. Mas eu não sei, talvez pertença a outro limbo qualquer de outra religião qualquer. Rio-me. Quem iria querer a minha alma? Provavelmente enlouqueci e estou num manicómio, este é só mais um dos meus sonhos paranóicos porque provavelmente cuspi o comprimido que me dão todas as noites para me estabilizar. Imagino, sei lá. Seria algo tão tipicamente meu.

Levanto-me. Estou, de facto, pronto. Estou pronto e estou tonto, apoio-me nas costas do sofá para não cair, para me aguentar. Olho à volta, confuso. O bar está vazio. Nem sei se é o mesmo bar, se alguma vez aqui estive, se sou um fantasma do passado. Estou todo suado. Volto a sentar-me. Não estou pronto, nem sei para que é que devo estar pronto, para onde devo estar pronto. Os olhos pesam e as lágrimas molham-me as bochechas. Deito-me no sofá e sinto-me a desaparecer, a adormecer. A última coisa de que me lembro foi de ter assassinado a minha mulher.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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